04/11/2007

´Não vejo como os juros possam cair`

Fonte: O Globo

FGTS para classe média não reduz custo da casa própria, diz presidente da Abecip

A decisão do Conselho Curador do FGTS de permitir que a classe média utilize a linha de financiamento do fundo para compra de imóveis — avaliados em até R$350 mil, com juros de 8,66% ao ano mais TR — parece atingir em cheio os bancos privados. Mas Décio Tenerello, presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), diz que não. Ao menos, a princípio. E afirma que não há espaço para nova queda dos juros.

Como o senhor analisa as mudanças no financiamento com recursos do FGTS?

Tenerello: Não vejo lógica na idéia de um país que tem déficit habitacional de 7,9 milhões de unidades — dos quais 90% são famílias que ganham até três salários mínimos — desviar recursos altamente subsidiados para uma faixa acima de dez salários. Especialmente porque o mercado está atendendo plenamente a essa demanda. O dinheiro do fundo de garantia é um funding mais barato que a poupança: é TR mais 3%, enquanto a poupança é TR mais 6%. Cabe no bolso de várias famílias de baixa renda.

O senhor acredita que, por causa dessa medida, os bancos privados vão baixar suas taxas no crédito imobiliário?

Tenerello: É difícil trabalhar com uma taxa menor do que a que o mercado está praticando. O custo de captação na caderneta de poupança é de TR mais 6,17%, o que dá cerca de 7,4%. Com a administração de 2%, falamos de um custo total de 9% ao ano para os bancos. E eles já estão oferecendo linhas com TR mais 8%, ou seja, uma taxa de uns 10%. O spread fica muito estreito para baixar ainda mais os juros. Se não houver redução da Selic, o que diminuiria o custo do dinheiro, não vejo como os juros possam cair.

Mas aí os bancos não vão perder clientes para a Caixa?

Tenerello: Não, esse é um mercado que está super ofertado e super demandado. E a Caixa é a maior aplicadora dos recursos do fundo de garantia, mas os bancos privados também podem operar com essa modalidade. Já tem empresa operando, inclusive. O Itaú anunciou acordo com o Conselho Curador e, a princípio, repassará R$200 milhões. A maioria não faz isso porque ainda está com seus recursos totalmente voltados para atender à exigibilidade (obrigação de destinar 65% dos recursos da poupança para a habitação).

Mas essa linha não chega a afetar a concorrência? Ou o volume de recursos, de R$1 bilhão, é pequeno para isso?

Tenerello: O problema não está no volume. Num primeiro momento, R$1 bilhão não provocará impacto algum. O problema é o precedente de abrir esses recursos para um público que não precisa do fundo de garantia. Hoje estamos falando de um bilhão, em 2009 poderão ser R$10 bilhões.

Se não há espaço para queda de juros, o que ainda pode acontecer para facilitar o acesso à casa própria?

Tenerello: Desburocratizar o processo, que é muito trabalhoso e custoso. E uma redução da Selic, pois aí o custo do financiamento também cai. Mas estamos num momento de dar um salto de qualidade no sistema. Acredito que o caminho que temos que buscar é o de financiamentos com indexadores que não sejam a TR. Como o IGP-M ou o IPCA. Isso será possível no mercado secundário. Porque nem a poupança nem o FGTS serão suficientes para atender à demanda que vem pela frente.

 

 

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