30/10/2006

Carioca prefere se divertir à noite perto de casa

Fonte: O Globo

Comodidade e medo da violência ajudam a criar um novo perfil dos freqüentadores de bares e restaurantes no Rio

Fazer programas noturnos, para um número crescente de cariocas, significa apenas dobrar o quarteirão. Seja por comodidade ou medo de ser a próxima vítima da violência urbana, moradores da Zona Sul e da Barra da Tijuca têm preferido ir a restaurantes e bares perto de casa. Os donos dos estabelecimentos já perceberam a mudança de perfil da clientela. Segundo eles, moradores de áreas mais distantes são hoje uma parcela menor da freguesia e quem se anima a cruzar a cidade até a diversão costuma ser reconhecido: pede a conta mais cedo do que o cliente que vive na região.

O trio de amigas que tomava chope quinta-feira, no início da noite, no bar Tô Nem Aí, em Ipanema, se encaixa no perfil da atual clientela da casa. Tharcilla Bayer e Renata Bonnassis, de 27 e 28 anos, são moradoras do bairro. Junto com a dupla estava Ana Helena Levier, que precisou de deslocar da Barra da Tijuca, onde mora, para encontrar as amigas, que se recusam ir à Zona Oeste à noite.

– Também já freqüentei muito a Lapa à noite e nunca me importei com horário, mas hoje tenho medo de percorrer longos caminhos à noite. Prefiro ir a um lugar onde possa chegar a pé ou numa corrida curta de táxi. Barra, então, nem pensar. Pode haver um tiroteio no caminho – diz Tharcilla.

Ana Helena, de 27 anos, que tem se deslocado menos em direção à Zona Sul à noite, abriu uma exceção.

– Como elas não vão à Barra, eu vim a Ipanema – conta ela, acostumada com o fato de hospedar amigas nas raras ocasiões em que os jantares são marcados na Barra. – Outro dia, um amigo nosso fez uma festa em São Conrado e os amigos da Zona Sul não foram com medo do trajeto.

Alto da Boa Vista, um percurso evitado à noite

A moradora da Barra acrescenta que recentemente, ao voltar da Zona Sul para casa, por volta de meia-noite, ficou presa num engarrafamento dentro do Túnel Zuzu Angel, o que a deixou apavorada:

– Entrei em pânico achando que era algum tiroteio em frente à Rocinha, mas era apenas uma colisão, que fez o trânsito parar no túnel.

No bar Espírito do Chopp, no Humaitá, um quarteto de amigos, na faixa dos 30 anos, também se enquadrava no perfil atual da clientela. Três deles eram moradores da região e estavam acompanhados de uma amiga, vinda da Tijuca.

– De tempos para cá, mudei meus hábitos. Deixei, por exemplo, de ir à Barra à noite. Ainda gosto de ir à Lapa, mas bem menos e só de táxi, porque é perigoso ir de carro. Tenho ido mais a lugares perto de casa ou feito jantares para amigos. Mas os que moram na Zona Norte ficam com medo de voltar para casa. Então, convido para dormirem na minha casa – fala José Vicente Benevenuti, um dos integrantes do quarteto.

Com menos receio de circular à noite de carro, a amiga da moradora da Tijuca, Cristina Seabra, pretendia voltar para casa depois do chope:

– Não tenho tanto medo como meus amigos, mas evito alguns trajetos, claro, como ir pelo Alto da Boa Vista, tarde da noite.

Lapa e Baixo Gávea resistem e mantêm a lotação

A Lapa e o Baixo Gávea são redutos de resistência, segundo Pedro de Lamare, diretor de comunicação do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes, também dono de uma rede de 11 restaurantes entre Zona Sul, Barra e Centro.

– Lapa e Baixo Gávea resistem à mudança de perfil da clientela porque são freqüentados por jovens, que são mais destemidos. Aliás, a Lapa é um caso interessante porque ali as autoridades fizeram um trabalho para reduzir a marginalidade, o que deu segurança ao freqüentador – diz.

De acordo com ele, os empresários já identificaram que, além da mudança da clientela, a noite carioca tem terminado mais cedo, por causa da violência.

– Hoje em dia, as pessoas se deslocam menos à noite. Isso é fato. Há alguns anos, o movimento nas áreas de restaurantes era grande até 1h30m. Agora, a partir das 23h30m já começa a ficar deserto – afirma.

Para ter clientes, bares abrem filiais

Segundo a CET-Rio, diminuiu o movimento de veículos de madrugada

O afastamento de clientes que moram mais distante dos bares e restaurantes levou empresários cariocas a lançar mão de uma estratégia para não perder fregueses. Mas, segundo o diretor de comunicação do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes, Pedro de Lamare, a empreitada reduz os lucros dos estabelecimentos.

– Já que o cliente não vai ao estabelecimento, o empresário vai até ele. Por isso, estão surgindo redes de bares cobrindo várias áreas da cidade. Mas isso nem sempre é bom para os negócios, já que os lucros diminuem com o alto custo de se administrar uma rede – explica o diretor do sindicato, acrescentando que mesmo ele, morador de Ipanema, deixou de visitar à noite seus restaurantes na Barra, por medo.

– Numa das últimas vezes em que voltava da Barra para Ipanema, fiquei no meio de um fogo cruzado na Avenida Niemeyer – conta.

Barra ganha bar que recria a boemia da Lapa

Freqüentador da noite da Lapa, o empresário César Mariano, morador da Barra, tomou uma medida prática para evitar os deslocamentos noturnos: abriu, há seis meses, na Barrinha, o bar Bom Sujeito – Casa de Samba, que recria o ambiente da Lapa e tem levado ao palco shows dos melhores nomes do samba, como Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Dona Ivone Lara, Monarco e Noca da Portela.

– A casa tem feito sucesso entre os moradores da Barra e do Recreio. Os clientes me cumprimentam pela iniciativa. A primeira coisa que citam é a questão da segurança. Dizem que agora têm a chance de ouvir bom samba sem o risco de circular pelo Rio à noite – diz.

Carros circulam menos pela Vieira Souto nas madrugadas

Quinta-feira à noite, na Cobal do Leblon, o casal Paulo e Aracy Abreu era outro exemplo de freqüentadores que prefere se deslocar o mínimo possível. Eles gostam de sair para jantar, mas, depois de sofrerem oito assaltos (Aracy seis e Paulo dois), raramente deixam o Leblon, onde moram.

– Temos circulado menos à noite e

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