21/07/2009

Integrada ao cenário

Fonte: O Estado de S. Paulo

Com vidro e madeira, a arquiteta Candida Tabet projeta casa contemporânea com pegada caiçara em Itacaré

De frente para o coqueiral e o mar, a casa tem grandes panos de vidro, que deixam passar luz (Foto: Cristiana Mascaro/AE)
De frente para o coqueiral e o mar, a casa tem grandes panos de vidro, que deixam passar luz (Foto: Cristiana Mascaro/AE)

Candida Tabet é daquelas arquitetas que não se restringem a desenhar uma planta que atenda a todas as necessidades dos seus clientes. Ela sempre vai além, procurando os desafios que um novo projeto pode lhe trazer. Quando foi escolhida para projetar uma casa de veraneio em Itacaré, sul da Bahia, ela pensou em alternativas que surpreendessem o casal com três filhos, para quem já tinha trabalhado em São Paulo.

A construção de 490 m² seria erguida num terreno de 3.000 m², a 60 metros da praia e de frente para um coqueiral. Com esse cenário a favor, Candida se inspirou nas moradas caiçaras e criou uma casa com sutis referências desse estilo, mescladas aos conceitos da arquitetura contemporânea. Para sintetizar essas referências, elegeu dois elementos fundamentais: madeira e vidro. Pilares de aroeira roliça e vigas de garapa criaram a estrutura quase toda envidraçada, que abriga sala e cozinha integradas, sala de TV, quatro suítes – e só.

Se o número de cômodos não é exagerado, o desenho da casa também valoriza os espaços sociais. Trata-se de um grande retângulo que concentra, bem no meio, a sala com pé-direito de 9 metros (na maior altura da cumeeira do teto). Nas laterais, abriga a cozinha de um lado e do outro, o quarto de hóspedes e a sala de TV. Sobre esses ambientes ficam as suítes dos proprietários, acessadas por passarelas suspensas ao redor do vão livre.

SEM LAJE NEM CONTRAPISO – “A proposta era construir espaços para a família e os amigos ficarem juntos a maior parte do tempo”, explica ela. Daí veio a ideia de criar uma ampla ala social com portas de vidro que se abrem para o deck, de onde se vê, em perspectiva, a piscina revestida com pastilhas de vidro (da Vidrotil, a partir de R$ 295 o m²), o coqueiral e o mar. Essa estrutura fica sobre os pilotis que sustentam a casa – escolhidos para manter o terreno o mais permeável possível. Por conta disso, a obra é “seca”; não tem laje nem contrapiso. “O piso é direto na madeira”, diz Candida, explicando que a matéria-prima recebeu manta acústica no andar de cima para o som dos passos não reverberar no térreo.

As réguas que revestem o interior da casa passam pelas portas de vidro e avançam pelo deck, criando praticamente um piso único e dando a sensação de que o living é ainda maior. O mesmo princípio foi usado no pavimento superior. Quando as portas estão abertas, as suítes (as únicas parte da casa, além do lavabo e da sala de TV, que têm paredes de alvenaria) parecem fazer parte da varanda externa que circunda esse andar da casa. “É um camarote para apreciar a natureza e o pôr do sol. Tanto que projetei o guarda-corpo largo para ele funcionar como banco.” E o camarote está sempre protegido do sol e da chuva pelo pergolado de lascas de aroeira de diversas larguras e tamanhos, cobertas com vidro laminado.

A integração se repete nos quartos, que têm bancadas de pia e chuveiro junto do espaço de dormir. Na suíte do casal, a banheira de hidromassagem foi colocada atrás da cama, num nível acima do piso. “Queria criar um cenário diferente do que os proprietários estão acostumados no dia-a-dia”, diz ela. Em vez de box, uma proposta com uma pegada antiga: o chuveiro fica acima de uma tina de alumínio onde as pessoas entram para tomar banho (projeto de Candida, batizado de ?bacia das almas?).

A proposta do diferente se revela em outros detalhes. Na cozinha, por exemplo, em vez de móveis projetados, Candida escolheu armários de ferro de escritório. “São da Securit e têm tratamento especial para cidades litorâneas; não enferrujam”, explica. Na sala, decorada apenas com dois sofás e mesa de centro, a arquiteta revestiu a parede de alvenaria que apoia os degraus da escada com espelho, para criar um trompe d?oeil com os próprios reflexos do verde da área externa. Espelho também reveste a mesa de centro do estar (da Movelaria Tabet, preço sob encomenda), espalhando para o ambiente a luz das velas do lustre desenhado por Candida. Como os lustres medievais, a peça é elevada até perto do forro por meio de cabos que passam por roldanas aparentes.

“Gosto de ver como as coisas funcionam, então deixei tudo à mostra”, diz a arquiteta, referindo-se também às roldanas que movimentam as portas de correr com puxadores de couro em vez de maçanetas. A casa, vale dizer, não tem caixilhos nas portas e janelas para aumentar essa sensação de que ali usou-se o mínimo de elementos que pudessem interferir com a construção, cuja proposta é se mimetizar ao máximo com a paisagem.

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