24/09/2006

Crédito consignado pode ser diferenciado

Fonte: O Globo

Especialistas dizem que é melhor aguardar benefícios do pacote habitacional do governo

Há cerca de um mês a professora Maria Pilar de Vasconcellos começou a procurar um imóvel para comprar. Com o anúncio das novas medidas do governo para estimular o setor habitacional, no último dia 12, resolveu esperar um pouco mais e aplicou o dinheiro que usaria como entrada num fundo de investimento. A expectativa de Maria Pilar é que a possibilidade de retirada da correção pela Taxa Referencial de Juros (TR) e a extensão do crédito consignado (com desconto em folha) para os empréstimos imobiliários, principais novidades do pacote, alterem as linhas oferecidas hoje pelos bancos. E é justamente cautela e calma o que os especialistas recomendam a quem pretende adquirir a casa própria.

Para Luiz Carlos Ewald, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), não é preciso se apressar. Segundo ele, há imóvel de sobra para vender e alugar, e dificilmente haverá disparada de preços.

— É hora de esperar para ver o desdobramento das medidas no mercado. A compra da casa própria deve ser feita com muita calma — afirma.

O vice-presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), Rodolpho Vasconcelos, diz que as medidas anunciadas não terão efeito a curto prazo:

— O resultado não é para amanhã. As medidas ainda precisam ser postas em prática. Com isso, é possível que o tomador de crédito aguarde os desdobramentos.

Cálculos da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) mostram que, no caso da eliminação da TR da num empréstimo de R$100 mil, haveria uma economia de R$42 mil no valor pago ao fim de um período de 15 anos. Os cálculos levam em conta a aplicação de juros de 12% ao ano, pelo Sistema Financeiro da Habitação (SFH), que abrange imóveis que custam até R$350 mil. Atualmente, somando a TR, os mutuários pagam 14,5% anuais, em média.

Construtora critica retirada da TR

O governo deu ainda a opção de os bancos cobrarem os juros de 12% mais uma TR congelada, ou seja, que valeria para todo o tempo do contrato. Nesse caso, a prestação também seria fixa.

— Antes, a disputa era nos critérios, agora será nas taxas — comenta o diretor-geral da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Osvaldo Correa Fonseca.

Se depender dos bancos, algumas novidades podem estar a caminho. Mas não há data prevista para a divulgação de novas linhas nem detalhamento do que será feito, como é o caso da Caixa Econômica Federal. Já o Real aguarda a regulamentação de algumas medidas, como o congelamento da TR, mas diz que a tendência é se adequar às novas regras. O Itaú também estuda mudanças, sem prazo definido.

O HSBC lançou em 1º de setembro, portanto antes do pacote, a linha Credimóvel, cuja principal característica é não cobrar TR dos clientes que pagarem as mensalidades em dia. Com prazo de dez anos e taxa de 1% ao mês, a linha é destinada a imóveis com preço mínimo de R$200 mil e financiamento máximo de 75% do valor da unidade:

— Nós retiramos a TR sem aumentar a taxa de juros. Reduzimos o nosso spread (diferença entre o custo de captação do dinheiro e a taxa cobrada do cliente). Tão logo o crédito consignado seja regulamentado, pretendemos adotá-lo. O recurso do desconto em folha só favorece a segurança da operação — adianta Roberto Sampaio, diretor de Crédito Imobiliário do HSBC.

O presidente da construtora Concal, José Conde Caldas, porém, acha que mexer na TR é um erro:

— A história mostra que toda vez que se alteram as regras do sistema habitacional há problemas. Os bancos já vinham baixando os juros, numa competição sadia. Se a TR for retirada, o resultado será um tiro no pé.

Já o diretor da Associação Brasileira dos Mutuários da Habitação (ABMH), Geraldo Tardin, frisa que os interessados em comprar um imóvel precisam ter cuidado:

— É um momento de precaução. Concorrência não se estabelece em uma canetada. É preciso saber como as novas medidas vão funcionar na prática. E isso não ficará claro em um período inferior a quatro meses. Há uma tendência clara de aumento dos juros em contratos que não forem corrigidos pela TR.

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