19/05/2010

Corretores criativos conseguem vender imóveis em locais barulhentos

Fonte: O Globo

No lugar do mar, o trem. Você já pensou em morar num apartamento com vista para uma estação ferroviária ou para uma avenida movimentada, como a Brasil? Pois bem: segundo alguns corretores de Nova Iorque, locais desse tipo têm rendido um número expressivo de vendas de imóveis. Quantidade que supera, muitas vezes, o volume de unidades comercializadas em lugares privilegiados, como a Avenida Park. A reportagem de Christine Haughney publicada pelo New York Times, esta semana, mostra como e por que esse mercado se torna atrativo com a persistência e a criatividade de alguns corretores. E ainda expõe a aceitação dos compradores, que se viram para driblar os ruídos e outros percalços dessas regiões.

Nova York – No lugar do mar, o trem. Você já pensou em morar num apartamento com vista para uma estação ferroviária ou para uma avenida movimentada, como a Brasil? Pois bem: segundo alguns corretores de Nova Iorque, locais desse tipo têm rendido um número expressivo de vendas de imóveis. Quantidade que supera, muitas vezes, o volume de unidades comercializadas em lugares privilegiados, como a Avenida Park. A reportagem de Christine Haughney publicada pelo New York Times, esta semana, mostra como e por que esse mercado se torna atrativo com a persistência e a criatividade de alguns corretores. E ainda expõe a aceitação dos compradores, que se viram para driblar os ruídos e outros percalços dessas regiões.

Lindsay Greene e seu noivo, Ricardo Colon, se mudaram para um apartamento em Williamsburg, com vista para a via rápida Brooklyn-Queens
Lindsay Greene e seu noivo, Ricardo Colon, se mudaram para um apartamento em Williamsburg, com vista para a via rápida Brooklyn-Queens

No ano passado, quando muitos corretores lutavam para vender imóveis em condomínios na Avenida Park, Vick Palmos e sua parceira de trabalho, Constantine Doumazios, conseguiram vender 37 unidades numa área pouco privilegiada de Astoria, no Queens, local menos privilegiado na cidade com metrô de superfície. Vick atribuiu o sucesso dos negócios ao fato de ter apostado em imóveis considerados desinteressantes pelos corretores, justamente por serem mal localizados.

Ela relembra, inclusive, o dia em que abriu a janela do terraço de um estúdio de US$ 270 mil no terceiro andar de um prédio, em Astoria – para mostrar a vista aos seus clientes – e percebeu a aproximação de um trem. Como um momento de câmera lenta que antecede a uma explosão em filmes de ação, as conversas foram encerradas: todos ficaram congelados e em choque. Mas a corretora, calma, aproveitou para fazer uma referência ao momento. “Veja: aqui fora, você sente a cidade”, disse ela, tentando segurar o riso enquanto o trem passava trovejando.

No Brooklyn, Clément Demetz e sua esposa, Sarah, gostam de ver o horizonte de Manhattan (após a Avenida Expressa Brooklyn-Queens)
No Brooklyn, Clément Demetz e sua esposa, Sarah, gostam de ver o horizonte de Manhattan (após a Avenida Expressa Brooklyn-Queens)

Não há pintura criativa, nem mobília clean e modernista capazes de disfarçar o ruído do trem que invade a casa pela janela. Mas, assim como para todo réu há um advogado, para toda casa há um defensor: os corretores têm que ser criativos e persistentes, especialmente quando é para defender áreas em que o mercado imobiliário é fraco.

No prédio recém-contruído ao longo do trilho por onde passa o expresso Brooklyn-Queens em Williamsburg, David Maundrell, presidente da Aptsandlofts, empresa especializada em venda de apartamentos e lofts, teve que convencer os responsáveis pelo projeto a colocar os apartamentos para aluguel ou a cortar seus preços de venda. Maundrell aconselha os corretores a serem diretos, mas também a terem senso de humor. E sugere piadas como “pelo menos você saberá sempre como está o trânsito.”

Lindsay Greene e seu noivo, Ricardo Colon, se mudaram para um apartamento em Williamsburg, pagando US$ 1.750 por mês. O casal disse que nunca tinha sonhado que poderia se dar ao luxo de alugar um apartamento novo. “É como se vivêssemos em um hotel”, disse Lindsay, depois da mudança.
Edwin Borelly está comprando um apartamento no condomínio Astor, à direita, mas optou por uma unidade do outro lado do edifício para evitar o ruído do trem
Edwin Borelly está comprando um apartamento no condomínio Astor, à direita, mas optou por uma unidade do outro lado do edifício para evitar o ruído do trem

Alguns ajustes no imóvel, no entanto, foram necessários. Eles compraram cortinas para bloquear a vista, repleta de carros e caminhões, por exemplo. Para Lindsay, o barulho do tráfego constante é mais calmo do que o som das sirenes da ambulância que escutava onde morou quando era mais nova, em frente ao Cabrini Medical Center. Ela diz que o único barulho que realmente incomoda são as pessoas conversando ou sussurrando.

Em Manhattan, a má localização não é apenas perdoável, como também considerada um lugar de benefícios exclusivos. John McCutcheon, responsável pelas ações de marketing de três apartamentos que ficam em frente à entrada para a ponte de Queensboro, aponta que esse tipo de lugar oferece uma saída rápida para os nova-iorquinos em direção a sua casa de fim de semana.

Segundo McCutcheon, até o colapso financeiro de 2008, o trânsito não o impediu de vender 11 das 14 unidades da região. Além disso, ele acrescenta que celebridades – incluindo a ex- primeira dama da França, Cecília Ciganer-Albéniz, e seu novo marido, Richard Attias – moravam num local próximo ainda pior. Uma proposta foi recentemente aprovada para um dos seus três apartamentos, que estão cotados entre US$ 2,5 milhões e US$ 2,7 milhões cada.

Vick, por sua vez, disse que foi levada a investir em propriedades situadas em regiões desvalorizadas por desespero financeiro: ela ajuda a sustentar o pai, que perdeu o trabalho como pintor no ano passado; e a mãe, que trabalha como costureira de vestidos de festa. Ela conseguiu vender um apartamento por US$ 350 mil, mesmo distante da estação do metrô,depois que o comprador visitou o imóvel às dez horas da noite, com seu travesseiro, para ter certeza de que poderia dormir com o barulho. “Eu chego até onde posso chegar”, disse ela.

A corretora e sua parceira de negócios, Constantine, convenceram um comprador a adquirir uma casa na estação de Long Island mesmo com o trem atravessando o quintal. Elas alegaram que os trens eram silenciosos porque tinham rodas de borracha. Mas Joe Calderone, porta-voz da estação, disse que as rodas são de metal. Angela Kontis, corretora do condomínio Astor, ressalta que já fechou contratos de 24 dos seus 80 apartamentos.

O engenheiro de software Edwin Borelly, de 32 anos, espera fechar um imóvel de um quarto no terceiro andar do edifício por US$ 370 mil. Além de escolher uma unidade em que não tivesse que conviver diretamente com os trilhos do trem, ele também pediu à mãe, irmã, tia, cunhado e namorada para irem ao apartamento de 68 metros quadrados e avaliarem o ruído (todos aprovaram). Segundo o jovem comprador, o apartamento apresenta menos barulho do que a casa onde cresceu, no Grand Concourse, no Bronx, onde os sons de alarmes de automóveis e de festas eram constantes.

Ainda assim, Vick tentou, sem sucesso, durante dois meses, vender uma casa de três quartos por US$ 889 mil numa área que fica logo abaixo dos trilhos de trem. O proprietário recentemente tirou o imóvel do mercado. Mas ela ainda não desistiu. “Alguém vai se acostumar com o som do trem. Afinal, há um comprador para cada produto”, disse.

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