13/07/2009

Humor negro vira arte

Fonte: O Estado de São Paulo

Vincent Darré trocou a moda por um espaço em que o mórbido é transformado em móveis e objetos

Ele brinca com o mórbido, o macabro e flerta com o humor negro. O que prevalece, no entanto, são a elegância, a sedução, a leveza, a inocência e a diversão. Visitar o universo criativo de Vincent Darré, um egresso do mundo fashion, no número 32 da Rue du Mont Thabor, em Paris, é como entrar num gabinete de curiosidades, uma mistura entre galeria e butique, um verdadeiro templo de ideias, fantasias e obsessões transformadas em móveis e objetos de decoração.

Uma aventura iniciada em 2008, quando, depois de ter trabalhado com Yves Saint Laurent, Fendi, Prada, Moschino, de ter sido por oito anos assistente de Karl Lagerfeld e de ocupar o cargo de diretor de criação da Maison Ungaro até 2007, resolveu abrir a sua Maison Darré, deixando para trás o mundo do vestuário. Confessa que a criação de um espaço que ao mesmo tempo lembrasse o gabinete do Dr.Caligari e uma capela funerária napolitana, onde pudesse misturar não somente móveis e objetos, mas também os amigos com suas próprias criações, era um sonho antigo de 20 anos.

No empresário Xavier Barroux encontrou o investidor ideal e um sócio entusiasmado. E foi assim que, num espaço relativamente pequeno e comprido, mas que não dispensa um arco que transforma o fundo da loja num altar, surgiu a maior novidade em matéria de linguagem decorativa no cenário do décor parisiense depois do advento dos designers barbare dos anos 80. Um look que traz em seu bojo a malícia do dadaísmo e a fantasmagoria do surrealismo da primeira metade do século 20, mas que é também uma proposta de luxo como sinônimo de raridade, perfeccionismo e excelência artesanal.

É para poucos e bons, em edições limitadas, e para quem não tem medo de brincar com a loucura, de aboletar-se numa poltrona Dorsal, de sentar-se na cadeira Vertebrada, no banco X-OS de pernas vermelhas, de pisar nos tapetes Radiografia ou Espinha de Peixe, de olhar-se num espelho com moldura quadril de vaca, comer à mesa Quatro Tíbias, trabalhar na escrivaninha Das Vaidades, usar serviços de prata Ossobuco, ter em casa um biombo Visita Médica com a radiografia de girafas, sapos e avestruzes, deitar no divã Psi chic, acender as luminárias Auricular ou Tête de Mort, servir um drinque na bandeja Scanner ou ter na parede um papel chamado Metamorph?Os ou Perspect?Os, com desenhos de insetos, esqueletos e plantas como que tiradas, por exemplo, de um manual de anatomia.

Pois diante desse zoológico estranho – com ares cenográficos, já que a criatividade de Vincent ultrapassa os limites do puro design de móveis e objetos, com projetores de sala de cirurgia, spots de garagista, dentista ou clubes noturnos dos anos 70, e que virou reportagem em inúmeras publicações e revistas de decoração Ideat e Casa Vogue -, as reações são sempre duplas. Segundo Barroux, que não teve medo de investir na empreitada, as pessoas se impressionam e se divertem com as criações de Darré. “Nossos clientes são mais do mundo artístico”, justifica.

O famoso sapateiro Christian Louboutin já é dono de um biombo Visita Médica; a cantora e atriz Arielle Dombasle, de uma mesa Patas de Cegonha; e a consultora de moda, atriz e madrinha do casal Sarkosy, Farida Khelfa, de um tapete Espinha de Peixe. Darré explica que o material usado nos móveis e objetos pode ser o alumínio fundido, a madeira pintada de branco ou colorida com 11 camadas de laca que pedem 50 dias de secagem. E conta que tudo é fabricado na França, Itália e no Vietnã. Fora a presença de muito preto com branco e muito branco com preto, as cores são as da moda, vivas e brilhantes, como azulão, vermelho e amarelo.

PEQUENAS TIRAGENS – Xavier Barroux, mais informal que o sócio Vincent, sempre vestido em ternos de tweed impecavelmente construídos, chama a atenção para as placas pintadas que podem, por exemplo, mudar completamente a cara de uma porta de armário ou de passagem. Conta que as tiragens dos móveis e objetos são em geral de 10, 12, no máximo 50 unidades e que a ideia é que no espaço da loja estejam também à venda objetos de outros artistas, desde que no mesmo espírito. “Não somos egocêntricos. Queremos que o espaço viva, vibre e esteja sempre em movimento; que funcione como um laboratório de conceitos, um ponto de encontro de obsessões pessoais, tal qual um gabinete de leitura do século 19 onde se intercambiavam ideias.”

A de Vincent Darré, que, como diz Barroux, é o rei do marché aux puces, onde está sempre à cata do raro e do original, é que, atrás das portas desse seu pequeno mundo surrealista, uma outra maneira de pensar a arte esteja sendo reinventada, entre amigos e clientes, nesta aurora do século 21, todos vivendo a sensação de um encontro com seus próprios sonhos e fantasias. (www.mariaignezbarbosa.com).

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