29/04/2011

Conheça os edifícios que contam a história do Rio

Fonte: O Globo
(Foto: Divulgação)
Arranha-céu do Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)

Jornalistas, músicos, artistas, marinheiros, mulheres. Quando o edifício A Noite surgiu, em 1929, era o primeiro arranha-céu do Rio de Janeiro e o maior da América Latina.

Virou, rapidamente, um ícone da boemia carioca de então. Sede da Rádio Nacional, mais poderoso meio de comunicação da época, e do jornal A Noite, fazia ponte com a Cinelândia, no outro extremo da Avenida Rio Branco, onde fervia a atividade política do país – Senado, Câmara dos Deputados, hotéis e conspirações.

Começa ali, nesse prédio cheio de histórias, a análise de 70 anos de arquitetura corporativa, feita pelo arquiteto e professor Heitor Derbli.

“A Noite estabeleceu uma nova hierarquia, com seus 22 andares, que iria servir de referência para toda a avenida, eixo do desenvolvimento da cidade”. O edifício iniciou a verticalização da região central – evidente nas imagens publicadas no suplemento Passos que Mudaram o Rio, veiculado em O Globo em novembro de 2005, reproduzidas nesta edição e que mostra, passo a passo, a evolução da região central. A Noite é a primeira a se erguer acima do horizonte do cenário. Para o estudo, dissertação de mestrado que Derbli apresentou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foram escolhidos, além do prédio de A Noite, na Praça Mauá, o Edifício Avenida Central, de 1953, próximo ao Largo da Carioca; o Edifício Argentina, de 1978, em Botafogo; e o prédio do Teleporto, de 1995, na Cidade Nova. O recorte buscou capturar os caminhos da arquitetura corporativa, junto ao desenvolvimento das indústrias, dos materiais e tecnologias de construção, das normas legais, dos novos sistemas de voz e dados – presentes em inovações que cada um desses projetos apresentou de forma pioneira.

No edifício de A Noite, Heitor Derbli conta que houve mistura significativa de correntes – estilo francês e porte norte-americano. Trouxe o mega arranha-céu da Escola de Chicago. Mas construído em concreto, sem a tecnologia de estrutura metálica característica da Escola, que não havia chegado ao Brasil.

Foi projetado pelo mesmo arquiteto francês que, poucos anos antes, havia desenhado o Copacabana Palace, Joseph Gire, com traços já do Art Déco, mas ainda flertando com o Art Nouveau. “Não tinha ar-condicionado, mas grandes ventiladores, nem banheiro privativo; mas foi um marco,” diz Derbli.

O Art Déco introduziu as bases de granito preto, estruturas maciças, que usavam elementos artísticos para indexar o próprio estilo, e não para rebuscar os elementos da construção, como no Art Nouveau.

“Como os prédios neoclássicos, a exemplo do construído na esquina da Praia do Flamengo com a Rua Buarque de Macedo”, explica.

As estruturas metálicas vão aparecer pela primeira vez no Edifício Avenida Central, representante do que seria a década de 60. Já existia a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), e a tecnologia dos esqueletos de metal da Escola de Chicago, inicialmente misturados ao concreto, representou mais velocidade de construção e, segundo Derbli, tornou os prédios mais “esbeltos.” Além disso, a nova “galeria comercial” – antiga Galeria Cruzeiro – trouxe salas individuais com banheiro, sistema de refrigeração e a proposta de elevadores por segmentos, características que o colocaram na vanguarda da arquitetura comercial.

Projeto de Henrique Mindlin (irmão do bibliófilo José Mindlin), veio “impregnado de vidro”, traço forte da cultura americana. “Para a época, foi uma novidade fantástica”, diz o arquiteto.

Não eram mais os boêmios, mas os intelectuais, os pré-parnasianos, os poetas que satirizavam o governo, discutiam política, frequentavam o hotel Avenida Central, a Confeitaria Colombo. Apesar da mesma altura do prédio de A Noite, tinha mais andares, porque a altura de cada andar era menor. O projeto mimetizava o arquiteto de vanguarda Mies van der Rohe, alemão que migrou para os EUA, autor da sede da Seagran, enorme e moderna caixa de vidro. Ele era o arquiteto por excelência do “International Style”, fortemente funcionalista. “A forma é a função”, teria ditoVan der Rohe.

O estilo privilegiava, ainda, o uso de vidros, por seus valores de luz e transparência e como contraponto ao concreto armado.

Já o Centro Empresarial Rio, também chamado de “Edifício Argentina”, uma iniciativa da João Fortes Engenharia, marca a migração do eixo empresarial do Centro para Botafogo, na Zona Sul. A oportunidade de abrigar empresas de pequeno e grande portes, deixando de ser uni-empresarial, fomentou, em grande medida, esse deslocamento de escritórios de um bairro a outro.

“Também incorpora novos conceitos de andar corrido e aderência às normas de necessidade, uso e oferta de vagas de garagem como diferencial de comercialização”, explica, em sua dissertação, o arquiteto.

“Além do topete monumentalista”, diz Derbli. O projeto de Cláudio Fortes e Roberto Wagner faz referência ao “brutalismo” dos anos 60/70 do Rio de Janeiro, em que a volumetria é fio condutor da proposta.

O Centro Empresarial Cidade Nova Teleporto, por sua vez, símbolo dos anos 2000, explora a ideia de edifício inteligente e os novos recursos de telecomunicações, informática, ao lado do uso de materiais modulares. O prédio atravessa a fronteira do alto conteúdo tecnológico.

Projeto da Pontual Associados, também se destaca pela preocupação em aproveitamento total da área, outro aspecto de vanguarda.

A arquitetura do Rio de Janeiro, desde a visita de Le Corbusier, em 1929, a pedido do então presidente Getúlio Vargas, sempre teve forte viés modernista. Desde então, avalia Derbli, busca-se, na cidade, novas leituras do Modernismo. Os projetos mais contemporâneos, contudo, na avaliação dele, não têm mais um único traço predominante.

Ao contrário, são muitas interpretações coexistindo na cidade.

É o ambiente pós-moderno.

Heitor Derbli deu aulas de geometria descritiva e desenho artístico de projetos comerciais durante 38 anos na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, e está à frente do HDAA Arquitetos & Associados, atualmente envolvido em vários projetos de edifícios universitários e educacionais. Foi responsável, por exemplo, pelos projetos da PUC, do Colégio Corcovado, e do IFC (International Financial Corporation).

Nos últimos seis anos, está fazendo projetos educacionais também na Nigéria, na África.

A dissertação “Edifícios comerciais como marco do processo de transição na arquitetura carioca – A Noite, Avenida Central, Centro Empresarial Rio e Teleporto” evidencia, diz ele, que os edifícios empresariais de vanguarda “estão diretamente relacionados ao trajeto histórico e cultural da cidade, seu momento político, seu desenvolvimento”.

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