21/07/2009

Aqui vale o simples

Fonte: O Estado de S. Paulo

André Mifano cultiva o original e o antigo, em casa e no Vito Restaurante

Quando se chega à casa do chef André Mifano, na Granja Viana, dois moradores especiais dão boas-vindas – muitas vezes, acaloradas – aos visitantes. Seus xodós, os boxers Homer e Dr. Bones, hoje em dia são os únicos vestígios de que aquele terreno já abrigou um canil. Durante oito anos, o pai foi criador de cães. “Esse lugar foi virando casa aos poucos, as obras duraram uns sete anos e a vida por aqui foi meio caótica”, lembra o chef, sócio do Vito Restaurante. 

André, na sala de refeições de sua casa na Granja Viana (Foto: Zeca Wittner/AE)
André, na sala de refeições de sua casa na Granja Viana (Foto: Zeca Wittner/AE)

Depois que o pai se mudou para o litoral, André foi ajeitando as coisas a sua maneira. A cozinha não planejada de madeira ganhou pintura branca e o antigo piso, quadriculado como um tabuleiro de xadrez, imprimiu um certo charme retrô ao ambiente.

Na sala de jantar, os velhos móveis também foram aproveitados, só que adaptados ao gosto do atual morador. A prateleira acomoda agora seus livros de receitas preferidos, principalmente de culinária oriental, além de um painel de fotos de pratos preparados e clicados por ele e alguns suvenires, como a latinha de Fanta Morango, trazida do Egito por um amigo.

Preservou ainda a geladeira da família, uma Norge, que funciona há 25 anos. Uma estante foi reservada exclusivamente para sua coleção de copos de cerveja, com símbolos de marcas famosas como Edinger, Stella Artois e Guiness. Alguns utensílios são mantidos por perto, como a tábua de madeira redonda para corte (na Spicy, uma tábua de bambu sai por R$ 238) e faca de corte de chef (na Zwilling, de R$ 299 a R$ 600). Isso sem contar na sua pequena coleção de vidrinhos de temperos, que podem ser encontrados em lojas do bairro da Liberdade e na Bombay, nos Jardins.

André admite que já frequentou mais a própria cozinha. Desde que o Vito foi inaugurado, no entanto, ele tem passado mais tempo lá do que em casa. Responsável pelo cardápio do restaurante, prefere ser chamado de cozinheiro e não de chef. “Sou um cozinheiro esforçado”, acredita. “Minha fonte de inspiração são as coisas mais antigas. Tento fazer minhas receitas do jeito mais clássico possível. A cozinha que eu gostaria comer.”

Modéstia da parte dele. Instalado no bairro residencial de Vila Beatriz, seu aconchegante Vito se tornou um dos points da cidade, disponibilizando um menu caseiro onde o forte são as massas artesanais. Ele separou uma receita simples e saborosa de fetuccine para o Casa&. “Este fetuccine rosa só eu faço, mas pode ser usado o comum”, avisa. Alheio à badalação, o chef só quer saber de ficar quietinho, trabalhando. “Abro as massas todos os dias, recheio os raviólis, também preparo pratos com carne de porco.” Apesar de ser de família judaica, ele come esse tipo de carne quase sempre. “Minha religião é o candomblé”, avisa.

Para André, a comida tem o poder de trazer lembranças emocionais. “Eu via meu pai a cada 15 dias quando era menor e ele me me levava para comer uma costelinha de porco imbatível. Acho que a carne de porco me traz essa recordação.”

Com 14 anos de profissão, André conta que na adolescência, filho de pais separados, ficava muito tempo sozinho e tinha de se virar na cozinha. Aos 18 anos, ele se deu conta de que precisava fazer algo da vida. Sua mãe, psicoterapeuta, tinha um consultório na mesma rua do extinto Cucina D?Autore, de Hamilton Mellão Jr., de quem ela era amiga. Sabendo que o rapaz estava sem rumo, Hamilton o chamou.

“Comecei na pia e virei cozinheiro. O Mellão foi meu mentor. Fiquei lá uns dois anos. Depois trabalhei em restaurantes menores.” No final dos anos 90, ganhou bolsa para um curso no Le Cordon Bleu, em Londres. “Voltei ao Brasil me achando chef, mas fiquei seis meses desempregado. Fui para São Francisco e trabalhei por lá.” Retornou, passou por vários restaurantes até resolver abrir o Vito, inaugurado no ano passado sem pompa. Mas não conseguiu ficar no anonimato muito tempo. Hoje a casa só trabalha com reserva, pois seu pequeno salão só comporta nove mesas e não tem área de espera.

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