09/03/2009

Feminino singular

Fonte: O Estado de S. Paulo

Designers resgatam as formas da mulher em cadeiras e poltronas

Fotos: DivulgaçãoZap o especialista em imóveis

São Paulo – Mulheres são cantadas à exaustão na música. De Tom Jobim a John Lennon, não faltam exemplos de como elas podem se traduzir em poesia. Tal fenômeno também ocorre, guardadas as devidas proporções, no design de mobiliário. É o caso de assentos pinçados pelo Casa& em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, em que se observa fácil, fácil, gostosas citações femininas.

“Há uma correlação entre a linguagem concernente à cadeira e a que se refere ao corpo humano”, lembra a curadora e jornalista especializada em design Adélia Borges. “Cadeiras têm pernas, pés, costas, articulações. Podem ter braços e também coluna.” Como há mulheres de diferentes tipos, dá para entender por que algumas cadeiras evocam certa feminilidade de diferentes formas. Isso significa que se encontram desde modelos lânguidos e longilíneos até mais portentosos e robustos.

A presença de curvas – uma convenção – é ponto em comum na maioria dos casos. Espécie de masterpiece do italiano Gaetano Pesce, a poltrona Donna radicaliza as formas arredondadas para compor uma espécie de trono pós-moderno de espuma de poliuretano e tecido elástico. Pode-se enxergar na bola presa ao pé tanto a ideia da maternidade quanto a de símbolo de aprisionamento. Tudo a ver com a atmosfera de 1969, ano em que foi criada, tempo importante para a luta do feminismo. “Tento comunicar sentimentos de surpresa, descoberta, otimismo, estímulo, sensualidade, generosidade, alegria e feminilidade”, já disse o designer.

Zap o especialista em imóveisO arredondado na Donna, de Gaetano Pesce, produzida pela B&B Itália e vendida pela Atrium

Sensações parecidas manifestam-se ao deparar com a cadeira Leda (1935/37), de Salvador Dalí, criada em Paris a partir de uma pareceria entre o autor e o francês Jean-Michel Frank. A arte surrealista está na forma escorrida de três pernas, com direito a sapatos nos pés, reproduzida da obra Femme à la Tête Rose. Arte, também, foi feita pelo designer italiano Fabio Novembre – não no senso estrito da palavra, mas no usado quando se faz traquinagem. Sua Her Chair parte da icônica cadeira Panton para revisitar a nudez do Jardim do Éden e incorporar ao original um corpo fetichista. O resultado é de gosto duvidoso.

IMAGINÁRIO COR-DE-ROSA – Não há dúvidas, porém, da delicadeza com que outros profissionais trataram – e tratam – o assunto. Exemplo é o arquiteto e fotógrafo italiano Carlo Mollino ou o designer sueco Bruno Mathsson, que conceberam peças de elegante proporção. E também Philippe Starck, que vira-e-mexe bebe da fonte do imaginário cor-de-rosa. Repleta de arabescos, a recente e metálica Miss Lacy parece denotar um gosto atual pela estética neobarroca. O venezuelano radicado no Brasil Pedro Useche também exaltou o feminino na cadeira Mulher, de 1989, mas meio por acaso. “O resultado estético veio primeiro e só depois o nome”, comenta ele a respeito do móvel de aço com madeira torneada no encosto, que lembra pequenos seios.

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