18/08/2006

Aos 450 anos, Mooca guarda identidade dos paulistanos

Fonte: O Estado de S. Paulo

Livro, museu, galpões e até padarias revelam símbolos associados à cultura da cidade

O bairro da Mooca chega aos 450 anos, completados ontem, como uma espécie de relicário da identidade do paulistano típico, aquele representado em filmes e novelas, descendente de algum imigrante, que trabalha numa fábrica, mora em um sobradinho de vila, aprecia comer pizza e macarronada nos domingos, fala ignorando a letra “s” como se desconhecesse o plural e não dispensa uma padaria para fazer as refeições, do café ao jantar.

Ao passear pelo bairro, é possível observar onde nasceram esses clichês. A Mooca foi o endereço de parte considerável dos imigrantes – sobretudo italianos – que chegaram ao País do fim do século 19 até 1930. Foi berço da industrialização e de todo o modo de vida, como morar em vilas operárias, que as fábricas fizeram surgir.

O sotaque paulistano, conta o escritor Carlos Roque, autor de Mooca 450 Agostos, primeiro livro da história do bairro, surgiu da convivência entre brasileiros e italianos. Roque cita no livro uma cantiga conhecida na região, que diz: “O italiano grita/ O brasileiro fala/ Viva o Brasil/ E a bandeira da Itália”. “Quem não conseguia pronunciar o “s” eram os italianos. O defeito foi incorporado pelos descendentes.”

A visita pela Mooca deve começar no limite do bairro com o vizinho Brás, onde fica a antiga Hospedaria dos Imigrantes, hoje Memorial do Imigrante. Documentos, fotos e objetos mostram o clima da época. Para se ter uma idéia, 2,5 milhões de estrangeiros entraram no Estado em 17 anos (1870-1887), segundo dados do museu. No local e pelo site também, é possível consultar a origem das famílias em um cadastro de 2,5 milhões de nomes.

“Em São Paulo, é raro quem não tenha alguma descendência estrangeira, mesmo que distante”, diz a museóloga Ana Maria da Costa Vieira, diretora do Memorial. “E a história da cidade se desenvolve sobre dois eixos: a imigração e a industrialização. Não é como a Bahia e o Rio, que tem marcas mais profundas do Período Colonial”, explica Ana Maria. “A Mooca reúne marcas muito fortes desses dois eixos.”

Ao sair do museu, o simples passeio pela Rua da Mooca – antiga rota de tropeiros que ligava o centro à Penha, uma das várias paradas dos desbravadores – possibilita a reunião de todas as marcas históricas do bairro. Primeiro, o supermercado Extra, que foi construído preservando o prédio do antigo Cotonifício Crespi, fábrica inaugurada em 1897. O nome vem da atividade tecelã de mexer com o algodão cru.

O Crespi, que forneceu uniformes para o exército de Benito Mussolini, fundou o Clube Atlético Juventus, em 1930, cujo estádio com arquibancadas de madeira fica na vizinha Rua Javari. Carlos Roque cita outras fábricas pioneiras que surgiram no período da industrialização, como a Calçados Clark e a Alumínios Fulgor. Vários galpões ainda estão de pé.

A culinária é outro capítulo importante da Mooca e também prova de sua influência na identidade do paulistano. Foram os italianos que introduziram as massas no País. Estabelecimentos como o Pastifício Carasi e a rotisserie Di Cunto oferecem pratos originais, como as Saltenhas (salgado parecido com a fogaça) do Carasi.

Há os bares antigos, como o do Elídio e o Giba”s, que influenciaram as gerações seguintes. O Giba”s, ou Bar do Giba, completa quatro décadas em 2007. O proprietário, Gilberto Luizetto, de 56 anos, é um mooquense típico que não se incomoda em falar da região. “É o melhor bairro de São Paulo.”

A mulher, Rosana, é a responsável pela cozinha elogiada do bar, onde se come “a melhor macarronada da região, com molho feito de tomate mesmo”. “A minha chuleta tem quase dois quilos”, garante.

Nova imigração 

Segundo a socióloga Carla Diegues, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, o bairro atrai imigrantes até hoje. Carla trabalha em um estudo que deverá ser concluído no fim do ano e que analisou a chamada Mooca Baixa, na divisa com o Cambuci.

Após entrevistar moradores, pesquisar mapas e dados oficiais, a socióloga descobriu que nordestinos e bolivianos predominam na região, ilhada por grandes avenidas e galpões industriais. “Aparentemente, o local parece deserto. Mas, na verdade, esconde um universo de bairro provinciano.”

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