07/11/2008

Com foco no belo e famoso

Fonte: O Estado de S. Paulo

Horst P. Horst, entre os anos 60 e 80, foi o fotógrafo dos interiores, personalidades e detalhes reveladores

São Paulo – Eles podiam se esconder por recato ou esnobismo, mas não pelo medo de mostrar a cara ou o jeito de morar. Foram três décadas – 60, 70 e 80 – de muita transformação em matéria de design de interiores e, para testemunhar esse período já endeusado em revistas como Vogue e House & Garden, nada melhor do que as belas e vibrantes cenas, na maioria das vezes incluindo o dono da casa em seu habitat, captadas pelo famoso fotógrafo Horst P. Horst.

Horst nasceu na Alemanha em 1906 e queria ser arquiteto. Chegou a fazer um estágio, em 1930, com Le Corbusier. No entanto, pela mão de um companheiro, o barão fashion photographer George Von Hoyningen-Huene, Horst acabou enveredando pelo caminho da fotografia. Primeiro, com dramaticidade e luzes contrastantes, clicando o mundo fashion. Foi quando chamou a atenção por suas fotos de moda, que mais pareciam estudos arquiteturais em preto-e-branco. Sua sensibilidade para a arquitetura e a experiência do convívio com Walter Gropius, o fundador da Bauhaus, numa escola de artes aplicadas em Hamburgo, lhe apuraram o olhar e, por conseguinte, a lente com que veio a focar pessoas especiais, interiores memoráveis e detalhes reveladores.

Horst, que cativava também pelo charme e pela simpatia pessoal, foi logo pinçado pela antenada Diana Vreeland, editora da Vogue nos anos 60. Em pouco tempo se viu fazendo parte de uma sociedade a que um simples fotógrafo, naquela época, jamais teria acesso. Passou a usar luz natural, deixando para trás os flashes dos tempos das modelos. Passava dias, mesmo semanas, on location, ou seja, na casa de um desses clientes e amigos, esperando a boa hora para a fotografia, que podia ser às 6, 7, 8, ou então, ao entardecer. Ficava à espera que a luz chegasse aos cantos escuros, sempre à cata de sombras naturais. Com muita parcimônia faria uso da luz artificial. Gostava de focar em detalhes, criar justaposições, camadas de textura e cor, em composições sensuais e pictóricas. Assim, criou um estilo próprio.

Um livro-tributo
E seu trabalho se transformou em memória visual dos modos e atitude, década por década, dessa casta especial de High Style People. Seu acervo de fotografias não só conta a história da evolução do design nessa segunda metade do século 20, como revela o gosto pessoal e os caprichos domésticos de famosos e mitológicos, como Truman Capote, Yves Saint Laurent, os duques de Windsor, Andy Warhol, o barão Philippe de Rosthschild, Anne Gety, Jackie Onassis, Franco Zeffirelli, Paloma Picasso, Katherine Graham e outros mais ou menos ricos e famosos. Sobre todos tinha uma curiosa historinha para contar. Um de seus primeiros trabalhos para a Vogue foi a casa de Consuelo Balsan, americana que havia sido, por uns tempos, a duquesa de Marlborough: “Ela morava em Long Island, numa casa com ares de século 18, meio passé, mas elegante. Como alguns americanos, se preocupava em parecer européia. A casa era mais francesa do que qualquer das casas que fiz na Europa”.

Entre a de todos, Horst preferia a sua própria casa. “E como!”, ele dizia com entusiasmo. Nela, que fez moderna, branca, simples e com o dinheiro da venda de seu Picasso favorito, Palhaço Vermelho e Menino Azul, que recebera de um amigo em pagamento de um empréstimo, ele viveu com o namorado, o ex-diplomata e escritor Valentine (Nicholas) Lawford. Ficava em Oyster Bay, em Long Island. Ali guardava tesouros da vida inteira: os retratos dele e de Coco Chanel feitos por Christian Bérard, móveis de Jean-Michel Frank, luminárias de Diego Giacometti, aquarelas de Dalí, desenhos de Cocteau, fotos que fez de Jackie Onassis e Katherine Hepburn, e por aí afora. Tinha em casa também muito azul e branco, em azulejos e porcelanas, mas nada de chamativo: “Gosto da mistura do antigo com o moderno. Num país como os Estados Unidos, certamente, não faz sentido uma casa com antiguidades apenas. Não estaria certo. Elas pertencem à Europa”.

Um belo livro, Horst – Interiors, de Barbara Plumb, ex-home editor do New York Times, e que durante os 13 anos na Vogue acompanhou o fotógrafo em seus shootings, é um belo tributo a essa figura que ela considera o “maior fotógrafo de interiores de nossos tempos”. Livro hoje esgotado e vendido caro em livrarias vintage, mostra 52 cenas de interior, que incluem o dono da casa, ou então o portrait que fazia deles. A foto da capa, mostrando o chinelo bordado em petit-point do barão Phillipe de Rothschild sobre um tapete com o retrato de Napoleão III, sintetiza o talento de Horst para a evocação de detalhes.

Elegante e bonitão
Já se disse que aquilo que temos sobre as mesas de cabeceira revela quem somos. Pois Horst acreditava nisso. Com sua câmera, gostava de chegar bem perto, mostrar o que as pessoas colecionam, ao que de fato elas dão importância. Para ele, mais do que o ambiente como um todo, é nos detalhes que está a verdadeira persona. E esse algo mais, inesperado e vibrante, ele conseguia passar em suas fotografias. Podia, ou transmitir o extraordinário esplendor do luxo e da arte de certas casas, ou revelar o charme, a imaginação e a força da personalidade de seus donos. Horst, segundo Barbara, não podia ser melhor companhia: elegante, bonitão, voz de fumante e divertido contador de histórias. Não era de surpreender que soubesse deixar bem à vontade os retratados, enquanto manipulava a Rolleiflex ou a Hasselblad. Além de fazer com que todos se sentissem belos, apreciados e interessantes, durante o trabalho, fazia questão de um Dubonnet ou de um Campari.

Tinha grandes amigos e amigas, nomes hoje famosos, como Coco Chanel, Greta Garbo, Noel Coward, Elsa Schiapparelli ou Luchino Visconti. Coco era alma gêmea. Como ele, uma sofisticada autodidata. Ela, ex-menina francesa campesina, ele, filho de um dono de loja de material de construção, na Alemanha. Em sua primeira visita ao apartamento de Coco em Paris, Horst elogiou um grande anjo barroco: “Pois, no dia seguinte, não é que recebo o anjo em casa… Sua generosidade era surpreendente. Ela se pretendia a rainha de Paris. Criou um gosto próprio e o impôs ao mundo inteiro”. Outra amiga foi a americana Pauline Potter, desde antes de transformada em baronesa de Rothschild. Ao deparar com sua figura alta, quase desajeitada, sentada em cadeira baixinha e com as pernas abertas, disse: “Venha comigo para ser fotografada”. Captou a cena tal qual, e se tornaram amigos.

Publicidade nunca lhe faltou. Em vida, já era reconhecido. Ao completar 60 anos de trabalho profissional, em 1991, ganhou duas grandes homenagens: uma exposição no Museu do Louvre chamada Seis Décadas de Fotografia e o programa na BBC, Sessenta anos e ainda em Vogue. Suas três décadas de fotografias, quando publicadas em Horst – Interiors, em 1993, não levou em conta o fato de, eventualmente, os retratados terem mudado de casa, se separado ou morrido. Não importava. A idéia era imobilizar no tempo esse mundo idealizado onde Horst entrou, encantou e tão bem registrou.

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