30/10/2008

Amor por planta

Fonte: O Estado de S. Paulo

Nuto Tilli, da Floricultura Campineira, fala de sua paixão

Zeca Wittner/AEZap o especialista em imóveisPier à beira do Rio Jaguari, onde Nuto pesca tilápias nos fins de tarde

São Paulo – Dono de uma memória incrível, Benvenuto Tilli cita nomes de plantas em latim com a mesma naturalidade com que frita torresmos para o almoço, no rancho do viveiro que mantém em Jaguariúna. Aos 82 anos, Nuto, como todos o chamam, é dono da Floricultura Campineira e um dos maiores transplantadores de árvores adultas do País. Ele conhece a flora brasileira como ninguém.”Mas nunca fiz um curso”, adianta. “Aprendi o que sei trabalhando, viajando e também com o mestre Hermes Moreira de Souza, um dos diretores do Instituto Agronômico de Campinas, que vivia corrigindo o meu latim.”

Desde que pode recordar-se, Nuto viveu entre flores e plantas. “Morávamos no bairro da Casa Verde, em São Paulo, e meu pai, Ferdinando Tilli, imigrante italiano, trabalhava na Floricultura Rinaldi, até hoje uma das mais importantes de São Paulo”, conta. A vida dos Tillis não era fácil, mas tudo mudou em 1937, quando Wanceslaw Stasburger, então proprietário da Floricultura Campineira, pediu a Ângelo Rinaldi que lhe indicasse um gerente. “Rinaldi sugeriu meu pai. Em São Paulo, ele ganhava 400 mil réis e pagava 80 mil de aluguel. Veio para Campinas para ganhar 600 mil réis. Eu tinha 12 anos e nossa vida melhorou.”

A Campineira, que havia sido criada em 1913 na Barão de Jaguara, tradicional ponto de comércio de Campinas, foi a primeira floricultura da cidade. “Com a Segunda Guerra Mundial, Wanceslaw a vendeu para o meu pai, que pagou os 40 contos de réis pelo negócio em cinco anos.”

Até os anos 50, a Campineira só trabalhava com flores. “Fazíamos decoração de casamentos, enfeitávamos túmulos nos Finados”, diz Nuto. A essa altura, os Tillis tinham a própria chácara de flores, em Barão Geraldo, subdistrito da cidade, onde funciona atualmente a floricultura. “Plantávamos rosas, crisântemos, angélicas, gladíolas. Comprávamos sementes dos imigrantes que chegavam a Holambra.”

Em 1956, as prefeituras começavam a investir na arborização de ruas e praças. Passaram então a surgir os viveiros, que forneciam mudas de sibipirunas, resedás e bauhinias, isso em Campinas. Os Tillis não ficaram atrás e, em 1962, compraram uma área de 43 hectares nos arredores de Jaguariúna, que hoje abriga cerca de 800 espécies entre palmeiras, arbustos e herbáceas, além de flores. Há 20 anos, Tilli iniciou o trabalho de transplante de árvores de grande porte, cuja técnica aprendeu sozinho. “Hoje, somos os únicos no interior paulista que trabalham com palmeira imperial de até 30 metros”, orgulha-se.

O viveiro em Jaguariúna, com sibipirunas (de 6 m de altura, R$ 6 mil, na Floricultura Campineira), jequitibás, eritrinas, jeribás, ravenalas (a partir de R$ 100 a muda, idem) e jatobás, entre outras, ficou pequeno tamanha a demanda – e Nuto já planta em outra propriedade, no sul de Minas. E qual seria a espécie de que mais gosta? “Amo as plantas. Mas tenho um carinho especial pelas palmeiras, principalmente as nativas, como a Copernicia alba, o carandá. É maravilhosa, mas muitos paisagistas ainda não se deram conta disso”, diz ele. Que também explica a diferença entre plantar em São Paulo e Campinas: “Na capital há umidade e aqui o tempo é seco. Por isso, as plantas têm menos doenças, mas exigem cuidado com fungos.”

No viveiro, Nuto Tilli passa quase o dia inteiro lidando com as plantas, ensinando os funcionários ou simplesmente conversando no rancho aberto, coberto de telhas. Nos fins de tarde, vai até o píer à beira do Rio Jaguari para pescar tilápias, “uma higiene mental”, garante o pescador premiado. Nos fins de semana, pratica outros hobbies: a culinária e as aulas de tiro esportivo no estande que tem ali perto.

Nuto deixa seu legado para a filha Renata, paisagista em São Paulo, e o neto Rafael, que estuda Agronomia Ambiental e trabalha no viveiro do avô. “Se passo numa estrada e vejo uma semente, paro e vou pegá-la. Nunca penso que não vou acompanhar o crescimento da planta. Penso que vou viver mais 50 anos e vê-la no seu esplendor”, diz ele.

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