06/07/2008

‘As pessoas querem uma casa saudável´

Fonte: O Globo

Peter Van Lengen, do Instituto Tibá, explica como é uma moradia bioconstruída

Filho de Johan Van Lengen, autor da bíblia dos construtores verdes, o “Manual do arquiteto descalço”, de 1979, Peter Van Lengen é coordenador-geral do Instituto Tibá, entidade fundada por seu pai, com sede em Bom Jardim (RJ), que pesquisa e desenvolve construções sustentáveis. Para ele, o Brasil começa a avançar no tema, mas as possibilidades são muito maiores.

Como nasceu o Tibá?

PETER VAN LENGEN: Em 1987, meus pais descobriram uma fazenda abandonada em Bom Jardim, começaram um projeto de restauração e reflorestamento, e fundaram o Tibá, um centro de pesquisas nas áreas de bioarquitetura e bioconstrução, através da integração entre intuição e lógica. Lá, plantamos mais de 14 espécies de bambu, que é a madeira do futuro, 100% renovável; fabricamos o adobe, que é o tijolo cru, que seca ao sol e, por não haver queima, não produz gás carbônico; desenvolvemos tetos verdes, paredes de pau-a-pique, tintas com pigmentos naturais. E ministramos cursos.

E esses materiais são duráveis?

PETER: Grandes monumentos arquitetônicos, como a grande muralha da China e as pirâmides mexicanas, são de adobe. No Iêmen há prédios de nove andares construídos com adobe. O Taj Mahal é todo de bambu, e está lá há 700 anos.

Como é uma casa bioconstruída?

PETER: Imagine morar numa casa construída de acordo com o movimento do sol e a circulação do ar, onde as paredes são feitas da terra, o teto é verde, feito com as plantas daquela região, onde você tem filtros biológicos para tratar efluentes e captação da água da chuva.

Não fica muito mais caro do que uma casa convencional?

PETER: Fica mais caro porque eu não posso ir à loja comprar adobe. Eu tenho que ter mão-de-obra especializada. Os ganhos são a longo prazo. Além da economia nas contas de luz e água, não vai haver mais prejuízo com gente doente, respirando solvente de tinta, com alergias respiratórias causadas pelo ar-condicionado.

Como vocês, do Tibá, tratam o problema da escassez da água?

PETER: Toda casa tem o que chamamos de água cinza e água negra. A água cinza é a misturada só com sabão, das pias de banheiro e chuveiros, que deve ser reutilizada, pois é muito fácil de ser tratada com filtros instalados na casa. A água negra é o esgoto. Nós implantamos projetos de sanitários secos, especialmente úteis para áreas rurais e periferias. Trata-se de uma câmara profunda, sem água. Todo os resíduos, inclusive lixo orgânico, acrescidos de serragem, sofrem o processo biológico da compostagem aeróbica e se transformam em adubo. Estamos fazendo um projeto assim, encomendado pelo Ibama do Maranhão, para uma comunidade de pescadores com sérios problemas de água e saneamento básico.

O que você acha dos prédios verdes que se multiplicam?

PETER: Já é um avanço, mas as possibilidades são muito maiores. Um edifício pode ter não só captação de água de chuva e energia solar, mas filtro de água cinza, sanitário seco, teto verde. Os moradores podem ter pequenas hortas em seus apartamentos. Um prédio corporativo não tem necessariamente de ter ar-condicionado: é só a sua implantação aproveitar ao máximo a circulação de ventos. Os ambientes não vão ficar gelados, mas, em algumas empresas, as pessoas precisam levar suéteres no verão. Mas o mais importante é reciclar e consumir com consciência.

De qualquer forma, você não acha que houve uma evolução?

PETER: Sim, claro. Há três anos, eu era um louco, excêntrico. Agora, só no último ano, ministramos cursos/palestras para mais de duas mil pessoas. Penso que não foi só por causa do aquecimento global, mas porque as pessoas já não estão se sentindo bem, a saúde delas já está afetada. Foi assim que elas começaram a prestar atenção no que comem, e agora querem uma casa saudável.

 

 

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