24/02/2008

Empresas pechincham

Fonte: O Globo

Construtoras estão formando cooperativas para economizar em materiais. Preço de imóveis pode diminuir

Jarbas OliveiraZap o especialista em imóveisOtacílio Valente, da cooperativa cearense: “Só pela notícia de nossa viagem (à China), os fabricantes brasileiros (de porcelanato) nos ofereceram descontos de até 40%

Candidatos à compra da casa própria, de Norte a Sul do país, poderão, em poucos meses, ter a grata surpresa de constatar que os preços caíram. O benefício é um efeito esperado pela proliferação das cooperativas de compras, formadas por empreiteiras. Elas estão se unindo em pelo menos 12 estados com o objetivo de ganhar poder de barganha nas negociações com os fornecedores e enfrentar a alta consistente dos preços dos materiais. As construtoras que já vão juntas às compras têm obtido resultados expressivos: descontos de até 40% em produtos como elevador, concreto, porcelanato e ferragens.

O cooperativismo está sendo considerado fundamental para o setor, já que o boom imobiliário está provocando a explosão do custo dos insumos. Enquanto no ano passado a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), ficou em 4,46%, o Índice Nacional da Construção Civil (INCC) registrou uma variação de 6,15%.

Já estão em fase de associação, tendo à frente os sindicatos da indústria da construção civil (o Sinduscon) locais, empreiteiras de estados cujos mercados estão em expansão acelerada, como os de São Paulo, Goiás, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte, além do Distrito Federal.

A fonte de inspiração das construtoras é a cooperativa do Ceará, há dez anos em atuação. Reduzindo custos quase à metade, conseguiu uma queda de 5% no preço dos imóveis em Fortaleza. É uma diferença nada desprezível. Um apartamento de 80 metros quadrados, em vez de R$240 mil, custaria R$12 mil mais se os descontos obtidos recentemente não tivessem se concretizado. O preço médio do metro quadrado na capital cearense é de R$3 mil.

— As reduções que nós conseguimos nas compras feitas de forma conjunta são repassadas ao preço final dos apartamentos. Se não fosse a cooperativa, posso afirmar que o metro quadrado em Fortaleza atualmente custaria mais — afirma Otacílio Valente, presidente da cooperativa cearense.

Valente conta que, no ano passado, as construtoras cearenses, associadas, fizeram compras no valor total de R$11,96 milhões, sempre com descontos. O volume negociado foi 45% maior do que no ano anterior, e a perspectiva para 2008 é que o crescimento continue. A cooperativa vai começar a comprar conjuntamente argamassa, cerâmicas, portas de madeira, esquadrias de alumínio e material de instalações elétricas e de água, entre outros itens.

— Com a cooperativa, conseguimos falar grosso com os fornecedores. Fomos à China, no ano passado, para negociar com os fornecedores de porcelanato. Só pela notícia de nossa viagem, os fabricantes brasileiros nos ofereceram descontos de 40% em relação à tabela — acentua o presidente da entidade, lembrando que seria impossível realizar a viagem, caso cada empresa pensasse em fazê-la individualmente.

Cooperativa de SP está sendo criada

E o que era uma única experiência está se tornando regra no setor. O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Paulo Simão, afirma que a entidade tem como objetivo, até o ano de 2010, criar cooperativas em todos os estados:

— Neste momento aquecido do mercado, qualquer redução de custo será repassada ao cliente.

Simão diz que, contrariando o imaginário popular, a maior parte das construtoras do país é formada por empresas pequenas, que não conseguem se impor a fornecedores, que em geral são poucos e concentrados em produtos específicos. Segundo ele, existem 120 mil empreiteiras formais no país e 160 mil informais.

O forte Sinduscon paulista, que reúne 17 mil construtoras, está em fase de criação da cooperativa, a Coopercon-SP. João Cláudio Robusti, presidente do sindicato, acredita que a organização será boa para o setor, cada vez mais pressionado pelos fornecedores.

A telha de fibrocimento, o bloco de concreto e o cimento, por exemplo, subiram 33,8%, 31,1% e 23,9%, respectivamente, em onze meses, até janeiro último. No mesmo período, o Custo Unitário Básico (CUB) da construção civil no estado aumentou 7,17%. No geral, dos 41 itens pesquisados pelo Sinduscon paulista nesse período, 24 subiram acima da média do custo unitário básico.

— Dos nossos associados, apenas 5% podem ser considerados grandes, com fôlego suficiente para fazer frente aos fornecedores — sustenta Robusti.

 

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