30/10/2008

Arte em fogo, barro e vidro

Fonte: O Estado de S. Paulo

Ex-dentista, Cristina Rocha faz misturas em diferentes tipos de forno, com resultados surpreendentes

São Paulo – Pelas prateleiras do ateliê de Cristina Rocha, em Souzas, distrito de Campinas, um desfile de mulheres chama a atenção. De cerâmica e com alturas que variam entre 50 centímetros e 1,60 metro, elas saíram de um rudimentar forno à lenha, por sinal, um dos modelos mais antigos do mundo, chamado de anagama. “Em minha última viagem ao Japão, fiquei maravilhada com esse tipo de queima. As peças permanecem num forno-túnel de câmara única por quatro dias a uma temperatura de 1.250°C. Durante o processo, as cinzas se transformam no esmalte que dará cor aos objetos”, conta. “É como se o trajeto do fogo fizesse as vezes de pincel e o resultado é sempre um surpresa.”

Zeca Wittner/AEZap o especialista em imóveisPeças de vidro fundido em forno elétrico, com esmalte natural

De volta para casa, Cristina resolveu criar o próprio forno e, a exemplo do que acontece no Japão, a cada seis meses promove um animado evento. “É uma festa de quatro dias, em que todos criam e compartilham os resultados”, diz ela. Foi assim, entusiasmada com a milenar queima japonesa, que Cristina embarcou num novo experimento. “Eu me perguntava: se a madeira pode gerar esmalte, por que não testar outros materiais? Comecei com o que colhi no quintal – grama, folhas de bananeira… E, como cada vegetal extrai da terra diferentes tipos de minerais, consegui um universo rico de cores para as criações, tanto em cerâmica quanto em vidro”, comemora a artista, que já tem planos de preparar esmaltes também à base de pó de café, cana-de-açúcar e palhas de feijão e de arroz.

Dentista por formação, há 12 anos Cristinaresolveu testar a nova habilidade com as mãos. Escolheu as aulas de cerâmica de uma professora austríaca, no centro de Campinas. Logo se rendeu ao encanto do raku, técnica japonesa do século 16: os objetos de barro são queimadas à lenha num buraco feito na terra. Desde então, ela não parou mais de criar peças, utilitárias ou não (a partir de R$ 6), utilizando até mesmo cupinzeiros como fornos.

Dois anos atrás, porém, Cristina comprou um forno elétrico e com ele veio a vontade de trabalhar com vidro. “Gosto da técnica fusing, em que as placas de vidro são fundidas com esmalte entre elas. Mas, em vez de usar alta temperatura, como a maior parte dos vidreiros faz, crio moldes de cerâmica para os vidros e os deixo esquentar até 850 graus”, revela. “A baixa temperatura dá um certo controle nas cores, parecido com o que acontece na aquarela.” Dessas queimas saem luminárias, pratos, vasos e até vitrais e telhados (esses últimos, sob encomenda). Inventiva por natureza, aos 49 anos, ela se delicia atualmente em fundir chapas ou pedaços de vidro em forno a lenha. Mas, pela animação de seu ateliê, muitas outras surpresas devem vir por aí.

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