02/07/2009

Arquiteto fala sobre potencialiadades e problemas em urbanismo no Rio

Fonte: O Globo

Para o arquiteto e urbanista Índio da Costa, a capital carioca possui boas e múltiplas alternativas de moradia

Rio de Janeiro – Quem mora no Rio de Janeiro sabe a dor e a delícia que é se viver nesta grande cidade. Por um lado, o convívio entre a paisagem urbana e a natureza desperta nos transeuntes o sentimento de pertencer a uma urbe rica em beleza. Já o frenesi e o crescimento urbano próprio de uma grande capital pode deixar os espaços propensos a engarrafamentos, com problemas de segurança e de infraestrutura, o que compromete a qualidade de vida na cidade. Para o arquiteto e urbanista Índio da Costa, autor do Projeto Rio-Cidade Leblon, Rio Panorâmico, Via Parque e premiado com o projeto do Pier Mauá, o Rio ainda é uma cidade privilegiada para se viver.

Índio da Costa defende projetos de urbanização que privilegiem o pedestre e o transporte coletivo de massa, o que, segundo ele, “é indispensável para um desenvolvimento correto e equilibrado das cidades”. Além disso, ele destaca a importância de se defender áreas livres em detrimento dos condomínios fechados.

“Cada vez mais os moradores se retraem, em prédios gradeados e cercados de seguranças, as pessoas se resguardam em carros com janelas fechadas, vidros escuros e até blindados, o que deixa a cidade enfraquecida, desprestigiada e insegura”, diz Índio da Costa.

Em entrevista por email, o arquiteto fala sobre o seu encantamento pelo Rio e destaca os problemas e possíveis soluções em urbanismo para melhorar a qualidade de vida de quem habita a capital carioca. Confira.

Qual a sua visão atual do Rio como uma cidade para se viver?
Índio da Costa – O Rio é uma cidade especial, sob todos os aspectos. Na minha opinião, viver no Rio é um privilégio. Conviver com a pluralidade de alternativas que a cidade oferece é ter a possibilidade de escolher o tipo de vida que se quer e é isto o que de melhor se pode esperar de qualquer cidade. Temos hoje, é certo, um problema grave de segurança que não é do Rio, mas do desequilíbrio social que existe no país e no mundo e que se acentua nas grandes cidades, em especial nas cidades dos países em desenvolvimento, como o Brasil.

Que pontos favoráveis a cidade apresenta para moradia?
Índio da Costa – A cidade tem infraestrutura de uma grande cidade, com alguns pontos especialmente deficientes, sobretudo no que se refere a transporte coletivo. O clima é ameno em dois terços do ano. A praia, utilizável inclusive no inverno, além de tornar a convivência entre as pessoas mais democrática, oferece à cidade uma descontração muito pouco conhecida em outras cidades de porte semelhante. A cidade é saudavel no seu convívio com a natureza que a envolve e que com ela se confunde.

Que locais são os mais atraentes na cidade para se morar?
Índio da Costa – Depende da preferência de cada um. Há quem prefira morar na tranquilidade da periferia urbana, quem goste de lugares agitados e densos, quem dê preferência à orla marítma, ou à beleza das vistas montanhosas. Há bairros que têm características próprias, como a Urca, a Barra da Tijuca, Copacabana, etc. e são essas diversidades que oferecem ao morador alternativas múltiplas.

Com a expansão urbana do Rio, que tipo de ocupação urbana seria mais adequada para as novas regiões? Manteria o perfil da Barra da Tijuca?
Índio da Costa – A solução urbanística adotada na Barra da Tijuca é elitizada e dá prioridade ao automóvel, à semelhança das cidades americanas. A urbanização mais adequada para as novas áreas de crescimento deverá ter, como prioridade, o pedestre e o transporte coletivo de massa, que é absolutamente indispensável para um desenvolvimento correto e equilibrado.

Na sua opinião, as benfeitorias trazidas pelos projetos do Rio Cidade, entre os quais o Leblon de sua autoria, colaboram para auto-estima do morador com relação ao seu bairro?
Índio da Costa – Com certeza. Lastimavelmente, a manutenção não tem correspondido às expectativas da população. No caso específico do Leblon, há muitas lâmpadas apagadas, os nomes das ruas muitas vezes estão mal iluminados e os jardins estão sendo cada vez mais desvirtuados.

Nas últimas décadas surgiram novos conceitos de moradia no Rio como os condomínios fechados, os flats, os prédios residenciais com oferta de espaços comuns para o lazer além de outros serviços.Na sua opinião o conceito de moradia ainda está em mudança? Que novas tipologias podem ser esperadas neste sentido?
Índio da Costa – As moradias em condomínios fechados, com prédios que oferecem espaços comuns para lazer e outros serviços é a clara comprovação de que a cidade, que deveria oferecer, de forma livre e democrática, estes espaços, está deixando a desejar. Cada vez mais os moradores se retraem, em prédios gradeados e cercados de seguranças, as pessoas se resguardam em carros com janelas fechadas, vidros escuros e até blindados, o que deixa a cidade enfraquecida, desprestigiada e insegura.

O seu escritório apresentou em 2006 novas idéias para a Rocinha “Uma Cidade Chamada Rocinha: idéias urbanísticas para empreendedorismo e proteção costeiro-marinha”. Gostaria de falar sobre esta proposta?
Índio da Costa – Para este projeto da Rocinha, fomos contratados por uma ONG da Suiça chamada Avina e, por imposição da própria Avina, o projeto não participou do concurso público promovido pelo Governo do Estado do Rio. O projeto foi todo baseado na capacidade de empreendedorismo dos moradores da Rocinha e, a propósito da atual intenção de construir muros cercando o bairro, eu discordo frontalmente. A nossa proposta é de estabelecer os limites da Rocinha, através de uma escadaria periférica, que limitaria a expansão das invasões, sem a agressividade separatista de um muro, que reforça a sensação de gueto. Sou totalmente favorável a soluções gregárias e utilitárias (a escada tem dupla função, quando o muro é apenas limitador), ao contrário das soluções separatistas e preconceituosas, que só contribuem para o aumento da rejeição e, consequentemente, da violência.

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