14/11/2008

A arte como fio condutor

Fonte: O Estado de S. Paulo

Em meio a arranjos decorativos inesperados, Mônica Filgueiras deixa sua marca no apartamento do Itaim

Foto: Zeca Wittner/AEZap o especialista em imóveisMônica Filgueiras, em seu home office

São Paulo – Longe do lugar-comum, viver com arte parece ser tarefa para poucos. Aplicado aos domínios da casa, o trabalho artístico introduz inteligência, mas também controvérsia, dado que pressupõe uma inquietude permanente. E que impõe uma nova racionalidade ao espaço doméstico.

“Nunca me agradou a idéia de decorar com base em fórmulas preestabelecidas, tipo duas poltronas mais um sofá”, dispara a galerista Mônica Filgueiras, como que se antecipando à pergunta sobre sua predileção por determinado arranjo decorativo – em meio a inesperadas sobreposições em seu apartamento, a arte é que induz às escolhas.

Que subverte, por exemplo, o passado de uma cristaleira por meio da inusitada série de toy art; acentua a teatralidade do quarto, equipado com boudoir, sob o olhar de Frida Kahlo estampada em uma almofada; e impregna de sensibilidade pop a sala mobiliada com poltrona revestida de pele (falsa) de onça e poltronas cromadas Marcel Breuer (réplica por R$ 825, na loja virtual Tok & Stok). Virtudes nada desprezíveis, em se tratando de um imóvel compacto, com pé-direito modesto e pouco mais de 130 m², mas no qual cada objeto parece encontrar seu lugar específico. A começar pelas coleções cuidadosamente organizadas pela galerista, de pequenas pedras a pesos de cristal, seus “pequenos vícios”.

“Comprei o apartamento na planta. Foi o primeiro prédio de seu porte no Itaim. Dava até para vê-lo da janela do avião”, recorda a santista Mônica, que, por causa dos leilões que promovia no Rio nos anos 70, costumava observar a construção do alto, despontando no skyline paulistano. Momentos de duplo contentamento que assinalavam a volta para a casa – e para a metrópole que escolheu para viver e trabalhar. “Meu caso com São Paulo vem de longe”, revela. Mais precisamente da década de 60, quando ingressou no curso de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado, e prosseguiu depois, ao abrir, em 1973, o Gabinete de Artes Gráficas na Rua Haddock Lobo – embrião da galeria Mônica Filgueiras, instalada na Bela Cintra desde 1980.

Espaço para o afeto
“Comecei a me interessar por arte, profissionalmente, em um período de intensa produção artística. Existia um sentido de urgência e também um intenso grau de cooperação entre todos”, conta ela, citando um óleo de José Roberto Aguilar – parte de uma série exclusiva, partilhada com os amigos, com o objetivo de financiar a gravação de um disco pelo artista. “Ele fez uma tela para cada um de nós, dividiu os custos e conseguiu o dinheiro”, comenta, ressaltando o cromatismo intenso da composição. Ou ainda no estreito corredor forrado de óleos e telas, pintado em off-white (R$ 200, o galão, com 18 l, da Suvinil, na FK Tintas) e revestido de madeira de demolição (custos a partir de R$ 240, por m², no Espaço Santana).

“Sinto que muitos dos que me visitam pensam encontrar um prolongamento da galeria, mas aqui o critério é outro: sai o olhar profissional e entra o afeto”, adverte ela, instalada em sua escrivaninha, um dos móveis herdados do escritório do pai, renomado advogado paulistano. Como pano de fundo, a parede coberta de trabalhos emoldurados, de cartões de Natal a pequenas dedicatórias.

Luiz Paulo Baravelli, Tomie Ohtake, Rubens Gerchman (gravuras a partir de R$ 2 mil, na Galeria Mônica Filgueiras). Artistas de diversas gerações e tendências, reeditados pela sua memória afetiva nos interiores do apartamento. “Um amigo diz que não tenho mais um centímetro de parede livre. Que nada, sempre tem!”, rebate Mônica. Recentemente, ela se encantou por jovens artistas, Guilherme Machado e Guilherme Mosqueda, e logo incorporou dois de seus trabalhos à casa. “Comprei no ato. De repente, percebi que não podia mais viver sem eles”, admite.

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