06/04/2008

Falta de imóveis para locação provoca filas

Fonte: O Estado de S. Paulo

Até quem já tem casa própria opta por alugar outra perto do trabalho

Antonio Milena/AEZap o especialista em imóveisTradição – Imóvel é bem de raiz

“Nunca vi tanta gente alugando imóvel. Houve uma evolução de um mês para outro de 100% de procura”, afirma Roseli Hernandes, gerente geral da imobiliária Lello. Tanto que há escassez de unidades e filas de interessados. Segundo ela, 70% procuraram por unidades residenciais. A maioria deseja residências de um e dois dormitórios.

A liquidez tem sido enorme. Conforme levantamento do Sindicato das Empresas de Habitação (Secovi-SP), os apartamentos em fevereiro levaram de 16 a 34 dias para serem alugados.

Entre os locatários, surge um comportamento curioso de pessoas que já possuem um imóvel, mas preferem alugar outro. “São mais despojadas e não pensam duas vezes em deixar o próprio imóvel para alugar um mais perto do trabalho”, observa Roseli.

Ela ressalta que o trânsito, a busca pelo conforto, qualidade de vida e liberdade também contam neste tipo de decisão. “O mundo moderno leva as pessoas a agirem dessa forma.”

Outro fator é que, muitas vezes, o imóvel comprado deixa de servir para a família, conforme as fases da vida. “A vida muda tanto que a necessidade de hoje pode ser outra amanhã. Se o casal ganha um filho ou se há separação, tudo muda”, exemplifica. Nesses casos, é comum as pessoas resolverem trocar de casa. “E o aluguel é uma solução muito boa.”

Mas o perfil de famílias que sonham com a casa própria ainda é o mais representativo. Segundo Cyro Naufel Filho, diretor de Atendimento da imobiliária Lopes, isso ocorre por razões históricas. “O brasileiro tem um perfil conservador, que gosta do imóvel como um bem de raiz”, analisa. “É a cultura do português, da época da colonização, em que o imóvel sempre foi visto como um porto seguro para alocação de dinheiro.”

Na história recente do País, outros fatores contribuíram para que o brasileiro conferisse à casa própria status de investimento seguro. “Se você olhar para a geração que hoje tem mais de 40 anos, ela cresceu num Brasil da hiperinflação e instabilidade”, lembra. “Nos anos 80 e 90, ninguém tinha segurança de dinheiro e o imóvel era o investimento mais seguro, muito em função da loucura inflacionária.”

Sem contar que ter dinheiro aplicado no banco já representou para muitos um risco alto no passado. “Um dia já confiscaram a poupança”, recorda Naufel Filho. Neste cenário, não depender do aluguel era sinônimo de tranqüilidade. “O imóvel tem o melhor lastro de todos que é o tijolo.”

Compare aluguel e prestação

Ao contrário do senso comum, economistas costumam dizer que pagar aluguel não é jogar dinheiro fora. Ao alugar, o morador estaria em vantagem em relação a quem financia. É que, com a diferença entre o valor da prestação e do aluguel, ele pode formar poupança. E, ao longo dos anos, teria juntado dinheiro suficiente para comprar um imóvel à vista antes de ter quitado as parcelas do crédito. No entanto, com a queda dos juros e o aumento do prazo do financiamento, o resultado desta conta começa a mudar.

“Hoje em dia, esta suposta vantagem não existe mais”, afirma Miguel de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac). “Antigamente, o aluguel custava 1% do imóvel e as prestações em torno de 2,3%. Era mais vantagem alugar. Mas de um modo geral, hoje a parcela está num valor muito próximo ao do aluguel”, afirma. “ Vale a pena o esforço de financiar, em vez de alugar e não ser dono de nada.”

Além disso, segundo ele, com a Taxa Selic (taxa básica de juros) a 11,25% ao ano, o rendimento das aplicações de renda fixa não é mais tão atrativo como antes. E os imóveis voltaram a ser vistos como forma de investimento rentável.

Mas de acordo com o professor de finanças pessoais da USP Rafael Paschoarelli Veiga e autor do livro “As regras do jogo”, dizer que a prestação do crédito se iguala ao valor aluguel não é verdade. “O valor só fica próximo se a entrada oferecida for muito grande”, diz. Portanto, na opinião dele, em muitos casos, alugar ainda é vantagem.

A equação muda, segundo ele, conforme o valor do imóvel. “Quanto mais alto o padrão do imóvel, mais barato é o aluguel em proporção ao valor do bem. E quanto mais baixo o padrão, mais caro é o aluguel.”

Por isso, é comum entre famílias de altíssima renda a preferência pelo aluguel. Com o dinheiro do imóvel, pode-se diversificar os investimentos. “Até para a classe média o aluguel ainda sai barato”, diz Veiga.

Porém, para as camadas de renda mais baixas, a conta se inverte. E trocar o aluguel pela prestação pode ser, sim, um bom negócio. Mesmo porque, para esta fatia da população, as taxas de juros são menores e há subsídios.

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