25/03/2007

A arte do povo está em casa

Fonte: O Globo

Apartamento de Bete Mendes é homenagem à cultura popular

André TeixeiraZap o especialista em imóveisNa entrada da apartamento uma das tapeçarias que foram trazidas do México em 1979

Quando Bete Mendes comprou seu apartamento no Bairro Peixoto, em 1977, o pequeno e charmoso prédio já tinha 50 anos de construção. Trinta anos depois, aos 80, o lar-doce-lar dessa grande atriz da dramaturgia brasileira não pára de se renovar. É que Bete tem paixão pela cultura popular e, a cada viagem de trabalho, presenteia sua casa com um quadro, escultura ou peça de artesanato. Sem contar as obras feitas por amigos, que já sabem que, naquela casa, sua arte terá lugar garantido.

Como a pintura feita pela cantora e compositora Gisa Nogueira, irmã de João Nogueira, e os dois quadros pintados pelo sambista Nelson Sargento, que Bete exibe, com orgulho, na parede de sua sala. Ou o conjunto de quatro gravuras de desenhos que foram feitos por Dorival Caymmi, exposto no escritório da atriz. As paredes claras, explica a atriz, são justamente para serem vestidas.

André TeixeiraZap o especialista em imóveisCom o pé direito generoso e janelas amplas, o apartamento do Bairro Peixoto fica num prédio construído há 80 anos

Mas Bete não veste só as paredes. Veste o chão, a estante, a mesa de centro. No piso da sala, um legítimo tapete bordado a mão com ponto de arraiolo, de Passa Tempo, Minas Gerais, dá o colorido. Sobre os móveis, dezenas de adornos: um pavão do Vale do Paraíba, bonecos de cerâmica de Caruaru, um vaso de cerâmica Marajoara, uma gueixa japonesa, um conjunto de bonecas russas, uma fruteira da República Tcheca. Até do lado de fora de sua casa, ela encontrou espaço para expor um pouco de arte: dos dois lados da porta de entrada, pendurou tapeçarias mexicanas.

— Não é só arte, é história — frisa Bete, mostrando uma máscara artesanal para exemplificar: — Esta máscara é de Bezerros, em Pernambuco, conhecida como a Terra dos Papangus, porque, segundo contam os moradores mais antigos, grupos de mascarados invadiam as residências durante os festejos carnavalescos para comer e beber anonimamente. E o prato típico da região é o angu de milho. Hoje, as máscaras são tradicionais do carnaval de lá.

Decorada com móveis de Gramado, tradicional pólo na Serra Gaúcha, a sala de Bete de fato transmite a sensação de casa serrana, graças ao generoso pé-direito e às amplas janelas. Um pouco de verde, que a atriz faz questão de ter, ajuda. Ex-deputada federal, ex-secretária de Cultura do Estado de São Paulo e ex-presidente da Funarj, Bete conta que não abriu mão do imóvel nem quando teve que viver fora do Rio:

André Teixeira Zap o especialista em imóveis

— Mesmo no tempo em que morei em Brasília e em São Paulo, mantive o apartamento. O prédio é antigo, não tem elevador nem garagem, e talvez por isso seja tão tranqüilo. Gosto muito de ler no escritório e de ouvir música na sala — conta Bete, mostrando suas duas vitrolas, uma de 45 e outra de 78 rotações, nas quais ouve antigos discos.

As lembranças dos 40 anos de carreira artística também renderam belos enfeites à casa. Na parede do hall, Bete pendurou quadros de fotos suas com personalidades como a poetisa Cora Coralina, o comediante Grande Otelo e o sambista Luiz Carlos da Vila.

‘Eu acho que a casa é viva’

A atriz se emociona quando mostra a máscara que ganhou ao ser homenageada no Festival de Teatro de Santos, sua terra natal. E que foi recebida das mãos do ator Plínio Marcos, seu conterrâneo, em 1999, o mesmo ano em que ele morreu.

— Acho que a casa é viva. Por isso, nunca tive assessoria de decoração. Tenho receio de que a casa fique tão elegante a ponto de eu ficar apreensiva de encostar nos objetos, de quebrar algo — conta Bete.

A partir de abril, a atriz vai encarnar na TV Globo a antológica Dona Benta, personagem do “Sítio do Picapau Amarelo”, de Monteiro Lobato. E presta, assim, mais uma de suas homenagens à cultura popular.

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