14/08/2008

Discurso sobre a madeira

Fonte: O Estado de S. Paulo

O arquiteto Marcelo Suzuki usa matéria-prima rara e minúcia oriental ao projetar casa em Ribeirão Preto

SÃO PAULO – Foi um começo atípico, em 2006. Antes mesmo de desenhar a casa – para um solteiro, em Ribeirão Preto, com 1.000 m² de área construída no terreno de 2.500 m² -, o arquiteto Marcelo Suzuki teve de mostrar conhecimento em botânica. “Visitei um galpão em Itapagipe, interior de Minas Gerais, para analisar uma centena de toras de madeira que seriam utilizadas na construção”, conta Suzuki. “A madeira foi a matéria-prima do projeto. Ficamos dias por ali só para catalogar e numerar as espécies.” Trabalho meticuloso, próprio de quem é neto de japoneses.

Mas de onde vinha essa madeira? Na realidade, a história dessa casa, erguida no interior paulista, começou a ser escrita décadas atrás, na fazenda de um pecuarista de Itapagipe, quase fronteira com Goiás. Às margens do Rio Grande, ele criava gado e preservava uma invejável área de mata ciliar, dentro dos padrões atuais de conservação de mata nativa. O fazendeiro mantinha, intocadas, aroeiras, ipês-amarelos, sucupiras, tudo para que os animais encontrassem uma sombra em meio ao tapete verde. Sabedoria de caipira.

Reaproveitamento

O tempo passou e parte dessa fazenda virou canavial. As árvores foram cortadas para ceder lugar à plantação. Com pena de jogar fora troncos e raízes, a família guardou a madeira. Anos depois, um de seus descendentes resolveu construir uma casa para si, em Ribeirão Preto. E viu aí a chance de aproveitar, na construção, aquilo que fez parte da narrativa familiar.

Com dois andares, a casa é mais do que suficiente para o proprietário, que adora festas. A madeira em estado bruto se transforma em foco de admiração: ela compõe toda a estrutura da construção, cerca o mezanino, reveste os degraus da escada e está presente nas portas de correr (na Ita Engenharia, o m² de um projeto estrutural com madeira varia de R$ 300 a R$ 500). A maior parte das peças é de aroeira – um tronco de 11 metros de altura sustenta o telhado de quatro águas, que abraça o imóvel e cria um vazio central. Toras de ipê e sucupira aparecem como vigas na varanda que circunda a casa.

Inspiração oriental

Três quartos no mezanino recebem visitas; a suíte do proprietário fica no térreo; e o piso é de pedra-goiás (na Pedras Belas Artes, o m² custa R$ 50). A decoração tem assinatura de Ge Carolo. Homenagem maior ao passado da família está na fachada, revestida com um painel de madeira originário dos currais. As tábuas envelheceram de modo irregular, por isso a cor não é uniforme, “o que é ótimo, torna o efeito natural”, opina Marcelo.

Zap o especialista em imóveisA fachada exibe por inteiro o trabalho com as madeiras recolhidas da fazenda em Minas Gerais. Em primeiro plano, a piscina em forma de violão, feita a pedido do proprietário

Sem notar, o arquiteto revela a inspiração oriental, quando detalha as escolhas que fez. E reconhece que o uso ostensivo da madeira, no mobiliário e na estrutura, está conectado com esse legado, sobretudo pela escola moderna a que se filiou.

“Frank Lloyd Wright deve muito às suas viagens ao Japão, assim como Lina Bo Bardi, que visitou o país duas vezes durante o exílio”, diz esse que foi discípulo da arquiteta ítalo-brasileira falecida em 1992. Marcelo também explica que o designer e arquiteto holandês Gerrit Rietveld, ao desenhar móveis fáceis de serem desmontados, é Japão na essência.

“É tradição você fazer e refazer, decompor mentalmente as peças de um móvel”, afirma ele. “A arquitetura moderna se apropriou dessa estética oriental”, garante. Detalhe: nos jardins há uma ponte de madeira, no meio do gramado. “Aí, eu sabia que estava falando de Japão…”, reconhece o arquiteto. “Mas me sinto brasileiro de alma, assim como a maioria dos netos dos imigrantes. Minha avó, aliás, era índia.” Tanto é verdade que, no escritório de Marcelo Suzuki há uma bandeira da Mangueira e a placa “Corinthians – Timão”. É Brasil por todos os lados.

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