16/10/2008

Espaço essencial

Fonte: Estadão

Na cobertura em que vive Maria Helena Cabral, nada está lá por acaso

São Paulo – Olhos vívidos, sorriso largo, pele de pêssego. Sentada no sofá desenhado pelo marido, o designer Oswaldo Mellone, Maria Helena Cabral conta que, aos 11 anos, já trabalhava – hoje é proprietária da Esencial, loja de roupas , móveis e objetos de decoração. O trabalho precoce não aconteceu por necessidade, mas sim pelo espírito inquieto, sempre pronto para aprender e fazer. E de tanto fazer e aprender, coordenou, com Oswaldo, a reforma da cobertura no Jardim Paulistano.

Zeca Wittner/AE Zap o especialista em imóveisMesa de jantar italiana da Kartell e cadeiras do designer chileno Cristian Valdes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No imóvel de 500 m², onde a dupla mora há 12 anos, não há um objeto comprado apenas pela beleza. Antes disso, ele tem de contar uma história – caso do painel com ideogramas japoneses pintados por um professor de caligrafia oriental, em que está escrito “um brinde à casa nova”.

Maria Helena nasceu em Santos e, aos 9 anos, foi morar com a família em Londrina, onde seu pai fundou um banco. Logo arrumou emprego. “Era empacotadora de uma loja de tecidos e, em vez de salário, o proprietário me dava um corte de tecido”, lembra. Com o ?pagamento?, desenhava vestidos. Detalhe: a mãe não sabia. “Sempre fui independente.”

Seguindo a regra de uma família tradicional, a jovem de 17 anos se casou com o diretor industrial da empresa da família, o Café Cacique. A união a fez preparar recepções para empresários (Nelson Rockfeller), ministros (Delfim Netto), personalidades (Pelé, Burle Marx). “Naqueles anos 70, só nós recebíamos em Londrina. Em viagens, eu observava a mesa posta de bons restaurantes e depois fazia igual.”

O fazer sempre foi constante na vida de Maria Helena. Tanto que, no apartamento, tudo tem um toque pessoal. Dos três quartos sobrou uma suíte e um dormitório para os netos. A área social reúne salas de TV, estar e jantar integradas. O piso de marfim (de 9 cm x 1,8 cm, a partir de R$ 266 o m² colocado, na IndusParquet) serve de fundo para móveis de design, alguns de Oswaldo. É o caso da mesa de centro com tampo de marchetaria de pedras, emoldurado por estrutura de madeira revestida de couro. “Compramos o tampo em Agra, na Índia. Ele foi feito com a mesma técnica de construção do Taj Mahal”, explica.Veio do mesmo país o almofadão jogado próximo das poltronas Veranda cor de laranja de Vico Magistretti (da Cassina, importadas pela Casamatriz).

Na sala composta de um bricabraque de peças assinadas e lembranças de viagens, o nicho na parede exibe um vaso etrusco que o pai de Oswaldo, médico, ganhou de um paciente na Itália. No mesmo ambiente há duas poltronas Dodo, de Toshiyuki Kita (Casamatriz). Já no quarto, Maria Helena preserva uma bola de cristal que era do seu pai. “Acho importante conservar a memória dos parentes”, diz.

Por isso, o salão no segundo andar é reservado à família. Reformado, o espaço tem piso de peroba com tapete de ladrilho hidráulico e estante de sucupira tingida de branco (da Marcenaria Brasil). Fotos, livros, quadros, revistas. Tudo ali é disposto com tanta simplicidade que até permite ao ambiente funcionar como quarto de hóspedes, com chaise em vez de cama.

Muito unida ao pai, só após a morte dele (e da separação do primeiro marido) Maria Helena veio para São Paulo, nos anos 80. Aqui ela fazia e vendia blusas de chamois para amigas e, decoradora autodidata, executou trabalhos na Capital. Depois de casada com Oswaldo, teve uma idéia: vender produtos da Ásia em bazares. Como não vingou, encampou a proposta de uma amiga – criar uma loja de itens exclusivos. “A sociedade não deu certo de cara e resolvi fazer tudo sozinha”, explica sobre a Esencial, que completou oito anos em março.

Até hoje Maria Helena cuida do desenho das roupas às compras e administração do negócio. Resultado: 12 horas de trabalho por dia e um enfarte. “Parei de fumar de vez”, conta, explicando que o problema de saúde a impediu de comemorar os 60 anos, em 2007, com a devida pompa. Em vez da festa tardia que pretendia dar este ano, ela embarca esta semana para sua primeira viagem à China.

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