23/07/2013

Decoração de imóvel histórico traz de volta a URSS dos anos 1930

Decoração de imóvel histórico traz de volta a URSS dos anos 1930

Fonte: Revista do ZAP

Ambientação com a cara do início do período stalinista realizada por dono de antiquário chama a atenção

No meio do processo de reforma de um grandioso apartamento com cobertura num dos bairros mais chiques de São Petersburgo, na Rússia, o dono do imóvel mudou de ideia e de planos. E decidiu alterar muito mais do que a cor da tinta das paredes.

“Cismei que queria deixar o apartamento com a cara do início do período stalinista”, diz Sergei Bobovnikov.

 Rússia stalinista

E aí começou uma reforma pouco comum até mesmo para os padrões russos. A elegância e os excessos são comuns na Rússia hoje em dia. Já a análise da história da decoração do país, com sua linguagem esquerdista de elementos operários e rurais é menos comum, mas não inédita.

Mesmo assim, o espaço em questão pouco lembrava o luxo do Politburo – comitê central do partido comunista da antiga URSS – quando Bobovnikov o comprou, em 2002, pelo equivalente a US$ 220 mil.

Originalmente projetado como uma residência única, ele se tornou um espaço comunal decrépito ocupado por oito famílias numa fila de pequenos cômodos ao longo de um corredor sem luz.

Bobovnikov – que há pouco tempo se divorciou e precisava de casa nova – pretendia mudar tudo usando um estilo moderno e confortável, mas a história do prédio do início do século 20 – que tinha abrigado diversos oficiais influentes da era stalinista e servido de cenário para o Grande Expurgo do final dos anos 1930 – parecia pedir reconhecimento.

Foi quando ele pensou que uma expressão mais artística que não tentasse esconder esse momento de definição na história do país seria uma alternativa.

A ideia de criar um interior espelhado na era stalinista foi tomando forma e assim ele derrubou as paredes que dividiam o imóvel para revelar suas proporções originais generosas, marca registrada da arte déco russa dos anos 1930.

Imóvel ou antiquário
Não foi algo totalmente inesperado, pois Bobovnikov trabalha há anos em um antiquário – e especializado na arte ideológica do período soviético.

“O conceito começou a se formar claramente na minha cabeça. Eu tinha vários itens dos quais gostava muito, mas não tinha vendido e que se encaixariam perfeitamente feito um verdadeiro mosaico”, afirmou.

E é rápido ao esclarecer que não é simpatizante de Stalin: “O stalinismo é repulsivo, como o fascismo”, afirma Bobovnikov, que decidiu usar o apartamento como um lugar onde exibir sua arte e encontrar, e até hospedar, os clientes e não mais como residência.

“Veja só, a decoração do período fascista italiano é muito popular no momento e eu entendo o porquê. Eu mesmo gosto muito. Só não sabia quando comecei a obra que o stalinismo também seria tendência”, diz.

“Acontece que o estilo do império stalinista, inspirado na arte déco e nas linhas enxutas do design italiano da era de Mussolini, já começa a ressurgir na Rússia”, diz Xenia Adjoubei, professora de História da Arquitetura da British Higher School of Art and Design que também tem um escritório em Moscou.

O interior da era stalinista voltou a ser apreciado pelo visual belo e minimalista, diz ela, mas recriá-lo a partir do zero pode parecer estranho, até mesmo assustador, admite.

“Mas só é ruim se a pessoa quiser recriar o estilo de vida de um membro do NKVD”, diz, referindo-se à polícia secreta da época.

“Provavelmente ele está apenas apreciando o valor estético”, acrescenta.

Porém, o interesse de Bobovnikov no estilo não era puramente estético: ele admitiu que queria provocar discussões com os visitantes ao destacar o contraste da exuberância e do otimismo da arte e dos acessórios de decoração com “a compreensão de como tudo acabava para aquelas pessoas”. Assim, ele recriou o apartamento como se pertencesse a um funcionário da prefeitura da Leningrado dos anos 1930, inclusive com decoração e objetos de arte combinando.

De fato, vários oficiais do regime stalinista chegaram a morar ali, mesmo que não por muito tempo. Um deles foi Sergei Kirov, o proeminente líder bolchevique cujo assassinato, em 1934, marcou o início do Grande Expurgo, no qual mais de um milhão de pessoas foram presas ou executadas. Outros morreram na onda de prisões em massa conhecida como o Caso Leningrado de 1949.

Entretanto, mesmo num imóvel com um passado tão dramático, conseguir o visual daquele período não é fácil, principalmente mais de meio século depois. Bobovnikov passou quatro anos e gastou o equivalente a cerca de US$ 75 mil reformando o apartamento, sem incluir os objetos de arte que agora fazem parte do imóvel.

E descobriu que criar a atmosfera ideal era uma questão de detalhes. Um dos armários, por exemplo, foi feito com painéis de carvalho em alto-relevo que pertenciam à biblioteca do diretor da fábrica de tratores Kirov.

Detalhes decorativos
Outra particularidade rara e preciosa é o conjunto de escrivaninha e a cadeira de carvalho que tem o tema agrícola do “Pão do Comunismo” entalhado por um dos designers da Ordem de Lênin. Pinturas realistas do período socialista enfeitam as paredes – entre elas um retrato assustador de um grupo de crianças admirando uma estátua de Josef Stalin.

Outros detalhes revelam versões modernas de temas soviéticos. Na cozinha, um fogão italiano novo foi enfeitado com elementos do período, incluindo uma placa de bronze de um refeitório de uma hidrelétrica soviética mostrando o martelo e a foice atingidos por um raio. A barra da porta do forno é feita de uma torneira de samovar.

O banheiro é feito no estilo de uma sala de banho das academias soviéticas: as lâmpadas industriais de um rebocador foram adaptadas para iluminar o espelho.

O longo corredor do apartamento foi coberto de tacos no estilo das instituições soviéticas, num esquema de cores verde e bege que hoje em dia não existe mais e Bobovnikov mandou fazer sob encomenda.

Ele diz que recebe muitos telefonemas por semana de decoradores pedindo permissão para reproduzir vários aspectos do interior do apartamento. E os clientes? A maioria é de empresários ou funcionários públicos mais velhos que cresceu vendo filmes soviéticos que retratavam cenários semelhantes para a elite e os poderosos das gerações anteriores.

Ver um desses interiores ao vivo e em cores depois de tanto tempo deixa as pessoas embasbacadas.

“O pessoal adora o clima que reproduzi dentro do apartamento. Ninguém quer morar aqui, porém, gosta de visitar”, garante.



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Tags: arquitetura

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