28/06/2008

Aluguéis sob pressão

Fonte: O Globo

Proprietários tentam repassar alta da inflação, mas inquilinos ainda têm poder de barganha

Quem tem reajuste de aluguel previsto para os próximos meses deve estar atento. Os índices de preços da Fundação Getúlio Vargas (FGV), adotados na maioria dos contratos de locação no Rio de Janeiro, estão batendo a casa dos 13%, no acumulado de 12 meses, e pressionando as negociações.

Pelo Índice Geral de Preços-10 (IGP-10), a inflação em junho foi de 12,71%, período em que os aluguéis subiram 4,69%. Isso mostra, dizem especialistas, que os proprietários não estão conseguindo fazer o repasse integral da alta do índice: os valores dos contratos estão sendo renegociados.

De qualquer forma, os preços para alugar uma unidade subiram em quase todos os bairros da cidade, segundo pesquisa do Sindicato da Habitação do Rio de Janeiro (Secovi-Rio). A lógica é a seguinte: quando o preço do imóvel sobe, por tabela sua locação também se valoriza. Os maiores percentuais estão concentrados na Barra da Tijuca e no Recreio, locais onde houve aumento de 18,16% nos custos de aluguel.

— Apesar de ter uma grande oferta de imóveis tanto para venda quanto para aluguel, a Barra é hoje um bairro muito procurado, a demanda é altíssima. A taxa de vacância dos imóveis vem caindo vertiginosamente com a transferência da sede de grandes empresas para a Barra. É o caso da Vale do Rio Doce, por exemplo, que se instalou lá há um mês, levando para o bairro mais de mil empregados — diz Manoel Maia, vice-presidente do Secovi-Rio.

Maia lembra que, nos últimos dois anos, os aluguéis estiveram estáveis:

— Os índices de reajustes de aluguel foram negativos em abril e maio de 2007 e, em alguns bairros, os proprietários tiveram que reduzir o valor. Agora, os proprietários estão de fato corrigindo os aluguéis para que fiquem compatíveis com o valor de mercado do imóvel.

Mas, diz o especialista, ninguém quer perder um inquilino que é bom pagador. Por isso, vale o bom senso:

— O valor da cota de condomínio também está em alta no Rio, e nenhum proprietário quer ficar com imóvel vazio e arcar com esse gasto — ressalta Maia.

Foi o que pesou para que a comerciária Flávia Sobral reajustasse o aluguel de seu dois-quartos no Flamengo abaixo da inflação. Ela chegou a um acordo com sua inquilina e elevou o preço de R$800 para R$860:

— O condomínio do prédio é caro, na faixa dos R$400, e isso pesa na hora de conseguir um inquilino. Não quis correr o risco de ficar com o imóvel vazio por muito tempo.

O coordenador de análises econômicas da FGV, Salomão Quadros, ressalta que, apesar de muita gente estar aproveitando a flexibilidade oferecida pelos bancos para comprar a casa própria, o aumento da renda da população e do número de trabalhadores com carteira assinada está fazendo com que outras pessoas comecem a pagar aluguel.

— É como se fosse uma fila. Enquanto uns estão dando adeus à vida de inquilino, pessoas que dividiam teto com outras famílias estão agora tendo condições de alugar a sua moradia.

O número de famílias que pagam aluguel no Brasil já dá sinais de queda, mas ainda representa 16% do total de domicílios. De acordo com Rogério Quintanilha, gerente-geral de imóveis da Apsa Administradora, uma das maiores do Rio, a velocidade para alugar aumentou principalmente nos bairros da orla da Zona Sul, além de Botafogo, Flamengo, Tijuca, Méier e nas proximidades dos Arcos da Lapa.

— A procura de imóveis para locação nos primeiros cinco meses de 2008 cresceu 237% em relação ao mesmo período de 2007. No mesmo período, tivemos 79% mais ligações de pessoas interessadas em visitar os imóveis disponíveis para locação — afirma Quintanilha.

Mas Quadros, da FGV, acredita que a tendência, a médio prazo, é de estabilidade no valor dos aluguéis:

— Com tanto crédito na praça, há mais unidades residenciais sendo construídas e mais gente comprando, não só para morar, mas para alugar, como uma alternativa de investimento. Daqui a dois, três anos, isso vai ter resposta no mercado imobiliário. A oferta de unidades será muito maior que a demanda, e os preços vão se estabilizar.

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