05/05/2009

Inspirado no Lego, engenheiro inova na construção civil

Fonte: O Estado de S. Paulo

Tijolos de diferentes tamanhos que se encaixam perfeitamente, capazes de levantar paredes em velocidade superior à de outros métodos viram realidade na construção civil

Há quase 20 anos, o engenheiro civil Valério Dornelles saiu de São Borja, cidade no extremo sul do Rio Grande do Sul, rumo a São Paulo. Então recém-formado, o jovem queria estudar e fazer contatos na cidade grande. A trajetória, comum a muitos alunos de engenharia aplicados, tomou novos rumos quando ele passou a se interessar por novos materiais e tecnologias de construção, nos primeiros meses de mestrado na Escola Politécnica da USP.

O interesse do jovem pela “racionalização” na construção civil – tema raro entre os empresários do ramo na época – trouxe resultados. Alguns anos depois, foi contratado pela Tecnisa, uma das maiores do segmento imobiliário. Ali, foi responsável por criar e gerenciar o primeiro departamento tecnológico de uma empresa de construção. “A Tecnisa foi meu laboratório”, conta Dornelles, hoje com 43 anos.

A fórmula (de sucesso) de seu empreendimento, porém, só foi encontrada em 1999, quando já havia deixado a construtora e aberto uma consultoria especializada no setor.

Ao voltar para casa após um dia de trabalho, viu seu filho, então com sete anos, brincando com blocos Lego. A cena o inspirou a criar um novo produto: tijolos de diferentes tamanhos que se encaixavam perfeitamente, capazes de levantar paredes em velocidade superior à de outros métodos. Mercado existia, pensou. “Sabia que essa etapa da construção era negligenciada na indústria.”

Após dezenas de testes, em parceria com uma indústria de cerâmica, nascia a Tecnologys. O produto da empresa: um sistema industrializado de construção de paredes quase duas vezes mais rápido que o método tradicional. “A ideia era vender toda uma etapa da construção, em vez de um simples projeto, os tijolos e a execução”, explica.

Hoje, a invenção do gaúcho espalhou-se por 2,5 milhões de metros quadrados em todo o País, em mais de 150 edifícios de empresas como Cyrela, EZTEC e Tecnisa. O faturamento, de R$ 700 mil em 2001, chegou a R$ 15 milhões cinco anos depois. No ano passado, o sistema desenvolvido por ele, hoje patenteado, foi incluído entre as 101 maiores inovações brasileiras, selecionadas pela consultoria Monitor Group. Este ano, a empresa deve faturar 30% mais que em 2008, quando chegou a vender R$ 12 milhões.

CRISE VOLUNTÁRIA – A breve história do funcionário que virou fornecedor enfrentou alguns altos e baixos. Em 2003, quando a empresa já deslanchava, Dornelles decidiu começar a prestar serviços comuns da construção, como revestimento de paredes e pisos, a pedido de grandes incorporadoras, suas clientes. A medida engordou o faturamento da companhia em pouco tempo, mas também trouxe problemas.

Segundo Dornelles, sua estrutura inchou e a margem de lucro caiu. “O crescimento não era sustentável. Além disso, comecei a ir muito para o dia a dia da empresa e deixei de lado o foco na estratégia. Parei de criar”, conta.

Diante disso e dos conselhos de um grupo de empresários do Instituto Endeavor, de apoio a empreendedores, em outubro de 2006, Dornelles decidiu mexer no time que, aparentemente, estava dando certo. Demitiu 400 pessoas, reduziu a estrutura administrativa, enxugou despesas e voltou a pensar no futuro da empresa. “Era preciso coragem para mexer num negócio que chegou a faturar R$ 15 milhões por ano.”

Depois da crise voluntária vivida por dois anos, o empresário acredita que o crescimento, agora, tem sabor diferente. “Tenho uma empresa mais ágil, enxuta e com margem de lucro maior. Estou seguro que o sufoco dos dois últimos anos valeu a pena”, afirma. “Além disso, com a nova estrutura, estamos mais preparados para enfrentar qualquer tipo de crise.”

Para Alexandre Thomé, do Endeavor, que acompanhou a virada de Dornelles, a mudança foi determinante para o sucesso da Tecnologys. “Muitas empresas crescem menos do que poderiam por causa da ansiedade do empreendedor em criar coisas novas e buscar novos mercados”, diz. “Mas o Valério entendeu rápido a mensagem.”

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