28/02/2012

Especialistas desenham o Rio dos sonhos

Fonte: O Globo
Especialistas desenham o Rio dos sonhos
Rio de Janeiro (Foto: Divulgação)

Enquanto os cariocas estavam distraídos aproveitando as dunas da Gal, no início dos anos 70, ou balançando o corpo nos frenéticos dancing days, já no finalzinho da década, a paisagem da cidade foi mudando sem que muitos se dessem conta do estrago. Num ritmo alucinante, que combinava mais com a onda da discoteca do que com a paz e amor que reinava nas areias de Ipanema, foram surgindo novos elevados e viadutos, que enfeiaram a paisagem privilegiada da cidade.

Num exercício de imaginação, estimulado pela decisão do prefeito Eduardo Paes de pôr abaixo o Elevado do Perimetral, revelando a beleza da Praça Quinze e arredores, O Globo consultou arquitetos e urbanistas para saber o que mereceria também desaparecer, nem que fosse apenas em sonho.

O resultado foi quase unânime: não há quem se conforme com o Elevado Paulo de Frontin, que, mesmo antes de concluído, já estava envolto numa aura de desgraça. Em novembro de 71, 112 metros da estrutura, em fase final de construção, desabaram, matando 48 pessoas. Passada a comoção, ele foi ampliado e inaugurado, acabando com o ar bucólico e boa parte dos casarios do Rio Comprido e, de quebra, levando barulho e poluição para os moradores de prédios próximos. Isto sem falar, é claro, na área debaixo do elevado, eternamente sombreada e onde uma nesga de sol é privilégio bissexto.

“O que fizeram foi um crime, um agressão a uma área belíssima. Antes do elevado, aquele área parecia Petrópolis, com casas dos dois lados e um canal no meio”, diz o arquiteto e urbanista Nireu Cavalcanti.

O arquiteto Fagner Marçal, mestre pela UFRJ, faz coro:

“O elevado colaborou para aumentar a sensação de sufocamento pelo pedestre, gerando um corredor expresso de poluição, sujeira, abandono e insegurança. Se não é possível a demolição, como acontece com a Perimetral, por que não a qualificação daquele espaço? Temos uma infinidade de métodos alternativos de iluminação indireta para o espaço sob o viaduto. A criação de um espaço verde estimularia a revitalização urbana daquele trecho.

Uma simulação feita pelo Globo mostra como a região ficaria hoje sem o elevado, apenas com a avenida margeando o canal. O resultado é uma área mais arborizada e ensolarada, mais de acordo com o Rio.

Em São Cristovão, especialistas puseram a Linha Vermelha no rol das feiúras cariocas.

“Estes elevados são um horror do ponto de vista estético, mas importantes para a mobilidade, já que não se investiu adequadamente no transporte público. Mas há formas melhores de se fazer as obras, desapropriando uma área maior, criando parques em volta. Não pode ter nada grudado nas casas”, diz o arquiteto Pablo Benetti, professor da UFRJ.

O prefeito Eduardo Paes não quis entrar na brincadeira. Convidado para apontar os monstregos estraga-paisagem, ele se recusou. Talvez com medo de que, já que vai derrubar a Perimetral, fique com fama de Pereira Passos do século 21. O que, para alguns, até que não seria uma má ideia.

 

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