14/08/2008

Além da arte e do design

Fonte: O Estado de S. Paulo

Shao Fan usa a ousadia (e a ironia) para mudar o lugar reservado ao móvel na China contemporânea

SÃO PAULO – Na antiga China, não apenas o estilo, mas também a posição do móvel na casa, dizia muito sobre os padrões de funcionamento da sociedade. A cadeira de base arredondada, por exemplo, era simbolicamente relacionada à figura do pai, do mestre, com direito a posto cativo – e localização ilustre – no centro da ação doméstica. Na China contemporânea, do artista Shao Fan, o lugar reservado ao móvel por certo mudou – mas não a aura de perenidade.

Zeca Wittner/AEZap o especialista em imóveisShao Fan usa a ousadia (e a ironia) para mudar o lugar reservado ao móvel na China contemporânea

Pintor, escultor e designer, Shao foi um dos primeiros artistas chineses a ousar ir além das fronteiras entre arte e design. Em um de seus mais celebrados trabalhos – hoje parte da coleção do V&A, Victoria and Albert Museum, de Londres -, a clássica poltrona aparece desmontada, “dissecada” e por fim enterrada em madeira compensada (MDF), algo muito além da idéia de tradição – mas nem por isso menos definitivo.

Dono de uma aguda ironia, Shao toma o móvel como pretexto para a captura do momento único, onde tempo e valores não podem mais ser alterados. Em suas mãos, a cadeira literalmente “explode” – deixa de ser um objeto estático e inerte para se tornar metáfora de movimento e liberação. Pode ser vista como escultura, por certo, mas permanece um móvel.

Nascido em Pequim e membro de uma renomada família de artistas, Shao cedo se interessou pela pintura, tendo recebido as primeiras aulas ainda durante o período da Revolução Cultural. Graduou-se pela Academia de Artes e Ofícios de Pequim em 1984, quando então deixou as telas de lado e passou a se dedicar às modalidades de expressão mais tridimensionais, notadamente em madeira e cerâmica.

Voltou a pintar profissionalmente em 1989, mas sua atração por projetar – somada a um genuíno interesse pela cultura chinesa – logo deu origem a objetos ambíguos, que integram conceitos tanto de arte, como de design. Em 1995, em um libelo contra a “desonestidade” no comércio de antiguidades, Shao criou a primeira coleção de cadeiras Deconstructed, baseando-se em móveis da dinastia Ming.

Combinando pedaços de móveis originais com materiais industrializados, como o acrílico e o MDF, o designer propõe peças híbridas, cindidas por natureza, no limite entre arte e design. Objetos que entrelaçam passado e presente, onde o antigo aparece preservado em suas formas originais, enquanto o “velho” cede espaço para a modernidade industrial.

Circuito europeu

Primeira incursão de Shao nos domínios do design conceitual, a série serviu de base para sua exibição Cadeira sobre Cadeira, apresentada na Academia de Belas Artes de Pequim. Acrescida de novas criações – incluindo pequenas mesas -, foi apresentada em Paris em 2004, assinalando a entrada definitiva do designer no circuito artístico europeu.

Irônico comentário contra a reprodução sem critérios. Crítica social, que contrapõe a nobreza das dinastias e madeiras usadas em cópias baratas. Fascinação pelos ideogramas chineses. São inúmeras – e igualmente válidas – as vias de acesso a seu intricado universo criativo. O que não mais se discute é a plena vinculação de sua obra às aceleradas mudanças artísticas encaradas pela China de hoje, nem tampouco seu papel referencial em um momento em que o próprio design parece redefinir sua identidade.

Se afastando, voluntariamente, do universo da produção em massa para disputar, vis-à-vis com a arte, o concorrido espaço das galerias, ponto de partida do artista Shao. E, a julgar por sua vibrante trajetória no mundo do design, plataforma de lançamento para vôos ainda mais altos.

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