05/08/2008

Cadeirante conta como adaptou sua casa

Fonte: Jornal da Tarde

Uma série de modificações foram feiras para atender às necessidades de um cadeirante

Zap o especialista em imóveis

RIO – Encontrar um imóvel para alugar ou para comprar não é tarefa fácil para ninguém. A situação ainda fica mais complicada quando quem procura é um portador de necessidades especiais. E mesmo quando se encontra é preciso fazer uma série de modificações para atender às necessidades de um cadeirante.

O engenheiro civil Nickolas Marcon, de 32 anos, esteve em 64 prédios, dos quais somente dez ofereceram condições de acesso, nem sempre apropriadas. Enfrentou rampas íngremes e até degraus. Dos dez prédios que, efetivamente, visitou, apenas três estariam aptos a receber moradores cadeirantes com a realização de mudanças simples e pontuais. Marcon escolheu um edifício no Flamengo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, que oferece boas condições de acessibilidade e é próximo ao Centro: questões básicas para ele. 

Em seis anos, desde que se mudou de Curitiba para o Rio de Janeiro, após passar no concurso da Petrobras, Marcon já morou em dois apartamentos diferentes no mesmo edifício. Lá, há uma pequena rampa na entrada da garagem, ao lado da portaria, vaga no estacionamento reservada para cadeirantes e toda uma série de opções de lazer que ele pode usufruir como a sala de musculação e a piscina.

Agora, ele está no terceiro imóvel no mesmo prédio. Desta vez, optou a entrar num financiamento e realizar o sonho da casa própria. Mas, antes da decisão, analisou com cuidado a planta do apartamento e a estrutura do prédio para se certificar de que poderia fazer obras para adequar o espaço às suas necessidades.

Aos 18 anos, Marcon sofreu um acidente de carro. Estava no banco de trás, sem cinto de segurança e sofreu uma lesão na medula, o que comprometeu o movimento dos membros inferiores. A experiência acumulada em Curitiba, onde ele trabalhou em obras de adaptação de ambientes para portadores de necessidades especiais o ajudou a enfrentar o desafio de tocar o projeto de uma casa inteira destinada a um cadeirante: a sua própria casa.

Passou cerca de um mês calculando medidas e possíveis modificações no apartamento. Ele ressalta que o imóvel já estava precisando de reformas. – Mesmo eu comprando um apartamento mais antigo e amplo, com uma planta boa que poderia ser melhorada, foi complexo. Não bastava pensar em aumentar o espaço da suíte, tive de me limitar à estrutura e ao shaft (tubulações) do prédio. Optei a derrubar as dependências de empregada e um armário embutido. Com isso, consegui aumentar o espaço da suíte. O quarto, que tinha 12 metros quadrados, passou a ter 16 metros quadrados e o banheiro, de 3,8 metros quadrados teve que ser ampliado para 4,5 metros quadrados. Eu precisava efetivamente de mais espaço para me locomover – afirmou Marcon.

Ao todo foram oito meses de obra, com o engenheiro e a esposa morando no apartamento. Ele conta que, em geral, as portas, especialmente as dos banheiros, representam um sinal vermelho aos cadeirantes, pois são estreitas. Segundo Marcon, a medida padrão para portas de banheiros é de 60 centímetros, o que na prática representa aproximadamente 54 centímetros por conta das perdas provocadas pelos caixonetes e das espessuras da própria porta. Já uma cadeira de rodas tem, em média, entre 58cm e 60cm de largura. Ou seja, não dá para passar.

– No segundo apartamento onde morei daqui deste prédio, fui obrigado a arrancar a porta do banheiro para poder usá-lo. Nos períodos, quando recebíamos visitas, como no réveillon, colocávamos um lençol para tentar diminuir o constrangimento – relembra o engenheiro.

Além da preocupação de Marcon de tornar o ambiente acessível e confortável, ele também teve preocupações estéticas. – Não precisamos seguir todas as orientações da ABNT e encher a nossa residência de barras. É preciso ter sensibilidade e observar o que realmente ajudará. Algo personalizado mesmo, o que varia de acordo com cada um. Eu queria um ambiente funcional e bonito. Além disso, no futuro, com a chegada dos filhos, pretendo comprar um apartamento maior e não quero que este seja desvalorizado por conta das adaptações – explica Marcon.

O engenheiro explica que alguns dos materiais que oferecem conforto e comodidade têm preços até 40% mais altos. Além da obra, a casa de Marcon os móveis são bem espaçados. Não há tapetes em lugar nenhum porque eles enroscam nas rodas da cadeira na hora de fazer curvas. Nas maçanetas das portas, todas são do tipo alavanca, basta apoiar a mão e e empurrar a porta. As redondas ou tipo bola são ruins, porque exigem uma pegada mais forte, dificultando seu uso como ponto de apoio para abrir ou fechar as portas.

Outros detalhes também fazem a maior diferença no dia-a-dia de um cadeirante. Entre eles, armários com portas de correr, cabideiro que fica no alto com puxador basculante, calceiro deslizante, box com três folhas de blindex, que oferece mais espaço para a entrada da cadeira de rodas, torneira com misturador monocomando, um mecanismo que mantém a temperatura constante, evitando possíveis jatos de água muito quente ou fria, ar-refrigerado acionado por controle remoto e interruptor paralelo, assim ele pode desligar a luz do quarto após se deitar. Todas adaptações idealizada por Marcon no apartamento.

O coordenador do projeto de acessibilidade do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetutra do Rio, Itamar Kalil, afirma que não há uma determinação legal que obrigue as construtoras a investirem em apartamentos voltados às pessoas portadoras de necessidade especiais. Entretanto, nas áreas comuns é obrigatório haver itens de acessibilidade, mas, muitas vezes, a lei não é cumprida e ainda são negligenciadas pelas prefeituras, que são responsáveis pela fiscalização, segundo Kalil.

No site do Ministério da Justiça, é possível encontrar informações detalhadas sobre as normas de acessibilidade nas edificações e mobiliários urbanos. Veja o documento: Acessibilidade e edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos.

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