30/10/2006

Lojistas viram aliados na luta para resgatar história

Fonte: O Estado de S. Paulo

Prédios de valor arquitetônico da Penha ganham vida nova com reforma ou simplesmente mudanças na fachada

Saem os painéis e os letreiros que escondem as belas fachadas. Entram restauradores, especializados em dar vida nova a construções de valor histórico. A Penha começa a resgatar suas origens, após décadas sem se preocupar com seu maior patrimônio.

“O bairro não tem praia, nem Cristo Redentor, o marco daqui é de um centro comercial nos moldes interioranos”, diz a arquiteta Roseli Mourão Baratella, que desde o ano passado atua no Memorial Penha de França. “Podemos observar a praça central, a igreja e o comércio no entorno. Temos prédios históricos que devemos conservar.”

O memorial é um espaço comunitário que tem como objetivo principal a preservação do patrimônio histórico da Penha. Uma de suas ações é promover palestras, com a finalidade de conscientizar a comunidade e o comércio local sobre a importância de preservar a memória do bairro.

As mudanças já estão sendo percebidas na Avenida Penha de França. Algumas lojas recuperaram suas fachadas. Outras tiraram os letreiros que escondiam a arquitetura de edifícios representativos. A Igreja Nossa Senhora da Penha deu o exemplo. Ganhou nova pintura e mandou retirar as placas de avisos e a barraquinha que existia no local. “Foi após assistirem a uma das palestras que os responsáveis pela igreja resolveram limpar a fachada”, conta Roseli.

Também ganhou cara nova o prédio onde funciona um hotel na avenida. Com a saída do painel que descaracterizava a arquitetura original, agora é possível ver o nome do construtor e a data da construção: 1942. “Na época, era muito comum esse tipo identificação”, explica a arquiteta.

A próxima novidade será a reforma da Loja das Bagunças. “O piso da loja, com ladrilho hidráulico, provavelmente é original. A fachada não é. Aliás, está horrível”, diz a comerciante Teófila Mateus Moreno, conhecida como Teo, na região há 42 anos. “Está totalmente descaracterizada. Quero deixá-la com um estilo o mais próximo possível do original.”

Roseli, que é especializada em preservação e restauro do patrimônio histórico, já começou as pesquisas para resgatar imagens de como o prédio era antes. “Com alguma referência, podermos reconstituir a fachada com a linguagem existente”, garante a arquiteta.

Alvos

Há na região prédios centenários, que também estão na mira de Roseli. Um deles fica no número 105 da Avenida Penha de França. “É uma construção 1904. A fachada tem um medalhão com a data da construção, além de leõezinhos, a carinha de um anjo e corações.”

Mais recente, outro imóvel também chama a atenção da arquiteta. Trata-se de um prédio no número 110. “É um prédio da década de 40. A parte inferior é utilizada para o comércio e a superior, como residência, algo usual na época”, afirma Roseli. “Os lotes têm comprimento avantajado. Infelizmente, temos prédios na região totalmente descaracterizados.”

Não vai faltar trabalho para a arquiteta. De onde vem tanta dedicação? “Passeava com a minha por aqui quando tudo isso era um verdadeiro momento de lazer”, explica Roseli. “Ar interiorano, com lojas religiosas. A Penha era uma referência nesta área.”

Resgatar o marco da Penha na área religiosa é também o sonho da comerciante Teo. “Essa área era conhecida como a Colina Santa. Era um lugar turístico. Vinham ônibus de diversas localidades para cá. Pessoas faziam peregrinações Acredito que podemos resgatar a memória do bairro.”

O designer do memorial, Francisco Folco, diz que é gratificante perceber que a população da Penha está se conscientizando da necessidade de fazer o resgate urbano. “Grande parte do patrimônio do bairro foi destruído nos anos 60, como a mansão de Maria Carlota e o Palacete Rodovalho”, afirma Folco. “Mas ainda restam tesouros que precisam ser cuidados, até para atrair visitantes.”
 

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