21/08/2008

Listras entre o bem e o mal

Fonte: O Estado de S. Paulo

Ao longo da história, o pano listrado colecionou uma miríade de significados. No décor, é difícil ignorá-lo

SÃO PAULO – Não faz tanto tempo, em Paris, no bicentenário da Revolução Francesa, em 1989, abusou-se das listras em todos os eventos comemorativos. Em azul, branco e vermelho, era como se brandissem que sem elas não existiria clima revolucionário.

O pano listrado, no entanto, tem história bem pretérita a de qualquer revolução. Já serviu, ao identificar loucos e doentes contagiosos, para bani-los do convívio com o comum dos mortais. Assim foi na Idade Média, quando as listras eram malvistas e destinadas aos perturbadores da ordem. Vestiam do judeu e do herético ao bufão ou saltimbanco, passando não só pelo leproso, o carrasco ou a prostituta, mas também pelo cavaleiro traidor dos romances da Távola Redonda, pelo insensato do Livro dos Salmos e pelo personagem de Judas. Numa cultura onde o visível era primordial, e sendo a roupa o suporte mais visível, lia-se nas barras contrastantes das listras um sentido diabólico.

Já no Renascimento as listras passaram a ser vistas sob nova ótica, apesar de ainda vigentes os usos e códigos precedentes. Vieram as “boas” listras, sinalizando festa, exotismo e liberdade, o que, no entanto, não impediria os nazistas, no século 20, de as usarem como uniforme dos deportados nos campos de concentração.

As listras passaram também a indicar perigo na sinalização de estradas, a sugerir higiene na estampa em roupa de cama e a serem emblemáticas ao decorar uniformes, insígnias e bandeiras. Enquanto as listras medievais eram simbólicas da desordem e da transgressão, as modernas foram usadas para organizar visualmente o mundo infantil e do esporte. Se na Idade Média a Fortuna, aquela que assustava ao fazer girar o destino dos homens, vestia listras, hoje elas inspiram artistas, decoradores, fotógrafos e cineastas.

Fato é que, ao contrário do tranqüilo pano liso, o listrado já muito perturbou. Na França, quando São Luís regressou a Paris em 1254, depois de um longo cativeiro de quatro anos, resultado de uma Cruzada malsucedida e trazendo consigo vários irmãos da ordem de Nossa Senhora do Monte Carmelo, foi um Deus nos acuda. Os carmelitas, que desde o início, na Palestina, para se distinguir de outras ordens mendicantes, vestiam um manto listrado, viriam, sem querer, a causar uma polêmica que durou várias décadas. Foram ridicularizados e apelidados de frades “barrados”, o que, em francês, significa também bastardos. Tanto barulho que o papa Bonifácio 8º se viu obrigado a promulgar uma bula, em 1287, confirmando a proibição a qualquer ordem religiosa de vestir o hábito listrado.

Esse caminho “transgressor” e cheio de percalços das listras está bem documentado não só na literatura latina da época, mas também nos textos em língua vulgar, como as canções de gesta e os romances cortesãos dos séculos 12 e 13. Cavaleiros, traidores, usurpadores, anões, mulheres adúlteras, filhos rebeldes, todos eram instados a ostentar listras heráldicas ou têxteis em suas túnicas, armas, bandeiras, gualdrapa dos cavalos ou capacetes.

Assim como a cabeleira ruiva, as vestes listradas são um traço comum do traidor das escrituras. Na Bíblia elas enfatizam o caráter pérfido de Caim, Dalila, Judas, Saul e Salomé. As listras, porque transgressivas também da ordem cromática, parecem ter bem servido a essa simbologia.

Revestimento de paredes

Na decoração ou na moda elas em geral não vêm sozinhas. Para que funcionem e assumam toda a força e o efeito, são associadas ou opostas a outras estruturas de superfície como o liso, o estampado, o xadrez ou o malhado. A visão do homem medieval parecia exigir materialidade e superfícies claras. O contraste do branco com a cor escura serve bem a esse propósito. A pautação da listra ou do xadrez, por sua vez uma forma superlativa do listrado, facilitava localizar lugares e objetos, estabelecer seqüência, classificar e hierarquizar – em paredes, chão, tecidos, utensílios, no pêlo de animais, não importa. Vale lembrar as pinturas de Vermeer e de outros pintores holandeses do mesmo período, onde um chão preto e branco tão bem define o espaço da cena retratada.

Entre o início do século 14 e meados do 16, as linhas geométricas abundam também na vestimenta dos pajens, escravos ou criadas. As listras ganham, sobretudo em Veneza, dimensão exótica, pois vestiam os escravos africanos, servindo nos palácios. As listras ligaram-se assim à idéia de exotismo oriental (na Idade Média acreditava-se que a África ficava no Oriente), ao paganismo e ao primitivo. Daí elas terem sido usadas depois, na pintura e na literatura, para representar os índios americanos e os da Oceania.

Com a modernidade, embora as listras continuassem a vestir empregados domésticos, passaram a ser usadas com mais liberdade como em sentido vertical, misturadas a estampas e sem regra de eqüidistância. Na Europa do século 18, as listras aristocráticas e as camponesas, as festivas e as comuns, as exóticas e as domésticas coexistiram em santa paz. E a zebra, tida pelos zoólogos do século 16 e começo do 17 como asno selvagem, criatura perigosa, imperfeita e impura, passou a ser cantada pelo naturalista Buffon como o mais harmonioso dos quadrúpedes.

Chegava-se ao período das luzes quando as listras viraram moda e ganharam status ideológico. A revolução americana produz a bandeira com 13 listras vermelhas e brancas, que representam as colônias sublevadas contra a Inglaterra. Passa a representar a liberdade e as novas idéias. Difunde-se na Europa. Pega em cheio a decoração de interiores e estofados, que rompe com as guirlandas e as estampas com motivos pequenos e de chinoiserie. Uma onda neoclássica atrai as listras e, na França, no final do período Luís 16 e durante o Diretório, são muito usadas em cortinas e estofados. No Império e para além dele, mesmo destituídas de conteúdo político, seguiram em moda. O olhar do decorador descobre que, ao revestir paredes, podem fazer um cômodo parecer mais alto. Associam-se ao romantismo. Era chique e refinado erguer em casa tendas listradas à egípcia, ali fazer as refeições, dormir e receber amigos. Tendas de praia, guarda-sóis, toalhas esportivas, maiôs e calções de banho tinham de ser listrados. Era a moda entre 1900 e 1920.

Hoje servem a um bom cenário. O decorador português Pedro Espírito Santo, por exemplo, não se cansa de usá-las. Marcou época misturando-as às famosas chitas estampadas de Alcobaça, em colchas e edredons, pintando paredes, móveis, assentos de palhinha e alegrando as antigas casas européias. Na Inglaterra virou sofisticado usar os tickings, aqueles panos listrados de algodão conhecidos como forro de colchão ou uniforme de mordomo, em cortinas e estofados num pari passu com sedas e móveis de época. Indo ou vindo, as listras seguem firmes e se reinventando. Daí que dispensá-las, pelo visto, jamais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.