30/10/2008

A paz no alto do Japi

Fonte: O Estado de S. Paulo

Suzana Traldi reforma casa de colono e acentua o ar rústico da habitação, um refúgio perto da reserva que venera

São Paulo – Esta história começa com a chegada ao Brasil, em 1910, de Hermes Traldi, italiano de Montova. Ele tinha 18 anos e veio para trabalhar com um tio, em São Paulo. Sua tarefa era fazer negócios em cidades do interior. Gostou de Jundiaí, onde fez amizade com o pessoal da colônia italiana, de quem sempre ouvia a mesma queixa: sobra uva e falta vinho.

Astuto, Hermes, que havia se mudado para a cidade em 1924, não deixou por menos: com a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, as terras valiam quase nada e ele aproveitou para comprar muitos hectares na Serra do Japi. Plantou uvas e depois fundou a Vinícola Hermes Traldi, que existe até hoje.

“Hermes era meu avô. Em Jundiaí, ele deixou 640 hectares de terra divididos em três fazendas”, conta Suzana Traldi, que mora numa delas. Em outra, ela mantém uma pousada e, em 20% de toda a área, planta eucaliptos. “O resto é mata nativa”, explica Suzana, uma das responsáveis pelo trabalho de preservação ambiental do Japi. Arquiteta formada pela FAU-USP, sempre trabalhou com grandes construções (supermercados, shoppings), todos em Jundiaí. “Fora os anos que passei em São Paulo, durante a faculdade, nunca saí daqui”, revela a mulher nascida e criada em Jundiaí. “E o engajamento com a causa ecológica do Japi toma hoje todo o meu tempo.”

Apaixonada também por história, Suzana conta que, até o início do século 17, a região era habitada quase que exclusivamente por tupi-guaranis. “Os primeiros colonizadores brancos chegaram em 1615, afugentando os indígenas, que se embrenhavam na mata. Quem os protegia eram os jesuítas.” E é aí que esta outra história se cruza com a da família Traldi.

Numa das fazendas havia um muro antigo, feito de pedra, barro e mato, típico da época. Consciente do valor histórico, Suzana preservou-o quando reformou a casa. Pesquisa daqui, pesquisa de lá, chegou à conclusão de que o muro pertencera a um posto avançado de jesuítas. “Havia um sino, aí em frente, que era usado pelos jesuítas para avisar os índios da aproximação dos bandeirantes, que vinham caçá-los”, presume ela.

Por causa da localização e do excesso de luz, Suzana escolheu morar numa casa de colono, simples e compacta. “Quando vi que não era viável recuperar a antiga sede, resolvi vir para cá”, explica Suzana, que fez o projeto de reforma. Nos quatro lados da casa, abriu janelões do chão ao teto. Térrea, a morada tem dois quartos, closet, banheiro, sala de estar com lareira e sala de jantar integrada à cozinha americana. Para manter o ar de roça, Suzana quis piso de tijolos. Os móveis são rústicos, mas só no estilo. Como a curiosa mesa Meca na saleta de estar – com tampo de vidro, quando fechada, guarda tabuleiro para jogos; aberta a tampa, serve de apoio para prato (R$ 2.890, na Malú Decorações).

O grande trunfo da habitação está na varanda com cobertura de telhas. É nesse espaço, com bancos de madeira de demolição (a partir de R$ 350, no Empório do Rústico), aparador feito de dormente (a partir de R$ 600, idem), mesa, almofadas e arranjos de flores que a família Traldi se reúne para tomar café e jogar conversa fora. Em vários pontos, peças do artista plástico O. Rocha, que trabalha com concreto celular (a partir de R$ 80). À frente da casa, um amplo terreiro com jabuticabeira, limoeiro e outras espécies frutíferas. “Aqui acordo com o sol e o barulho dos pássaros. Não vou encontrar algo melhor”, diz Suzana.

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