01/09/2009

Ladrilho hidráulico é uma forma exclusiva de revestir

Fonte: O Estado de S. Paulo
(Foto: Agência Estado)
O desgaste que o ladrilho adquire com a idade é o seu maior charme (Foto: Agência Estado)

Há quem goste por razões estéticas, pelas suas sutilezas ou, em alguns casos, por seu apelo emocional. “Fã de carteirinha” do ladrilho hidráulico, como costuma dizer, a arquiteta paulista Cinthia Liberatori adora as nuances que esse tipo de revestimento tão antigo e tão respeitado vai ganhando com o tempo. “As imperfeições, típicas dos manufaturados, e o desgaste que adquire com a idade, são seus maiores charmes”, afirma. “Quem quer perfeição que parta para o porcelanato.”

Belo, versátil nas cores e nos desenhos, o ladrilho hidráulico – que, como diz o nome, necessita de água na sua elaboração artesal – tem origem bizantina, difundiu-se na Europa com o surgimento do cimento Portland, em 1824 – quando passou a ser usado para decorar palácios e mansões da nobreza –, e chegou ao Brasil na época da imigração italiana nos anos 20. Passadas décadas, aparece em pisos ou paredes (às vezes nos dois) de edifícios históricos, igrejas e casas. E arregimenta um grupo entusiasta de defensores. Como o engenheiro paulista Antonio Gerassi, cuja residência, no Alto de Pinheiros, é um marco da arquitetura contemporânea de São Paulo e mereceu um livro escrito por Paulo Mendes da Rocha, que a projetou em 1989 com peças pré-fabricadas de concreto.

Ladrilhos hidráulicos revestem cozinha, salas, quartos e até áreas de piscina. “O Paulo nos levou à Ladrilar e sugeriu o padrão Estrela, nas cores cinza e bege, para todos os pisos. Aprovamos no ato, pois a proposta tinha tudo a ver com o partido arquitetônico do imóvel”, lembra Gerassi. Segundo Marcello Ruocco, sócio da fábrica Ladrilar, o padrão Estrela acabou ganhando o nome “Paulo Mendes da Rocha”, já que foi escolhido pelo arquiteto em outros projetos.

Gerassi admite, no entanto, que por três anos foi complicado acertar a manutenção do revestimento. “Usamos impermeabilizantes errados e depois tivemos problemas com a cera, o que manchou algumas peças, que tiveram de ser trocadas. A partir daí, decidimos deixar o ladrilho ao natural, mantendo-o limpo apenas com detergente neutro. Desde então, o piso é nosso xodó, até os tapetes dispensamos”, afirma o engenheiro.

A escolha também tem a ver com emoção, saudosismo, identificação pessoal. “Sou louco por ladrilhos hidráulicos. Eles nos remetem a um passado rico. Quem não fica fascinado quando olha para o belíssimo piso da Confeitaria Colombo, aqui no Rio?”, diz o arquiteto carioca Chicô Gouvêa. Ele não pensou duas vezes em usar o revestimento na reforma que fez em uma fazenda construída no início do século 20, no município de Mathias Barbosa, em Minas. “Escolhi ladrilhos de diferentes desenhos e espalhei pela casa, inclusive no frontão dos degraus da escada de acesso. O visual, como já esperava, ficou perfeito.” 

DÚVIDA E SURPRESA – A administradora Nilly Chalon, de São Paulo, também se rendeu à beleza desse produto. “Não sabia direito o que era ladrilho hidráulico. Por isso, quando o arquiteto José Ricardo Basiches trouxe uma amostra como sugestão para as paredes do lavabo fiquei em dúvida quanto ao resultado. No fim, foi uma surpresa. Sua aparência artesanal criou um contraste ótimo com os elementos contemporâneos do meu apartamento”, comemora.  

É a aparência “velhinha” que tem cativado os sócios Renato Ades e Benny Novak a mantê-lo em seu Ici Bistrô, em São Paulo. “Estamos na terceira reforma do restaurante, mas o piso não muda. A padronagem das peças que escolhemos tem referências francesas e nenhum outro produto conseguiria um resultado tão atraente”, elogia Renato.  

Para o designer de interiores Fábio Galeazzo, o revestimento lembra a infância no interior paulista. “Era o piso da casa de meus avós. O bacana é que hoje é possível reproduzir os mesmos desenhos, mas com cores muito mais modernas. Outra vantagem é que, na decoração atual, o ladrilho hidráulico é bem-vindo em todos os ambientes. Claro que tudo depende de uma boa mão de obra na hora da colocação”, diz. Em um de seus trabalhos, Galeazzo fez um mix de peças com diferentes desenhos na Livraria Sobrado, em Moema. 

Rodrigo Amaral, arquiteto com escritório na Serra da Cantareira, não hesitou em fazer um “tapete” de ladrilhos para a cozinha e revestir a parede atrás do fogão de uma casa que projetou na região. “A proprietária queria uma coisa aconchegante e adorou a ideia”.

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