21/08/2008

Foco na parede

Fonte: O Estado de S. Paulo

Com cotação em alta no mercado, a foto artística ganha lugar na decoração

Zeca Wittner/AEZap o especialista em imóveisPainel de Martin Chambi (1920) no apartamento da colecionadora Jacqueline Shor

SÃO PAULO – Não, não é minha família, esclarece a peruana Jacqueline Shor, diante do painel de Martin Chambi que ocupa a parede central de seu living. “Assim como a origem de minha cadela schnauzer, é a pergunta mais comum de quem me visita pela primeira vez”, brinca a colecionadora, feliz em meio às quase 200 obras, 50 das quais fotográficas. Entre elas, um exemplar da série Pigmentos, de Vic Muniz (artista representado pela galeria Fortes Vilaça, tem avaliação em cerca de R$ 45 mil), que ocupa lugar de destaque na sala de jantar.

Em meio à sobreposição de técnicas, imagens abstratas e grandes formatos, a fotografia ocupa hoje o centro de suas atenções. “Acredito que, nos dias de hoje, a fotografia é o meio mais eficaz ao alcance dos artistas. Pretendo continuar adquirindo novos trabalhos”, diz Jacqueline, que não está sozinha em suas convicções. Partilhando espaço – e preços – com as tradicionais telas e gravuras, a foto artística não pára de conquistar adeptos.

“Por toda a história da arte contemporânea, ela foi uma técnica valorizada. Hoje, com o boom das câmeras digitais, o momento é de ?peneirar? talentos – só vai ficar quem tiver expressão diferenciada”, pondera o colecionador e marchand José Marton. Com impacto visual, cotação no mercado em alta e número crescente de bons artistas, incorporar a fotografia aos interiores domésticos é procedimento em expansão no mundo da decoração de interiores. “O que diferencia a foto do trabalho artístico é o modo como o artista usa a lente. Não o que ele capta, mas sim o modo como interpreta o que vê”, realça Marton.

Outro entusiasmado colecionador é o decorador Fernando Azevedo. “Gosto do exercício de apropriação de imagens possibilitado pela fotografia. O artista se permite viajar por épocas desconectadas, do império napoleônico à noite nova-iorquina”, comenta ele, diante de uma obra de Odires Mlászho (trabalhos do artista na Galeria Vermelho, preços sob consulta) posicionada acima da lareira.

Fundo neutro

Para dar destaque a uma única foto, Fernando recomenda que o formato do suporte seja escolhido de acordo com a área disponível na parede. No caso de distribuir imagens de múltiplas origens em um mesmo espaço, um fundo neutro é essencial. Em qualquer situação, porém, espaço lateral é necessário para não interferir na leitura.

A parede que serve de suporte também deve ser considerada por influenciar a percepção dos trabalhos. Como exemplo, o decorador cita o canto de leitura de sua casa, que recebeu fotografia de Claudia Andujar complementada por telas e gravuras. “A pintura neutra, off-white, foi determinante para contrabalançar a intensa vibração do conjunto”, diz.

Receita bem observada pela empresária e artista plástica Gina Elimelek na montagem de sua sala de jantar. “A cor é um aspecto que me atrai muito na fotografia”, diz ela, citando o portrait do artista e fotógrafo de moda J.C. Bergamo, avaliado em R$ 20 mil, que adorna o ambiente. “Gosto da sensação de profundidade sugerida por esse azul intenso.”

Além de critério na hora da escolha, decorar com fotografias exige cuidados extras – como a imagem pode ser prejudicada pela exposição à luz, é aconselhável posicioná-la ao largo da incidência dos raios solares. E, no lugar do vidro, vale a pena optar pelo policarbonato, de preferência com proteção UVA/UVB. “Assim, a obra pode atravessar os anos em perfeito estado. E, uma vez que é arte, merece ser tratada como tal”, pontua Marton.

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