16/10/2008

De olho no furacão

Fonte: O Globo

Especialistas recomendam cautela para quem planeja comprar a casa própria

O momento é de ficar atento. Com o agravamento da crise financeira nos Estados Unidos e a alta dos juros básicos no Brasil, o crédito já ficou escasso e encareceu em vários setores. Os financiamentos imobiliários ainda não sofreram impacto, mas, para economistas, os bancos podem fazer ajustes nas regras dos empréstimos nos próximos meses: os juros tendem a subir e os prazos para pagamento, a diminuir. O aperto no crédito pode levar a uma queda na procura por imóveis e em seus preços. Segundo os especialistas, sairia ganhando, portanto, quem tem dinheiro para pagar à vista.

A expectativa de desaceleração da construção civil já se reflete nas ações do setor negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Segundo estudo da consultoria Economática, o valor de mercado da Rossi, por exemplo, caiu R$719 milhões em setembro, quando a crise se agravou fortemente. Já o valor de mercado da Cyrela encolheu R$352 milhões no mês.

O economista Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central, ressalta que o mercado imobiliário ainda representa uma fatia pequena do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) nacional e que essa crise pega o país no momento de crescimento desse setor. Ele diz, no entanto, que não é hora de assumir financiamento para compra da casa própria:

– O crédito é o principal canal de transmissão da crise para o Brasil. O primeiro efeito é que as taxas de juros devem subir. Portanto, não acho que seja uma boa hora para assumir um financiamento de prazo tão longo. Por outro lado, a demanda será menor e isso pode fazer o preço do imóvel cair.

Imobiliárias esperam queda na procura por imóveis
Já o presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Luiz Antonio França, garante que a crise não vai afetar as condições dos financiamentos. Segundo ele, as expectativas são de que em 2008 o volume de contratações atinja cerca de R$30 bilhões.

“Apesar da crise, no Brasil encontramos um nível de desemprego bastante baixo e há previsão de crescimento do PIB de 3,5% para o ano que vem. Como a fonte do mercado imobiliário é a poupança, não vejo possibilidade de mudança no crédito”, afirma.

O vice-presidente do grupo de imobiliárias Brasil Brokers, Julio Pina, diz que, por enquanto, não houve mudança no comportamento de compradores, mas já espera queda na procura:

“Sabemos que, daqui para frente, as pessoas podem adiar a compra da casa própria via crédito por causa da falta de expectativa do fim da crise e do medo do desemprego”, afirma Pina.

Queda das ações de construtoras deixa mercado imobiliário em alerta
Analistas esperam redução no crédito para empresas
Para Luiz Carlos Ewald, economista da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-Rio), o momento é de ficar de olho nos preços dos imóveis:

“A situação do mercado imobiliário pode ser vislumbrada em função das ações das construtoras que sofreram uma queda (as ações da Rossi, por exemplo, até quinta-feira passada, acumulavam baixa de 80% no ano). Isso significa uma projeção sobre as dificuldades futuras de crédito para essas empresas. E, quando o crédito aperta, isso afeta diretamente o consumidor. Há aumento de juros e mais dificuldade de financiamentos”, analisa Ewald.

Para o diretor regional da Rossi, Marco Adnet, as perspectivas são boas porque o setor imobiliário brasileiro depende só do mercado interno.

“A crise de confiança é de crédito internacional e só vai atingir os setores ligados ao mercado externo. O setor imobiliário é 100% nacional. O crédito imobiliário continua farto e os bancos ainda estão seguros para emprestar”, observa Adnet.

O presidente da Patrimóvel, Rubem Vasconcelos, concorda que o mercado imobiliário não será afetado com a crise, mas destaca: os preços dos terrenos devem ficar mais baixos.

“Não é o setor imobiliário que vai ser afetado. Só vai sofrer aquele que não tiver caixa. O imóvel é o grande porto seguro para a instabilidade financeira. O que pode ser alterado é o preço do terreno para produção, que ficará mais barato porque a demanda vai diminuir”, afirma Vasconcelos.

Mais procura por imóvel como investimento seguro
Gilberto Braga, professor de finanças do Ibmec, também acredita que não haverá mudanças relevantes no cenário imobiliário. Para ele, compradores podem até buscar imóveis como um investimento mais seguro que as ações.

“Em momentos de insegurança, o imóvel é sempre um porto seguro. E o Brasil não corre o risco da famosa crise das hipotecas que se instalou nos Estados Unidos. A interferência da turbulência externa será muito pequena no setor imobiliário”, aponta.

O vice-presidente da RJZ/Cyrela, Rogério Zylbersztajn, também considera a possibilidade de haver uma maior procura de investidores por imóveis, por ser considerada uma compra mais segura:

Estamos com uma economia muito mais sadia e com bases sólidas. O país está contendo a inflação. Já vivemos outras crises e já entendemos que as pessoas procuram ativos reais e o mercado imobiliário representa isso. O risco é o da falta de crédito.

De acordo com o presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi) e da construtora CHL, Rogério Chor, o fantasma que pode voltar a assustar é o do desemprego:

“Neste momento, estamos no olho do furacão. É muito difícil avaliar os impactos a longo prazo, mas o país pode passar por problemas. A queda das ações da construção civil reflete um momento de pânico”, observa Chor.

Mas o mercado imobiliário é um porto seguro e quem tem dinheiro na mão para adquirir a casa própria está tranqüilo. A insegurança em função da crise pode adiar a decisão de comprar um imóvel via financiamento e, se isso acontecer, vamos avaliar se será necessário fazer mudanças nas datas de futuros lançamentos.

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