21/01/2013

Brasil ainda despreza potencial de energia solar

Brasil ainda despreza potencial de energia solar

Fonte: Revista do ZAP

Acomodado com a suposta abundância de recursos renováveis, o país tenta só agora dar os primeiros passos para transformar insolação constante em geração de eletricidade

Em um país tropical com extensão continental, o sol que aquece e embeleza paisagens urbanas e rurais ainda é ignorado como fonte energética. Enquanto países como a Alemanha geram o equivalente a duas hidrelétricas Itaipu por ano, o Brasil não consegue explorar o potencial solar e afastar o risco de racionamento cada vez que o nível dos principais reservatórios baixa com a escassez de chuva.

A disposição de famílias em gerar sua própria energia nas residências ou em condomínios esbarra nos altos custos e no longo período para retorno do investimento. Empresário gaúcho do ramo de equipamentos para energia solar, Ralph Dieter Rahn instalou em sua empresa, em Porto Alegre, dois sistemas de aproveitamento da radiação solar: fotovoltaica, que converte os raios de sol em eletricidade, e térmica, para aquecimento de água. O primeiro sistema, com geração de três quilowatts por hora, é um dos poucos em operação no Estado.

“A energia solar fotovoltaica ainda é muito cara no Brasil”, avalia Rahn, sócio da Intercâmbio Eletromecânico, representante de fabricantes alemãs de coletores solares no Estado.

Enquanto a implantação de sistema fotovoltaico patina, a energia solar térmica ganha espaço em residências, condomínios e comércio. Com custo menor, o aquecimento de água do banho ou de piscinas com placas solares é alternativa ao consumo de gás ou eletricidade.

Baixa voltagem no uso de energia solar
Limitada pelo alto custo de geração, a energia solar fotovoltaica ganhou um impulso que poderá motivar famílias a gerar energia renovável em suas casas. Desde o começo do ano, consumidores podem solicitar às concessionárias que façam uma conexão com a rede elétrica comum. Com dois medidores, um para o consumo e outro para geração, o autoprodutor poderá vender o excedente às distribuidoras — baixando a sua conta de luz.

A resolução da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), de abril do ano passado, estipulou o prazo de dezembro de 2012 para as concessionárias de energia se adaptarem às mudanças. As empresas afirmam que estão se adequando para estabelecer o sistema de compensação da energia elétrica e que os interessados devem contatar as concessionárias para aderir ao modelo ou ainda para esclarecer dúvidas sobre a novidade.

O incentivo governamental, no entanto, talvez não seja o suficiente para fazer famílias desembolsarem cerca de R$ 30 mil para instalar um sistema capaz de gerar 200 quilowatts-hora — metade da média de consumo de uma casa com quatro moradores.

O alto custo para instalação de placas fotovoltaicas fez o médico Antônio Rodrigues da Silva Neto, 36 anos, desistir de gerar a própria energia na sua residência em Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo. “Estou fazendo reformas na minha casa e estava disposto a dar prioridade para energia renovável. Mas teria de investir quase R$ 40 mil para instalar os equipamentos que gerariam metade da eletricidade média que consumimos”, conta o médico.

O potencial de irradiação solar no país ainda contrasta com os altos custos da geração dessa energia — cerca de R$ 300 por megawatt-hora, mais de três vezes superior à eólica, por exemplo.

“O preço ainda é muito alto. Somente quando o governo decidir atuar de fato nesse mercado teremos resultados concretos”, avalia o professor Adriano Moehlecke, coordenador do Núcleo de Tecnologia em Energia Solar da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Para o pesquisador, que chegou a desenvolver módulos fotovoltaicos com uma tecnologia mais eficiente e de menor custo, a geração de energia solar conseguirá se desenvolver no país somente com políticas claras — como fontes de financiamento para compra de equipamentos e incentivo à produção nacional. Hoje, a China é responsável por 57% da fabricação mundial de módulos fotovoltaicos.

“Se tivéssemos uma escala competitiva, poderíamos trabalhar com preços menores. Se o governo não colocar a mão, não formará mercado”, resume Moehlecke, citando como exemplo modelos adotados na Alemanha, no Japão, na Espanha e na Itália.

Apesar de ainda ser uma energia cara, nos últimos cinco anos os custos caíram mais de 60% devido à produção de painéis em larga escala na China e na Alemanha. Entre os fatores que podem pesar para uma maior popularização da energia solar no Brasil, está o projeto da usina solar de Manaus, que prevê a montagem de uma planta de geração com capacidade de quatro megawatts.

Alternativa desprezada
Com custo menor e retorno quase imediato, a geração solar térmica salva o país da condição desconfortável de não conseguir explorar uma de suas riquezas naturais mais abundantes. As placas solares que se multiplicam nos telhados de residências e condomínios são responsáveis pelo aquecimento da água do banho e torneiras. Seja por consciência ambiental ou para reduzir despesas, esse mercado vem ganhando espaço nos últimos anos.

Há dois anos, quando reformou o antigo hotel Porto Alegre Residence, no centro da Capital, o empresário Daniel Antoniolli decidiu investir em soluções sustentáveis e inaugurar um novo empreendimento: o Eko Residence Hotel. A primeira iniciativa foi um sistema de tubos de vácuo de energia solar térmica para aquecer a água dos 97 apartamentos.

Importados da China, os equipamentos custaram R$ 37 mil (com a instalação). Somente em 2012, a economia com o uso dos tubos solares chegou a R$ 28 mil, na comparação com os anos em que usavam apenas gás para aquecimento. Em dias ensolarados, a eficiência da geração térmica é plena, sendo capaz de abastecer todo o hotel.

De três anos para cá, aumentou o número de residências que optaram pela energia térmica, conforme Felipe Vesely, proprietário da Porto Solar, empresa que atua há 14 anos no ramo na Capital. “Fizemos em média 10 instalações por semana de aquecimento de água em casas e de piscina por meio de coletores solares”, conta Vesely.

A energia solar foi a alternativa encontrada por Adailton de Souza, 44 anos, para prolongar o uso da piscina durante o ano. Gerente de operações de empresa multinacional, Souza aquece a água por meio de placas solares no telhado da residência, no bairro Nossa Senhora das Graças, em Canoas. “Controlo a temperatura da água e consigo usar a piscina mais tempo”, diz Souza, que aproveita o conforto com a mulher, Fani de Souza, 37 anos.

Há seis anos, a Câmara de Porto Alegre chegou a aprovar uma lei para incentivar o uso da energia solar nas novas edificações do município. A legislação, no entanto, ainda não foi regulamentada.

Compare os Custos

Térmica

— Custo de sistema para aquecimento de água em uma casa com quatro pessoas: R$ 6 mil a R$ 8 mil

— Placas solares, reservatório e controlador de temperatura

— Retorno médio em quatro anos

— Economia de 70% ao ano do que seria gasto em gás

— Aquecimento de piscina de dimensões de 3m x 6m: R$ 4 mil a R$ 5 mil

— Placas solares, controlador de temperatura e motobomba

— Não representa economia, mas conforto

Fotovoltaica

— R$ 60 mil para gerar 400 kilowatts por mês (média mensal de consumo de uma família com quatro pessoas)

— Módulos solares, controlador de temperatura, baterias, conversor e medidores

— Retorno em 30 anos

— Economia de R$ 200 ao mês

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