05/01/2010

Frank Owen Gehry: O arquiteto mais festejado do mundo

Fonte: O Globo

“Não sei quem inventou essa porcaria de palavra starquiteto. Um jornalista inventou, eu acho. Não sou um “star-quiteto”, sou um “ar-quiteto”.” Em dez minutos de entrevista, Frank Owen Gehry, o arquiteto mais festejado do mundo, já está um pouco irritado. Pequeno, ele parece mais novo que seus 80 anos, e fala calmamente quando deixado a seus próprios pensamentos. Mas quando está tratando de algo mais controverso, ele relaxa e fica animado. Sua cabeça e sua voz se levantam. Ele até sorri. Este é um homem que gosta de uma briga.

Lanço a primeira granada ao lhe perguntar se é verdade que os starquitetos – como ele, Jean Nouvel e Zaha Hadid – elevaram o nível da profissão. Ou eles apenas criaram cultos de personalidade? – Há pessoas que não projetam prédios que são técnica e financeiramente bons, e há aquelas que sim – responde ele. – São duas categorias, é simples.

Apesar da modéstia ofendida por meu uso da palavra star (estrela), Gehry, o arquiteto mais falado desde Frank Lloyd Wright, é rápido em assegurar em qual categoria se encaixa: – Meu prédio em Bilbao custou US$ 300 por metro quadrado, com orçamento de US$ 100 milhões. Terminei no prazo e dentro do orçamento.

Após 11 anos, ele ainda está lá, sem vazamentos. No ano passado, deu 320 milhões de euros a Bilbao, pelos visitantes que atraiu.

O Walt Disney Hall foi construído por US$ 215 milhões, com orçamento de US$ 207 milhões.

Ele não tem vazamentos, e as pessoas o amam e identificam Los Angeles com o prédio, assim como identificam Bilbao com o museu.

EXPOSIÇÃO REÚNE FOTOS E MAQUETES DESDE 1997 – O museu de design Triennale, em Milão, também parece não ter vazamentos, mas não poderia ser mais diferente que as criações de vanguarda de Gehry. Ele abriga uma exposição de maquetes, ilustrações e fotos de todos os seus projetos importantes desde 1997. Foi o ano em que seu exuberante Guggenheim chegou, aparentemente vindo de outro mundo, para estacionar nas margens cinzas do Rio Nervión, em Bilbao, iluminando a cidade espanhola.

Uma mistura parecida de hi-tech e extravagância reapareceram no prédio do Banco DZ, em Berlim (2000), no Walt Disney Concert Hall (2003), no Ray and Maria Stata Computer Center, no Instituto Tecnológico de Massachusetts (2004), e no ainda não construído anexo da Corcoran Gallery, em Washington – todos na exposição. É um modo otimista de Gehry terminar um ano difícil, com projetos cancelados e tragédia familiar. É também uma oportuna lembrança de sua carreira espetacular, com um Prêmio Pritzker (o Nobel da arquitetura) e cadeiras em Yale, Columbia e Harvard.

Gehry nasceu em Toronto, no Canadá, mas sua família se mudou para Los Angeles em 1947. Pobre, judeu e novo na cidade, ele era o triplo estrangeiro, que, desprezado pela elite artística de Los Angeles, mudou seu nome Goldberg, seguindo o conselho de sua primeira mulher, Anita Snyder, para evitar o notável anti-semitismo na profissão.

“A cada vez, sofro como se estivesse começando de novo na vida – disse, certa vez, sobre seu processo de criação.”

A filosofia de trabalho de Gehry é estar em controle do projeto durante toda a construção, para manter intacta a visão artística original e eliminar a má influência de políticos e pessoas de negócios. Esse controle o acompanhou este ano, na construção de seu próximo e aguardado trabalho, o Guggenheim de Abu Dhabi, previsto para ser aberto em 2010. A estrutura vagamente piramidal, envolta pelas águas do Golfo Pérsico, terá 450 mil metros quadrados.

Gehry teve receio de que uma rígida cultura islâmica pudesse limitar o tipo de arte que museu poderia exibir. Mas já se tranquilizou.

“Estava seriamente preocupado. Mas eles acabaram de mostrar obras de Picasso do Louvre (numa outra galeria), incluindo alguns nus, e não houve interferência”, diz, reconhecendo, porém, que a situação nos Emirados Árabes não é um mar de rosas. – Estava numa reunião e um curador expressou seu ódio de Israel para mim, então não será tão fácil.

Uma das críticas mais frequentes a Gehry é que seus museus são mais interessantes que a arte que eles expõem. Outros o acusam de usar em excesso outras formas de arte. Mas algumas críticas o irritam mais. Ele não deveria fazer prédios mais socialmente relevantes? Seus projetos não são extravagantes demais? Os tempos são difíceis, afinal. Isso acende o sinal, como a palavra que começa com “s”: – Nós somos arquitetos… Servimos aos clientes! Não posso decidir sobre o que será construído. Olha, estudei urbanismo em Harvard e descobri que você nunca consegue mudar porcaria alguma. O planejamento urbano está morto nos Estados Unidos.

Depois de dar a palavra final num assunto, Gehry às vezes tenta fazer correções, ao falar sobre algum tema vagamente relacionado: – As pessoas terão que aprender a viver mais modestamente. Atravessamos gerações de excesso. Agora há outra coisa acontecendo, e temos que responder a isso. Mas os arquitetos não poderão fazê-lo sozinho – diz ele, que, no último ano, teve que demitir cem pessoas de sua empresa, Gehry Partners.

Ele critica ideias da moda ou politicamente corretas, como a arquitetura ecológica.

“Questões ambientais vêm sendo usadas como instrumento de marketing. Às vezes, as reivindicações verdes são completamente sem sentido”, diz Gehry, que se contradiz ao falar sobre um edifício que acabou de construir na Suíça. – É todo de vidro, mas com a mais alta taxa de eficiência de energia.

Ainda que a exposição seja em Milão, a Itália nunca foi receptiva ao desconstrutivismo de Gehry, rejeitando projetos para Modena, Roma e Veneza. O arquiteto gosta de terrenos estéreis, onde há necessidade de novos estímulos visuais. É por isso que ele nunca projetou nada em Londres, uma cidade que já tem prédios radicais, como os de Norman Foster? – Norman Foster é radical? Acho que não.

O que significa ser radical? Alguns têm habilidade de experimentar, outros não. E a maior parte do mundo não quer experimentação.

PROJETO EM NOVA YORK É CANCELADO APÓS SEIS ANOS – Nova York, onde Gehry morou por tantos anos, é outra cidade onde se esperaria ver mais de seu estilo. Sua Torre Beekman, um arranhacéu residencial de 76 andares, será inaugurada em 2010 em Manhattan. Mas sua marca na cidade seria o ambicioso complexo Atlantic Yards, no Brooklyn. Este mês, para cortar custos, o proprietário, Bruce Ratner, demitiu Gehry, jogando fora seis anos de trabalho.

Gehry diz apenas que “interesses opostos impediram o projeto”. Ele também é reticente sobre uma perda mais dolorosa, a morte por câncer de sua filha de 54 anos, Leslie Gehry Brenner. E ainda sobre os rumores de que se aposentrá em breve, aos quais responde dizendo que a empresa “está nas mãos de jovens inteligentes que criarão maravilhosos edifícios”.

Mas provavelmente ainda não vimos o Gehry final. Uma olhada pela exposição em Milão revela projetos ainda não realizados, como o Atlantis Sentosa Resort, em Cingapura. E pode haver ainda mais para surpreender, encantar e chocar. Há inclusive a chance de que os projetos já terminados se mantenham aqui, sem vazamentos, por um longo tempo.

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