31/12/2006

De costas para o bairro

Fonte: O Globo

Os diferentes impactos dos prédios auto-suficientes sobre a vizinhança

Boa parte dos edifícios que vêm sendo erguidos na cidade incorporou um padrão de qualidade que os tornou verdadeiros clubes sociais auto-suficientes. Além da área do imóvel e do número de cômodos e dependências, são oferecidas ainda garagem, áreas internas de lazer, piscina, sauna, salas de ginástica e musculação e até bares. Isso sem se falar no aspecto de segurança, segmento em que nos últimos anos ocorreu uma verdadeira revolução tecnológica, com a instalação de grades e portões inteligentes, circuitos internos de TV, guaritas e outros dispositivos. No entanto, especialistas alertam que esses condomínios desestimulam a vida nas calçadas, esvaziam ruas e praças, tornando a vizinhança mais insegura.

Além dos imóveis propriamente ditos, esse tipo de empreendimento também vende um estilo de vida, no qual parte importante da sociabilidade acontece em áreas especificamente demarcadas para o lazer e o consumo, como shoppings, hipermercados, megastores, academias, boates etc. Atualizam-se, assim, as formas de vida urbana, com novas etiquetas, posturas de convivência e usos dos espaços comuns.

Nas regiões de ocupação mais recente da cidade, como na Barra da Tijuca, esse estilo de vida se tornou marcante. Já nos bairros antigos das zonas Sul e Norte, observa-se um sutil confronto entre esse novo urbanismo e aquele outro que se traduz no uso de ruas e calçadas, numa forte integração da vizinhança, através do comércio de proximidade, praças e outras áreas comuns de convívio.

O choque entre esses modelos tem sido discutido por arquitetos, urbanistas, sociólogos, antropólogos e planejadores urbanos. Uma voz crítica dos modernos condomínios, hoje já clássica nesse debate, é a da pesquisadora americana Jane Jacobs, falecida em abril passado. Nos anos 60, Jane fez um contundente apanhado dos efeitos, no cotidiano da cidade, do modelo de condomínios que se proliferou no mundo através da chamada arquitetura comercial. Ela partiu da seguinte indagação: por que determinadas áreas da cidade se tornam desertas e inseguras, ao passo que outras, sem grandes estruturas e parafernálias tecnológicas, apresentam vida social saudável, com baixos índices de criminalidade?

A pesquisadora esmiuçou essa problemática no livro “Morte e vida de grandes cidades” (editora Martins Fontes), no qual ela sugere que quanto maior for o uso comum dos espaços públicos e a mistura de segmentos sociais distintos, maior vitalidade terá o bairro. Jane defende o comércio tradicional de rua e o papel de determinadas figuras públicas do bairro, como porteiros e comerciantes, no controle informal da rua.

Quase 40 anos depois, os problemas urbanos em geral, e a violência da cidade em particular, ganharam enorme complexidade. Assim como o seu crescimento, nem sempre ordenado, também introduziu novos problemas. Mas as idéias básicas de Jane permanecem pertinentes e atuais.

Um dos trechos mais antigos de Botafogo, entre a General Polidoro e a Álvaro Ramos, próximo à Rua da Passagem, é um exemplo eloqüente do contraste de lógicas distintas de ocupação urbana. Na área, onde predominam construções de até quatro pavimentos – sendo o primeiro andar residencial no nível da rua -, o surgimento de edifícios no estilo auto-suficiente chama a atenção dos moradores por seu tamanho imponente e o desaparecimento de um certo patrimônio afetivo da vizinhança, os velhos prédios ou sobrados derrubados.

Além do impacto visual contrastante com a arquitetura que ainda predomina no bairro, a maior parte desses novos prédios se desconecta da rua onde se situam, lançando sombra sobre a vizinhança. Os moradores entram e saem de carro e seus apartamentos estão distantes dos vizinhos, pois suas janelas situam-se muitos pavimentos acima do nível da calçada, já que normalmente possuem quatro ou mais andares de garagem e playground. A própria estrutura da moradia acaba influindo no comportamento do morador, que incorpora os valores de identidade vendidos com os imóveis.

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