26/11/2008

Construção civil desmorona no mercado financeiro

Fonte: Jornal da Tarde

Ações das empresas do setor, que eram estrelas da Bolsa, perderam valor com a turbulência econômica e a falta de crédito. Mas quem financiou imóvel não deve se preocupar: a possibilidade de perder dinheiro é muito pequena

Vedetes da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) nos últimos anos, as ações das companhias do setor de construção civil se transformaram em verdadeiros “micos” em 2008. Ações de empresas como Abyara e Inpar, que registram perdas de 81,23% e 92,29% desde que foram lançadas no pregão, tornaram-se exemplos de como os recursos dos investidores podem desaparecer em poucas semanas. Para quem financiou um imóvel com uma dessas empresas, porém, o risco de perder o dinheiro é mínimo.

Apesar de suas ações acumularem prejuízos na bolsa, elas continuam tocando seus negócios. “As construtoras que lançaram ações na bolsa nos últimos anos pegaram o dinheiro da venda dos papéis e aplicaram na compra de terrenos, cimento e tijolos”, resume João Crestana, presidente do Sindicato da Habitação (Secovi).

Com as ações em baixa, as empresas perderam a chance de se financiar por meio da emissão de novas ações. Mas isso não significa que elas estejam falindo. Crestana lembra que os imóveis são construídos com recursos de bancos e das vendas. “Até 70% dos custos são garantidos pelos bancos. Mas as instituições só liberam os recursos se cerca de 30% do dinheiro já estiver garantido pelas vendas”, explica.

Pelo instrumento do patrimônio de afetação, previsto nos contratos, cada prédio possui uma contabilidade específica. “Desde a falência da Encol (na década de 1990), o mercado mudou. Hoje, os recursos para construir um prédio não são utilizados em outro.”

Com a crise, empresas como a Inpar pisaram no freio, reduzindo os lançamentos. Mas as obras que estão em curso não correm risco. “Adotamos uma abordagem mais cautelosa, postergando alguns projetos para que eles possam coincidir com melhores condições de crédito e mercado”, afirmou o diretor de Relações com Investidores da Inpar, Cesar Parizotto.

NA BOLSA – Quem tem ações das construtoras, no entanto, está mais preocupado. “De fato, as empresas do setor eram muito recomendadas nos últimos anos”, diz Décio Pecequilo, analista sênior da Tov Corretora. “O problema é que ninguém podia adivinhar que o crédito iria escassear tanto com a crise.”

A partir de 2004, com a expansão da renda e das linhas de crédito, os brasileiros lançaram-se em busca da casa própria. Para suprir a demanda, muitas construtoras decidiram lançar ações na bolsa – uma forma de captar dinheiro para comprar terrenos e tocar obras.

Em 2006, oito empresas participaram de IPOs – Ofertas Públicas Iniciais, na sigla em inglês. No ano seguinte, outras 15 entraram na bolsa. A estréia dessas empresas atraiu centenas de investidores. Com o País crescendo e a demanda por moradias, o que poderia dar errado? Na avaliação da equipe de pesquisas da Planner Corretora, as ações de muitas empresas estavam superestimadas desde o início. Logo após os IPOs, os preços de alguns papéis caíram.

Além disso, a expectativa das empresas era de que 2008 seria o “grande ano da construção civil”. Por isso, muitas companhias começaram a fazer previsões audaciosas de lançamentos de novos imóveis. Quando a crise se intensificou, em setembro deste ano, as empresas foram atingidas em cheio. Resultado: as ações despencaram.

“O setor estava indo muito bem, porque o Brasil ia bem. Mas, como as empresas dependem muito de crédito, as ações caíram de preço (já antecipando os problemas que viriam)”, diz o economista José Góes, da WinTrade.

Com o crédito escasso, elas enfrentam agora dificuldades para captar recursos nos bancos. “Além disso, a crise abalou a confiança do consumidor. E a pessoa só toma crédito se estiver confiante”, afirma.

As ações das construtoras, que eram recomendadas pelas corretoras até o ano passado, viraram pó nos últimos meses. Ou quase.

A Inpar, que estreou em bolsa em junho de 2007, cotada a R$ 17,50, acumulou perdas de 92,29% até 31 de outubro, segundo a Bovespa. A Helbor, que abriu o capital em outubro do ano passado, perde 73,56% (veja relação ao lado). A exceção é a Cyrela Brazil Realty que, desde que foi lançada em bolsa, em outubro de 2005, acumula uma lucratividade de 64,30%. A companhia, porém, passou por um processo de cisão parcial em 2007, o que alterou sua cotação.

Para Góes, empresas com nomes consolidados, como Rossi e Cyrela, vão superar a crise mais rapidamente. “Vale a pena segurar a posição para ver se, em dois anos, as ações se recuperam”, indica. No caso de empresas com pouca liquidez, a recuperação pode não vir, ou demorar muito tempo para acontecer.

Os analistas lembram que a recuperação total de uma ação que caiu demais precisa ser ainda mais radical. As ações da Tenda, por exemplo, caíram 88,6% só em 2008, fechando outubro em R$ 1,17. Para recuperar todas as perdas, atingindo o mesmo preço do início de janeiro (R$ 10,15), as ações terão de subir 867,5%. Uma tarefa árdua.

CISÃO PARCIAL – Ocorre quando uma companhia transfere parte de seu capital para outra sociedade. No caso da Cyrela Brasil Realty (CYRE3), a cisão parcial transferiu R$ 228,2 milhões de seu capital para a Cyrela Commercial Propert (CCP), que também passou a ser negociada na bolsa sob o código CCPR3. Com a operação, o investidor que tinha ações da Cyrela Realty recebeu o mesmo número de ações da CCP. Quem tinha 100 ações de uma passou a ter a mesma quantidade da outra. A operação reduziu a cotação das ações da Cyrela, sem que o investidor tenha perdido dinheiro (já que ele recebeu ações da CCP)

DESDOBRAMENTO – Processo em que as ações de uma empresa são divididas para facilitar a negociação no mercado. Uma ação no valor de R$ 500, por exemplo, pode ser desdobrada em dez outras com valor de R$ 50

LIQUIDEZ – Quanto maior a liquidez da ação, maior a facilidade de negociação (compra e venda)

LUCRATIVIDADE – Leva em conta a oscilação do preço das ações ao longo do tempo e a distribuição de

proventos aos acionistas. Ao comprar ações, o investidor pode lucrar de duas formas: com a valorização do preço das ações ao longo do tempo e com o recebimento de proventos

PROVENTOS – Correspondem aos rendimentos distribuídos aos acionistas por meio de dividendos (participação nos lucros), juros sobre o capital próprio (remuneração com base no capital da empresa), bonificações (distribuição
gratuita de novas ações ou dinheiro) e subscrições (direito de adquirir novas ações, em condições vantajosas).

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