07/01/2007

A procura de especialistas

Fonte: O Globo

O desafio dos profissionais que apostam nos serviços de restauração de objetos antigos

O GloboZap o especialista em imóveis

A palhinha da cadeira se rasgou. A cúpula de pergaminho do abajur amarelou. O cristal do lustre caiu. E o vitral rachou. Na hora de buscar solução para esses e outros problemas na decoração da casa, a maior dificuldade é encontrar mão-de-obra especializada, capaz de reparar, com cuidado, aquele objeto de família que atravessa décadas ou aquela peça de grande valor afetivo e material. Pois o “Morar Bem” saiu à cata desses profissionais e descobriu figuras que apostam no ofício iniciado por gerações anteriores. Ou que aprenderam com especialistas a arte de dar cara nova a itens antigos.

É o caso, por exemplo, de Francisco Alves do Nascimento, que trabalha com cúpulas de pergaminho e restauração de lustres de cristal. Aos 14 anos, começou como ajudante de um austríaco e, há quase quatro décadas, ganha a vida como restaurador:

— Hoje em dia, são poucas as pessoas que trabalham com pirogravura em ouro. Antigamente era fácil encontrar essa mão-de-obra, mas atualmente é uma raridade — atesta Nascimento, que também trabalha com revestimento de couro para escrivaninhas e papeleiras e com aplicação de brasões em peças de diferentes materiais.

O empalhamento de cadeiras é uma atividade que pode parecer comum. Mas não é. Apesar da oferta de artesãos encontrada pelas ruas, quem atravessou gerações dedicando-se à profissão diz que é preciso técnica e uso de materiais específicos para não haver risco de descaracterização das peças.

José Vicente Martins Miranda aprendeu com o pai — o imigrante italiano Vincenzo Miranda, que chegou ao Brasil em 1958 — a arte do empalhamento. Cada um atende aos clientes em sua própria casa, que ganhou um cantinho usado como oficina. Vincenzo já fez trabalhos para Carlos Drummond de Andrade e para a Academia Brasileira de Letras:

— A trança não deve ser feita com fio plástico e sim com palha original, que vem da Índia. Agora, se o cliente preferir, há uma opção nacional, ainda mais resistente e com preço 50% mais em conta — adianta Miranda, que, juntamente com o pai, desenvolveu uma técnica de envelhecimento da palha, para garantir o aspecto de antigüidade da peça.

Ofício aprendido com o avô, santeiro profissional

Já Luidi Nunes, em parceria com o sócio Luiz Gonçalves, conta com 40 funcionários e é dono de uma das maiores fábricas de vitrais do país. Abandonou a faculdade de física, nos idos dos anos 70, para dedicar-se à arte milenar dos vitrais, ofício aprendido com o italiano Alberto Magini, que veio ao Brasil montar os vitrais do Teatro Municipal e nunca mais saiu daqui.

— Nosso trabalho consiste em 90% de execução e 10% de restauração, e há uma demanda muito grande por peças para residências — conta Luidi.

Edmilson Muniz Silva, da Sóton Restaurações, restaura peças de porcelana, bronze, prata, arte sacra e faz cromagem, inclusive de molduras:

— Aprendi o trabalho com meu avô, que era santeiro profissional em Juazeiro do Norte.

Cupim, umidade e maresia estão entre os problemas mais comuns

Em muitos casos, o mais complicado é ter de refazer trabalhos malfeitos

Os serviços que exigem uma alta especialização são ainda mais raros. Em muitos casos, os profissionais acabam tendo que — além de restaurar as peças — consertar trabalhos que foram feitos de forma indevida anteriormente. A museóloga Miriam Andréa Oliveira trabalha há mais de 30 anos com restauração de molduras clássicas e antigas de quadros valiosos, normalmente integrantes de acervos de colecionadores.

— A moldura de uma obra como essa é tão importante quanto o quadro em si. Pego muitos trabalhos malfeitos, em que a moldura é fixada com pregos e acaba danificando a peça — conta Miriam.

Para usar técnica adequada, museóloga faz pesquisas

Miriam explica que existe um profundo trabalho de pesquisa para cada caso, já que há molduras feitas até com osso de tartaruga. A museóloga também recupera molduras que são atacadas por cupins e aquelas feitas em gesso, que costumam se quebrar.

Ataques de cupins também costumam ser comuns a tapetes. César Pinto de Oliveira, da César Tapetes, aprendeu com os pais a arte de restaurar modelos orientais que são feitos à mão. Ele conta que a umidade também é inimiga dessas peças:

— Mofo e maresia são problemas comuns, que demandam intervenção especializada. Assim como a restauração das franjas, que fazem a proteção dos tapetes. Elas precisam ser refeitas quando começam a perder a lã, e é preciso ser criterioso na escolha das cores. Além disso, o fio não deve conter acrílico: tem de ser 100% algodão.

César trabalha ainda com a lavagem manual das peças e recupera aquele tipo de desgaste que acaba criando furos em tapetes.

 

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