27/06/2011

Boom imobiliário impulsiona a movimentação de cariocas de um bairro para outro

Fonte: O Globo

O publicitário Fábio Carvalho morou a vida toda em Botafogo com os pais. Mas, na hora de formar sua família, escolheu a Barra para comprar seu imóvel. Troca quase impensável poucos anos atrás, quando a grande maioria dos moradores da Zona Sul sequer cogitaria a hipótese de ir para a Barra. Ou para a Tijuca. Ou para o Centro.

Os fatores para essa migração em várias direções dentro da cidade do Rio são diversos e tanto refletem o aumento da renda de parte da população, quanto o boom do mercado imobiliário e a consequente alta de preços. Se de um lado, há quem esteja trocando sua casa por uma unidade maior, mais nova ou mais bem localizada, por outro, há muita gente sendo empurrada para apartamentos menores ou em bairros menos valorizados. Em alguns casos, como forma de adquirir o primeiro imóvel. Em outros, como solução para fugir de aluguéis caros demais.

“Existem dois movimentos no mercado: o upgrade, mais localizado na classe média baixa, que vem conseguindo melhorar sua condição de imóvel e já troca bairros mais afastados ou a Baixada pela Zona Norte, onde fica mais perto do trabalho; e há o downgrade, principalmente daquelas pessoas que não estão conseguindo pagar os aluguéis que, depois de anos de defasagem, sofreram fortes aumentos”, irma Ronaldo Coelho Netto, vice-presidente administrativo do Secovi-Rio.

Aos inquilinos só resta mesmo rever os conceitos, esquecer o amor ao bairro onde passou a maior parte da vida e procurar novas opções pela cidade, como fez também o advogado Alexandre Carvalho, que trocou o Largo do Machado pela Lapa.

“A Lapa foi uma opção viável por ter um preço razoável e uma localização mais confortável para o meu dia a dia, já que trabalho na Praça XV e posso até ir a pé. Meu trabalho ficou mais perto e a distância de meus amigos não se alterou tanto. Ainda assim, dá uma certa frustração não poder continuar onde se está acostumado por conta dos preços”, avalia ele.

Como Carvalho, muitos antigos moradores da região de Botafogo, Laranjeiras e Flamengo estão escolhendo a zona central da cidade que, além da Lapa, engloba Glória e Bairro de Fátima, por um bom tempo esquecidos pela classe média.

“São locais que passaram por um processo de renovação, estão com melhores condições e por isso se tornaram opção de moradia mais atraente tanto para quem vive de aluguel como para quem vai assumir o compromisso de um financiamento”, estaca Johnny Guedes, proprietário da Nova Aliança Imobiliária.

Foi exatamente o caso de Ana Rodrigues, que trocou a casa dos pais, em Laranjeiras, por um apartamento próprio de quarto e sala no Bairro de Fátima.

“Usei meu FGTS e um dinheiro que tinha aplicado para dar uma entrada mais gorda e financiei apenas parte do imóvel. A prestação ficou bem menor que a média dos aluguéis da Zona Sul e estou há 20 minutos da minha antiga vida. E o melhor, num apartamento que é meu”, diz.

Já quem costumava morar em regiões mais nobres, como Ipanema, Leblon ou Gávea, vem optando por Botafogo, Flamengo e, em alguns casos, Tijuca. E não à toa. Há 30 meses, o valor médio do aluguel de um três quartos em Ipanema girava em torno de R$ 3.442, segundo dados do Secovi-Rio, e hoje vale R$ 6.727 – quase o dobro. Hoje, com aquele valor, só se encontra apartamentos do mesmo tamanho em bairros como Flamengo, Botafogo ou Laranjeiras.

“Quem não abre mão do bairro acaba se apertando em um lugar menor: troca o três quartos por um de dois, o de dois por um quarto-sala ou conjugado, mas perde na qualidade de vida”, analisa Guedes.

Para fugir dessa armadilha, o administrador de empresas Rodrigo Câmara trocou um apartamento espaçoso na Rua Bulhões de Carvalho, Copacabana, por outro na Tijuca. E, mesmo sentindo falta da badalação da Zona Sul, está feliz com a escolha, conta ele:

“Com a Zona Sul tendo preços de Nova York e Londres e a Barra inviável para quem trabalha no Centro, como eu, a Tijuca acaba sendo a opção. Tem a facilidade do metrô, uma boa qualidade de vida e um preço razoável. Só sinto falta de lojas, bares e restaurantes abertos até mais tarde. Mas acho que isso tende a mudar com os investimentos em segurança no bairro.”

Opinião bem diferente da que tem o publicitário Fábio Carvalho, que mesmo incomodado com os engarrafamentos diários que precisa encarar entre a Zona Oeste e o Centro, já se adaptou à sua nova vida na Barra, para onde se mudou em fevereiro, quando se casou:

“Até procuramos por Botafogo e Jardim Botânico, mas encontramos melhores preços na Barra. Temos mais qualidade de vida aqui e muitas opções de lazer nos fins de semana, quando nem o tráfego incomoda.”

Presidente da Patrimóvel, Rubem Vasconcelos defende que a Barra já virou destino para quem está saindo da Zona Sul:

“Hoje, há apartamentos na Barra que custam um terço do que se paga na Zona Sul por unidades com o mesmo tamanho. E em clubes-residência, onde se tem mais qualidade de vida. Isso atrai principalmente jovens casais, que mantêm o mesmo padrão da casa dos pais. Há quem ainda resista por conta do transporte, mas até isso já está mudando”, diz Vasconcelos. “E o que não muda hoje no Rio?”

LEIA MAIS:

BB amplia atuação no Minha Casa e entra como agente financiador

Novas regras do Minha casa, minha vida esperam sanção de Dilma. Veja o que vai mudar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.