09/05/2011

4º Distrito: Uma história de progresso industrial

4º Distrito: Uma história de progresso industrial

Fonte: Revista do ZAP

Crescimento da capital gaúcha nos próximo cinco anos passa pela retomada do caráter histórico desenvolvimentista dos bairros da Zona Norte

O caminho do futuro de Porto Alegre voltará a ser a Zona Norte, nos próximos cinco anos. A região do 4º Distrito, formada pelos bairros Floresta, São Geraldo, Navegantes, Farrapos e Humaitá, foi o pólo de desenvolvimento da capital gaúcha no século 19. Após décadas, a área volta a ganhar um papel de protagonista no crescimento da cidade a partir de um plano de revitalização cujo pontapé inicial é um projeto da iniciativa da privada: o Rossi Fiateci.

4º Distrito Fiateci
Antiga vista da Voluntários da Pátria


Foi a partir do trabalho – e da população de imigrantes operários que se mudou para perto das fábricas – que se deu o surgimento do 4º Distrito. “A cidade cresceu a partir daquela região, batizada de Caminho Novo, onde hoje é a Voluntários da Pátria, em 1824”, explica a arquiteta e professora da Pontifícia Universidade Católica do RS (PUCRS) Leila Mattar. Ainda havia o Caminho do Meio, atual Osvaldo Aranha, e o Caminho dos Moinhos, que se transformou no bairro Moinhos de Vento.

4º Distrito Fiateci
Imagem da Avenida Eduardo, hoje Presidente Franklin Roosevelt


Na Zona Norte, a Voluntários da Pátria foi o eixo estruturador do bairro. No século 19, a região é descrita por viajantes como repleta de chácaras e muito aprazível. No final do século, a Companhia Territorial Porto-alegrense loteou uma parte da região, para aumentar o número de residências, que já começavam a aparecer com a chegada dos primeiros imigrantes, que deram impulsão ao desenvolvimento.

Nos bairros São Geraldo e Navegantes, os galpões das fábricas misturavam-se às residências, tanto no Caminho Novo como nas ruas adjacentes, principalmente na avenida Eduardo, hoje chamada Presidente Franklin Roosevelt. “As pessoas não se deslocavam, elas moravam perto do trabalho”, pontua a especialista.

Os primeiros a chegar foram os alemães, seguidos de italianos e poloneses, entre outros povos. A diversidade étnica levou à criação de clubes e sociedades, como a Gondoleiros, a Navegantes São João e a Polônia, que existem até hoje. Os imigrantes deixaram de legado, também, uma série de templos religiosos, como a Nossa Senhora de Monte Claro, que congregava poleneses, e a Igreja Evangélica Navegantes (hoje Igreja da Paz), que reunia alemães.

O bairro-cidade autossuficiente
De acordo com a historiadora, a mistura de usos do bairro, com instalações industriais, ocupação residencial e presença de comércio varejista, foi um dos fatores que colaborou para o desenvolvimento do local. “Durante algum tempo, por sua estrutura e condição de autossuficiência no atendimento às necessidades de seus moradores, bem como aos da cidade, a região ficou conhecida como ‘bairro-cidade’”, conta.

O Caminho Novo começava no Mercado Público e seguia até quase o limite com Canoas, município vizinho. Na parte do Centro Histórico, suas proximidades tinham sobrados, habitados no andar superior e com lojas no piso térreo. À medida que a via avançava em direção ao norte, no entorno de onde hoje é a rodoviária, a margem do então Caminho Novo passava a abrigar armazéns de secos e molhados. “Na época, o Guaíba margeava a Voluntários, então esses comerciantes recebiam as mercadorias pelo lado do rio e as vendiam pelo lado da rua”, explica Leila. Ela lembra que, nesses tempos, não havia supermercados na cidade, e era nesses armazéns que a população se abastecia.

4º Distrito Fiateci
Mercadorias chegando aos armazéns


Outro fator preponderante para o desenvolvimento da região era a linha férrea – não a mesma que hoje faz correr o Trensurb – que ia da Capital até Novo Hamburgo, na região metropolitana. “Os principais meios de transporte da época eram o fluvial e o ferroviário, e foi justamente a facilidade de estar perto dos dois – Guaíba e trem – que impulsionou a criação de indústrias na parte central da Voluntários”, continua a historiadora.

Mas assim como a presença da via férrea e do Guaíba facilitaram a instalação das indústrias, o crescimento e preponderância do transporte rodoviário foi um dos fatores que levaram ao esvaziamento da região, comenta Leila. “Pelo final dos anos 1950, o transporte rodoviário facilitou a saída das mercadorias para locais onde antes o trem e os barcos não chegavam, então dois dos principais atrativos da localização deixaram de ser tão importantes”, esclarece.

As lembranças dos moradores
Mesmo já tendo nascido na época que marcou o início do declínio do bairro, Antônio Almeida, o Toninho Português, lembra com saudade “dos tempos de antigamente”: “ninguém dependia de condução, se fazia tudo a pé”. Sentado em um bar na esquina das avenidas São Pedro e Presidente Franklin Roosevelt, Toninho Português tem a ajuda do amigo Jaques Machado, o Jacão, para contar a história do 4º Distrito.

“Isso ganhou força quando o AJ. Renner instalou sua indústria aqui (em 1914), em uma gleba grande junto ao rio”, conta Jacão com a fala mansa. “A produção foi crescendo, mais gente foi vindo morar no bairro para trabalhar na fábrica, e o Renner, que é tido como patrono do 4º Distrito, teve que construir escolas para os filhos dos funcionários, posto de saúde e tudo mais. Isso ajudou a alavancar a vida social da região”, lembra.

4º Distrito Fiateci
Desfile de bandas na Franklin Roosevelt


“Ele também incentivou o esporte”, interrompe Toninho. “Criou o Grêmio Esportivo Renner, onde jogavam os funcionários da fábrica, que chegou a ser campeão aqui na cidade, em 1954, batendo até a dupla Gre-Nal”, vangloria-se o morador.

As agremiações esportivas e os clubes sociais eram quase um reflexo do caráter multiétnico da região e organizavam os grandes eventos que mobilizavam a população – especialmente o Carnaval. “O Gondoleiros era dos italianos (…), o Almirante Barroso era alemão, o Vasco da Gama era dos portugueses e o Águia Branca, que depois virou Sociedade Polônia, era dos Poloneses”, relata Jacão.

Infraestrutura e localização
O que o pesquisador Alexandre Fortes destacou como fatores que contribuíram para o desenvolvimento do 4º Distrito na época é exatamente o ponto de apoio de um processo de revitalização iniciado pelo Rossi Fiateci e a Arena do Grêmio: o terreno plano, as facilidades de infraestrutura, a possibilidade de expansão e a proximidade com o Centro Histórico. Fortes aponta esses itens na obra Nós do Quarto Distrito: a Classe Trabalhadora Porto-alegrense e a Era Vargas.

O Rossi Fiateci é um empreendimento que reúne três torres residenciais e uma torre comercial – além de um centro de compras – dentro da área da antiga Companhia Fiação e Tecidos Porto-Alegrense. A fábrica, fundada em 1891 na esquina da Voluntários com a São Pedro, é uma das primeiras do bairro e disputava em número de funcionários com as indústrias de A.J. Renner de acordo com dados de um recenseamento municipal feito em 1916, com cerca de 300 trabalhadores empregados.

4º Distrito Fiateci
Frente do Fiateci, onde será o empreendimento da Rossi


O projeto, inspirado nas mais bem sucedidas revitalizações no mundo (as dos bairros Soho e Tribeca, em Nova York, e Puerto Madero, em Buenos Aires) é um retrofit tanto arquitetônico quanto urbanístico, já que possui torres tanto de finalidade residencial quanto comercial, mantendo a tradição de morar perto do trabalho e dos serviços que marca a história da região. Ele é considerado um dos pontos de partida de uma retomada do perfil de preponderância econômica histórico da área.

A iniciativa é reconhecida como fundamental pelo poder público e está dentro do que o secretário de Planejamento Márcio Bins Ely chama de projeto de “desenvolvimento e qualificação” da área. A própria prefeitura já investiu R$ 40 milhões na região nos últimos cinco anos já apostando nessa revitalização.

Aproveitar esses espaços, para o Diretor da Regional Sul da Rossi Construtora e Incorporadora, Gustavo Kosnitzer, é uma questão de visão de futuro e de ousadia empresarial.

Na área há escolas públicas e particulares, postos de saúde,  rede de transporte coletivo que inclui o trem de superfície e mais de 120 linhas de ônibus, que conectam o bairro ao Centro Histórico, a tradicionais bairros da região central – como Moinhos de Vento, Bom Fim e Praia de Belas, onde se encontram a maioria dos órgãos públicos -, à Zona Sul, às universidades públicas e particulares, e à Grande Porto Alegre.

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