03/12/2008

Japão de fino traço

Fonte: O Estado de S. Paulo

Exposição em Paris exalta a singularidade do design japonês, que busca a beleza na simplicidade

SÃO PAULO – Wa é o nome que se dá, no Japão, a um conceito tradicional de harmonia que consiste em conciliar noções antagônicas em relação a valores, indivíduos ou pontos de vista, no sentido de se alcançar uma síntese em plano mais elevado. Esse espírito de harmonia, que tende a uma unificação, constitui o fundamento do dinamismo que o design japonês contemporâneo vem imprimindo à confecção de seus produtos.

Uma bela e recém-inaugurada exposição em Paris, na Casa de Cultura do Japão, aberta até 31 de janeiro, Wa: A Harmonia no Cotidiano, se propõe não apenas a mostrar esse aspecto, como também a apresentar o que veio a desencadear essa nova atitude. São 160 peças cuidadosamente selecionadas entre os diferentes domínios de produtos-design. Estão divididos em 12 categorias, que correspondem a diferentes tipos de utilização: mesa, banho, eletrodomésticos e pequenos eletrônicos, tecnologia numérica, veículos, objetos para a casa, brinquedos, papelaria, embalagens, móveis, iluminação, indumentária e acessórios. E tudo sob a égide de seis conceitos ilustrativos, ou palavras-chave – o kawai (miniatura), o kurafuto ou craft (influência do artesanato), o kime (veios na madeira ou superfícies e acabamento perfeito), o tezawari (sensações táteis), o minimaru (beleza das formas despojadas) e o kokorokubari (previsão) – tão inerentes ao modo de fazer e viver japonês.

O design no Japão, dominado pela cultura e pela economia dos Estados Unidos desde a 2ª Guerra, parecia estar perdendo muito de suas características, tendência agravada pela padronização das estruturas industriais. Foi uma situação que perdurou de forma avassaladora até 1975, data do final da guerra do Vietnã. No entanto, apesar de as influências serem inevitáveis num mundo globalizado, a aparência de um objeto made in Japan guarda sempre algo de eminentemente japonês.

A precisão e o cuidado com o acabamento, assim como a extrema atenção aos detalhes de funcionamento e de forma, por exemplo, são vestígios das práticas que caracterizam a arte decorativa do Japão de antigamente. E são traços que podemos perceber, não apenas na taça e na chaleira de porcelana do designer Sori Yanagi, como também na Lexus, da Toyota, nos instrumentos de música, como a guitarra silenciosa da Yamaha, ou nas câmeras numéricas da Panasonic.

O passado parece muito bem-vindo no presente e destinado, numa apropriação contemporânea dos princípios dessa cultura milenar, a se introduzir no futuro. Novas tecnologias permitem que processos tradicionais de fabricação adquiriram um novo valor. Na moda, Issey Miyake foi um precursor com sua A piece of cloth. Por meio de computador, conseguiu fazer, a partir de um só fio, tubos de tecido extensível que, depois, cada pessoa vai poder cortar como quiser, uma vez que as bordas não desfiam. Hoje, um novo conceito, o A-POC, permite que se programe e se insira, antes da fabricação do tecido, detalhes como casas para botões, motivos, furos, ou o que faça parte do modelo. O produto surge pronto, evitando o desperdício de tempo e de tecido, tão recorrentes nas confecções e nos trabalhos manuais.

Em meio ao design da laca, das taças de chá em cerâmica ou chaleiras de ferro, objetos que, em princípio, nada teriam de excepcional, existe a típica tradição japonesa da cópia, que eles chamam de utsushi. Se os desenhos concebidos dentro desse espírito são, de um modo geral, destituídos de criatividade, o que se tem visto é – na medida em que a produção de cópias aumenta – acentuar-se o refinamento e a elegância.

A BELEZA DO UTILITÁRIO – No Japão moderno, um dos primeiros a prestar atenção a esse modo de fabricação – e assim poder apreciar o justo valor da beleza que esse repetir ou copiar trazia consigo – foi Muneyoshi (Soetsu) Yanagi (1889-1961). Segundo ele, encontram-se justamente nos mingei, os objetos do artesanato usados no cotidiano pela gente do povo, a expressão do refinamento e da “beleza do utilitário”, transmitida nessa incessante e repetida fabricação das “cópias”. Graças a essa visão tão sensível sobre a forma do objeto, Yanagi acabou por descobrir o sabor e a pureza do “design anônimo”.

Traços de tal especificidade são encontrados nas obras de uma primeira geração de designers que, depois do fim da 2ª Guerra, tentou aprimorar o design moderno japonês. São eles, entre outros, Isamu Kenmochi, designer de móveis; Masahiro Mori, Sori Yanagi, designers industriais, e Ricky Watanabe, outro designer de móveis. Sori Yanagi, filho do velho Muneyoshi, acompanhou Charlotte Perriand em sua excursão aos principais centros de produção mingei. Em seu livro, Notas de um Designer, Yanagi, que morreu jovem, aos 43 anos, insiste como é necessário, para a produção do designer, conhecer profundamente os materiais e as técnicas utilizadas, assim como ser capaz de verificar, no toque, a exatidão das formas obtidas sem tanto se preocupar com os planos pré-traçados.

O objetivo que fixou para si mesmo – e que alcançou – foi a criação de um design anônimo graças ao toque da mão do homem. Não teria chegado a essa conclusão, certamente, se não carregasse consigo a lição do pai, a de incessantemente observar os objetos que se perpetuam na repetição e por meio do artesanato popular japonês dos mingei.

Não é à toa que o Japão continua a nos dar aulas de excelência, e ser prova de que, se quisermos encontrar a beleza, teremos de buscá-la na simplicidade.

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