30/10/2006

Empresas que ‘adotam’ quarteirões

Fonte: O Estado de S. Paulo

Num processo que urbanistas e especialistas do mercado imobiliário classificam como valorização da cidadania, construtoras estão “adotando” o entorno onde constroem seus empreendimentos. Seguindo exemplos de empresas privadas parceiras do Poder Público, adotam uma estratégia de marketing que ganha, como contrapartida, a simpatia dos vizinhos e a valorização imobiliária. “É uma visão nova, superconsistente e uma excelente política junto ao Município”, afirma o diretor do Sindicato da Habitação (Secovi), Sérgio Ferrador.

Na Vila Olímpia, por exemplo, edifícios comerciais de alto padrão estão reformulando a Rua Gomes de Carvalho. Com investimento que pode chegar a R$ 10 milhões, os empreendedores decidiram levar melhor infra-estrutura ao local onde estão sendo construídos pelo menos cinco prédios. Além da duplicação, a rua não terá mais postes e as calçadas serão padronizadas.

Eles formaram uma ONG, a Colméia, e vão dividir com a Prefeitura as modificações na região. “Achamos que essa experiência pode se multiplicar para outras áreas. Não podemos esperar só pelas ações da municipalidade; a iniciativa privada também precisa fazer a sua parte”, diz o diretor-presidente da Sandria Projetos e Construções, Victor Sandri, uma das envolvidas no projeto. A empresa é responsável pela construção de seis prédios inteligentes na região da Rua Funchal.

As iniciativas acabam se tornando uma vitrine para a população, ao mesmo tempo que acrescentam valor comercial ao empreendimento. Ou política de boa vizinhança, na opinião do urbanista João Valente Filho, do Instituto de Engenharia (IE). “Temos de imaginar que, quando se faz uma intervenção para a construção de um prédio, nada mais justo do que tentar beneficiar o entorno”, afirma Valente.

Embora seja uma iniciativa ainda nova na cidade, o urbanista salienta que a tendência é que cada vez mais empresas adotem essa atitude, que está prevista no Estatuto das Cidades. “Nós somos a cidade e felizmente cada vez mais pessoas percebem a sua responsabilidade. Há uma tendência forte de os cidadãos tomarem conta de onde vivem.”

Entorno – Essa foi uma das idéias que motivaram a JHSF Incorporadora a mudar a cara do entorno do Edifício Paris, no Itaim. Empreendimento de alto padrão, o prédio está sendo construído numa região valorizada, mas com estabelecimentos comerciais antigos. Quando ficar pronto, em outubro, ficará entre pontos comerciais com fachadas mais coloridas e várias árvores ao longo das Ruas Bandeira Paulista e Eduardo de Souza Aranha.

“Lançamos o Projeto Restaurar em junho de 2002 para devolver à comunidade maior qualidade de vida”, diz o diretor da empresa, André Coletti, que reconhece aí a estratégia comercial. “Isso também é importante para o empreendimento, que vai ser mais valorizado.”

Até os taxistas da região obtiveram vantagem. Ganharam um local mais arborizado – com 50 árvores e 100 vasos de plantas de médio porte – e uma cobertura no ponto de táxi. Os comerciantes, que tiveram suas placas e fachadas readequadas ou restauradas, comemoram. “Foi uma iniciativa democrática, porque consultou todos os envolvidos, e arrojada, porque provavelmente demoraria muito se cada um fosse reformar seu imóvel”, diz a comerciante Sueli Elizabeth Gomes.

Mesmo letreiros nem tão antigos foram readequados. Um estacionamento da Rua Eduardo de Souza Aranha ganhou um luminoso novo. “Antes, a fachada era muito grande e estava meio velha. Agora ficou muito melhor e a rua está mais bonita”, diz o gerente do estacionamento, Marcos Roberto Belmonte.

A Odebrecht Empreendimentos Imobiliários é outra que pretende surpreender vizinhos com o que classifica de “arquitetura mais humanista”. Os novos lançamentos da empresa dão grande peso à integração com o entorno. “O morador de São Paulo está buscando mais qualidade de vida. Uma praça na frente do seu imóvel, o comércio mais seguro é muito importante”, diz o diretor de atendimento da Lopes Consultoria de Imóveis, Tomás Salles.

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