17/03/2009

Condomínio vira bairro privativo

Fonte: O Estado de S. Paulo

Com seis meses de anúncio, cerca de 70% das unidades já foram vendidas para paulistanos que pretendem morar, trabalhar e se divertir nesse bairro privativo

O slogan “venha morar sem grande”, estampado em letras maiúsculas num panfleto imobiliário, parece um tanto contraditório. A propaganda serve para vender um novo empreendimento de alto padrão na região do Campo Belo, na zona sul de São Paulo, com uma torre comercial, um minishopping center, um miniparque e três prédios residenciais – com apartamentos que de “mini” não têm nada. As grades, os muros altos e as câmeras de vigilância estão ali, demarcando a área de quase 40 mil m². Mas, com seis meses de anúncio, cerca de 70% das unidades já foram vendidas para paulistanos que pretendem morar, trabalhar e se divertir nesse bairro privativo.

Com a promessa de comodidade, qualidade de vida, tranquilidade e segurança, diversos empreendimentos “quatro em um” estão sendo erguidos atualmente em São Paulo, unindo num mesmo espaço moradia, trabalho, lazer e consumo. Até 2011, serão sete lançamentos, totalizando 490 mil m² de terreno e um valor geral de vendas na casa dos R$ 2,5 bilhões. E outros cinco estão sendo planejados por três incorporadoras. Se por um lado esses megaempreendimentos multifuncionais servem como alento ao trânsito, propondo um novo jeito de viver dentro da metrópole, muitos urbanistas torcem o nariz para o que consideram empobrecimento da questão urbana.

“É possível sim integrar esses projetos à cidade, mas não dá para fechar todas as portas, erguer muros de 7 metros e criar bairros fechados e autossuficientes”, diz o arquiteto e urbanista Cândido Malta, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). “Os novos empreendimentos de uso mistos estão refletindo a insegurança social dos nossos tempos. É um exagero, uma paranoia.”

Na cidade de 22 mil prédios residenciais, onde 5 milhões de pessoas moram em apartamentos, a escalada por novidades parece ser um fenômeno natural. O marco da vida entre muros em São Paulo foi a inauguração há cerca de três décadas dos residenciais de Alphaville, em Barueri, a 30 km da capital. Já os empreendimentos “quatro em um”, que levam a ideia do isolamento à enésima potência, surgiram com o Parque Cidade Jardim, na zona sul, que contempla o Shopping Cidade Jardim, nove edifícios residenciais e três torres comerciais. Seis meses antes da entrega das chaves, 80% das unidades de alto padrão já haviam sido vendidas – com valores que iam de R$ 2 milhões no apartamento menor até os R$ 18 milhões da cobertura tríplex de 1,8 mil m².

“Não é só a comodidade de pegar um elevador para ir ao cinema ou tomar um sorvete e comprar um livro, mas a sensação de segurança também é muito maior”, diz a empresária Lucia Barra, que está de malas prontas para mudar para um apartamento no complexo. “Nesses empreendimentos de uso misto, a família tem a loja do lado, pode montar o escritório ali, então é um conforto”, completa Ubirajara Spessoto, diretor-geral da Cyrela em São Paulo, que planeja o lançamento de três projetos do mesmo tipo. “É uma coisa que veio para ficar.”

O Parque Cidade Jardim teve como inspiração grandes empreendimentos ao redor do mundo, como o Time Warner Center, em Nova York, e o Bal Harbour Shops, em Miami – o primeiro foi lançado há cinco anos em Tóquio, chamado de Roppongi Hills, que reúne num só endereço escritórios, hotel, apartamentos, lojas, restaurantes e até um museu. “Em geral, sou favorável à mistura de usos em qualquer cidade, faz sentido que as pessoas morem perto de onde trabalham”, diz o arquiteto e urbanista Jonas Rabinovitch, que há 15 anos trabalha em Nova York como coordenador de Desenvolvimento Urbano da Organização das Nações Unidas (ONU). “O problema é que a inserção de um prédio no seu entorno urbanístico é sempre uma questão importante para a cidade. Se o condomínio em questão significar a criação de um gueto físico, social e econômico, isso obviamente não pode ser bom para a cidade.”

No encalço do Cidade Jardim, os novos empreendimentos só reforçam a ideia de um oásis dentro de uma cidade caótica. O Condomínio Paulistano, por exemplo, que se vende como “bairro privativo” dentro do Morumbi, na zona sul, terá casas, escritórios, lojas, prédios residenciais, praças e um clube esportivo completo num terreno de 155 mil m². No panfleto, lê-se: “Faz tempo que São Paulo não vê namoros na porta das casas, crianças brincando na rua, amigos sentados na calçada. Felizmente, as coisas mudam.”

E a mesma incorporadora que fez o Parque Cidade Jardim agora prepara algo mais ambicioso no km 50 da Rodovia Castelo Branco, na altura de São Roque – numa área de 7 milhões de m², serão construídas casas, apartamentos e toda uma estrutura privativa com postos de saúde, escolas, universidades, igrejas e lojas para atender a população de quase 60 mil pessoas. “Aí não é nem um bairro privativo, é uma cidade fechada”, diz o urbanista Cândido Malta. “Claro que com cada vez mais assaltos, com prédios sendo assaltados por quadrilhas, as pessoas começam a procurar esses empreendimentos. Mas é preciso ter um balanceamento. Antes de combater as grades, é preciso combater a insegurança.”

70% das unidades de um empreendimento do gênero no Campo Belo foram vendidas em 6 meses

R$ 2,5 bilhões vão custar os 490 mil m² de condomínios de uso misto

previstos para serem abertos nos próximos 2 anos. Isso sem contar mais 5 conjuntos, que estão ainda em projeto

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