18/05/2009

A era de ouro da Arte de tecer

Fonte: O Estado de S. Paulo

Exposição em Paris mostra como as tradicionais manufaturas francesas enfrentaram o século 20

É sabido que, desde o século 17, os franceses são grandes mestres na arte de tecer – um artesanato que floresceu, se desenvolveu e foi se refinando graças ao trabalho que era executado pelas grandes manufaturas de Beauvais, Gobelins e Savonnerie. O resultado dessa meticulosa atividade manual, que para muitos tem ranço de passado, mas que serviu para forrar paredes inteiras, cabeceiras de cama, dosséis, cadeiras, bancos e sofás em palácios reais e da aristocracia europeia, pode até hoje ser visto e admirado por visitantes e turistas estrangeiros, e continua a atrair colecionadores e apaixonados por antiguidades.

Fotos: DivulgaçãoZap o especialista em imóveisBiombo Os Pirineus, criado por Augustin Hanicotte e Eric Bagge, em 1926

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que não se sabia tão bem, e que a exposição Elégance et Modernité, 1908- 1958, un renouveau à la française, inaugurada em Paris, no dia 5, na Galeria dos Gobelins, vem justamente nos revelar, é como essas grandes manufaturas enfrentaram a chegada do século 20 e a modernidade, um período de tantas transformações acarretadas pela industrialização e de novas posturas em matéria de usos e costumes. A mostra, que deve permanecer em cartaz até 26 de julho, exporá ao público, pela primeira vez, peças que pertencem ao Mobilier National e que já serviram para decorar residências presidenciais e embaixadas francesas no exterior. São sofás, cadeiras, biombos e painéis forrados com tapeçarias feitas nessas três manufaturas, baseadas em desenhos feitos por grandes artistas plásticos então contemporâneos e encomendados aos melhores criadores de móveis de Paris, como André Groult, Émile-Jacques Ruhlmann, Maurice Dufrene, Armand-Albert Rateau, Gilbert Poillerat e outros do mesmo calibre.

Não sendo um gênero novo, a ideia de convocar artistas foi a maneira encontrada, nas primeiras décadas do século, pelos diretores dessas manufaturas, como Gustave Geffroy, de Gobelins, um crítico de arte e amigo de muitos artistas, e Jean Azalbert, de Beauvais, um ex-conservador da Malmaison, para associar a arte decorativa da tapeçaria à modernidade que então se vivia. Em colaboração, as três manufaturas se transformaram em laboratórios desses novos tempos, uma política que foi seguida por seus sucessores durante toda a primeira metade do século, prática depois interrompida e que só seria retomada em 1999 e 2004, quando novamente as manufaturas resolveram convocar artistas contemporâneos para influenciar em suas criações. 

LUXO E REFINAMENTO – Mesmo que no início do século a tecelagem da tapeçaria não fosse uma novidade e pudesse, mesmo então, soar algo retrógrado, há quem considere esse um período de ouro, muito especial e particular, pois testemunha um momento muito fértil do luxo e do refinamento francês, privilegiado pela capacidade de fazer, ou do savoir faire desse artesanato tão delicado e tradicional, posto em confronto com o mobiliário de uma nova era. Artistas plásticos como Raoul Dufy, Xavier Longobardi, Odilon Redon, Emile Gaudissart, Paul Vera e Jean e André Lurçat, mais famosos hoje do que então, aceitaram de bom grado associar seus nomes ao mundo das artes decorativas, um setor especialmente fulgurante no período.

Zap o especialista em imóveisSofá de Jean e André Lurçat, moderno com sua forma geométrica

RELEITURA – As mudanças no comportamento doméstico – vivia-se na França a 4ª República – acabavam influenciando a questão da forma e do repertório ornamental. Vivia-se o pós-art nouveau, e o que aconteceu nesse setor específico da tapeçaria foi a fixação no tempo de um recorte de criatividade muito especial, de uma renovação baseada na releitura de estilos franceses antigos e que reagiam à influência e à quase imposição de movimentos vanguardistas vindos de fora.

Interessante é que os artistas, ao desenharem os cartões que seriam traduzidos depois pelos artesãos, definiam inclusive quem deveria ser o designer do móvel que ganharia o seu desenho, que tipo e tom de madeira seriam adequados, qual combinaria melhor com as cores do desenho. Tinham consciência do móvel como objeto único, elevado à categoria de arte, mesmo que pudessem ser repetidos e comercializados. Em tempos não mais monárquicos, havia já a ideia de que o móvel de bom desenho e qualidade pudesse se popularizar e estar mais ao alcance da burguesia.

A exposição, que tem curadoria de Yves Badetz, conservador do Musée d””Orsay, e de Marie Hélène Massé-Bersani, do Mobilier National, foi ambientada pelo arquiteto museográfico Didier Blin, e se divide em módulos temáticos que se entrelaçam, como aquele que foca o espírito do século 18 ainda presente em 1910, o que reflete o encanto com a vida moderna e fala de esportes, lazer, aviões, astros e do espaço, ou o que faz apelo à poesia e à literatura, aos símbolos do poder ou usa a elegante paisagem parisiense como motivo ornamental.

PRESENÇA DA MODA – Como não poderia faltar em se tratando da França, a moda está presente na mostra, fazendo o mesmo apelo à arte e ao bom artesanato. Na exposição, a associação arte-moda está exemplificada numa bela coleção de pequenas bolsas e carteiras, com desenhos, entre outros, de designers de moda famosos então, como Paul Poiret e Marion Stoll. As cores usadas eram, em geral, alegres. Falar do automóvel e do avião, como fizeram Bellaigue e Edelmann em seus biombos, ou de astros e da conquista do espaço, como fez Longobardi em seus conjuntos de poltronas e cadeiras, ou Pascalis com seus biombos decorados com dirigíveis, planadores e hidroaviões, era uma forma de se colocar na modernidade e de homenagear a ciência moderna. Com verve, charme e elegância.

Uma boa notícia para quem não puder ir a Paris nos próximos meses é que dentro da temática tapeçarias do Mobilier National, e em meio às atividades no Ano da França no Brasil, um conjunto delas, antigas e contemporâneas, muitas feitas a partir dos cartões originais de Eckhout, de paisagens das antigas e novas Índias, e outras assinadas por artistas contemporâneos, estarão expostas em Belo Horizonte, no Museu de Artes e Ofícios, entre os dias 18 de junho e 23 de agosto, e no Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro, de 10 de setembro a 15 de novembro. D?Eckhout à nos jours, chefs-d?oeuvre des Gobelins : collections et creations du XVIIème au XXème siecle é como se chamará a exposição organizada especialmente para o Brasil. (www.mariaignezbarbosa.com)

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