06/04/2008

Lugar de mulher é no canteiro de obras

Fonte: O Globo

Organização e capricho das operárias ajudam a reduzir o desperdício

Marco Antônio TeixeiraZap o especialista em imóveisA pedreira Ana Cristina do Nascimento, de 37 anos, que está fazendo estágio supervisionado depois de curso oferecido pelo Senac: o interesse pela profissão surgiu quando ajudou a construir a sua própria casa

Quando for construir ou reformar sua casa, considere contratar mulheres para o trabalho de peoa de obra. Mais caprichosas nos acabamentos, cuidadosas na limpeza do local da obra e organizadas, conseguindo com isso bons resultados na redução de desperdícios de materiais, elas vêm ganhando espaço no mercado da construção civil. Perdem para os homens, sim, no quesito força física. Mas, com os avanços tecnológicos dessa indústria, tal qualidade vem perdendo importância.

Tanto que o governo federal determinou que haja uma participação mínima de 30% de mulheres na qualificação profissional para as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). No Rio, um grupo de ONGs e empresas já se uniu para qualificar 60 mulheres, de 18 a 45 anos, para a construção civil. É o projeto “Mão na massa”, que tem patrocínio de Petrobras e Eletrobrás. Elas são preparadas para atuar no mercado como pedreiras, pintoras, carpinteiras e encanadoras. A primeira turma, de 14 alunas, já está se formando. As participantes serão encaminhadas para centrais de intermediação de mão-de-obra do Ministério do Trabalho, com salário inicial médio de R$800.

Uma delas é Ana Cristina do Nascimento, de 37 anos, que está se formando como pedreira. Ela conta que se interessou pela profissão quando ajudou a construir sua própria casa:

— Contratei o pedreiro, mas não dava para pagar o auxiliar, então me ofereci para a função. Virei massa, assentei tijolos, cortei ferro. Quando soube do “Mão na massa”, vi a oportunidade de me profissionalizar. Agora, quero construir prédios. Subir em andaimes, para mim, vai ser moleza: eu já não ficava pendurada do lado de fora de janelas de apartamentos quando era faxineira?

Cooperativa para prestar serviço a pessoas físicas

Norma Sá, psicóloga do Abrigo Maria Imaculada — que, junto com a Federação das Instituições Beneficentes do Estado do Rio de Janeiro (FIB-RJ), organiza o “Mão na massa” — explica que o projeto foi criado justamente a partir de exemplos como o de Ana Cristina. Em pesquisa realizada com 216 mulheres de famílias atendidas pelo abrigo, metade das entrevistadas mostrou interesse em aprender técnicas básicas de construção civil, pois muitas delas já eram responsáveis pelas obras e reparos de suas residências. A idéia é formar uma cooperativa de trabalhadoras do setor, o que facilitaria, inclusive, a contratação das profissionais por pessoas físicas.

— Nas reformas de residências, em que normalmente há moradores no local da obra, a contratação de mulheres pode ser muito vantajosa, pois o cuidado com a limpeza tem que ser muito maior — diz Norma, lembrando que essas peoas estão entrando no mercado de trabalho com certificação, enquanto o que mais se vê hoje no setor de construção civil é a falta de qualificação. — Elas não só aprendem as técnicas, como têm aulas de matemática, português, informática, para que desenvolvam habilidades como ler plantas baixas e fazer orçamentos, por exemplo.

Já o diretor de Relações Trabalhistas da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Antônio Carlos Mendes Gomes, ressalta que, no Estado do Rio, a presença de mulheres em canteiros de obras aumenta a cada dia. Principalmente em níveis gerenciais, como o de segurança do trabalho, no qual a relação é de seis mulheres para cada homem, na maioria das empresas. Engenheiras e arquitetas também estão por todos os lados. No nível operacional, no entanto, ressalta Gomes, ainda há muito que avançar:

— Neste caso, percebemos certa resistência cultural, mascarada pela alegação, por parte dos empresários, de que teriam que oferecer instalações diferenciadas para homens e mulheres, encarecendo o custo da obra.

‘Aqui, no Rio, nós ainda enfrentamos preconceito’

Gabriel de Paiva Zap o especialista em imóveisElaine, técnica de edificações, no Riserva Uno

Os quatro primeiros meses de aula do “Mão na massa” são realizados no Senai. Depois desse período, as alunas podem ingressar no mercado profissional na função de meio-oficial — o que significa que elas têm a formação, mas não a experiência. Para dar ainda mais segurança às profissionais, entretanto, o projeto oferece dois meses de uma etapa prática supervisionada, que é realizada numa obra social do município.

A mestre-de-obras Laura Moraes, que há 22 anos trabalha no setor, é uma das supervisoras do projeto. Com formação de técnica em edificações pelo Cefet, Laura conta que é natural do Rio Grande do Sul, estado em que, ressalta, a presença de mulheres nos canteiros de obras não é mais tabu:

— Aqui, no Rio, nós ainda enfrentamos preconceito. Mas não há motivo: com a tecnologia, o trabalho já não é mais tão braçal. Além disso, no curso, praticamos ginástica laboral, ensinado as mulheres a pegar peso sem causar fadiga muscular.

Na hora da contratação  

Vantagens

Organização: Segundo construtores e engenheiros que contratam mulheres, as “peoas” mantêm o canteiro de obras e/ou a área da reforma mais organizada.

Economia: Entre as conseqüências da boa organização, registra-se redução de desperdício, ou seja, menos gastos.

Capricho: São mais detalhistas para fazer acabamentos e mais preocupadas em deixar a área de trabalho limpa.

Desvantagens

Força física: Mulheres têm mais dificuldades para carregar peso. Mas, com as novas tecnologias, o trabalho é cada vez menos braçal.
 

 

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