20/07/2007

Minoria, moradores sentem-se isolados

Fonte: Jornal da Tarde

Prédios esconderam a paisagem, cobriram o sol e acabaram com sossego de bairros tradicionais

Katia Tamanaha/AEZap o especialista em imóveisConcentração de prédios alterou paisagem e rotina de bairros tradicionais

Quando a paisagem de Perdizes recebeu suas primeiras penumbras com o início da verticalização do bairro, ainda no final da década de 80, o então engenheiro Fernando de Camargo Peres Velasco, 79 anos, questionava-se como os novos moradores poderiam viver enclausurados naqueles apartamentos. Quase duas décadas depois, o semblante do aposentado denúncia uma outra realidade. Hoje é ele e não os demais quem vive praticamente isolado na região.

Velasco é dono de um dos três sobrados residenciais remanescentes à Rua Monte Alegre, no bairro da Zona Oeste. Casas que resistiram, de um jeito ou de outro, a uma onda de investimentos em prédios e condomínios verticais que com o passar do tempo revolucionou a rotina e o perfil da região. Para os quatro lados que o aposentado olha, avista-se paredões de concreto. “Fiquei preso aqui. A chegada desses prédios mudou tudo. Antes conhecia todo mundo daqui e hoje não conheço mais ninguém”, lamenta.

Toda a extensão da via, suas travessas e paralelas são ladeadas por enormes edificações. Segundo consta da memória de Velasco, já faz 40 anos que não se constrói uma casa sequer ali nas redondezas. “Perdizes não é mais um bairro para se morar numa casa”, conta. Por mais intrigante que pareça, o número atual de casas é semelhante ao de 70 anos atrás, quando o aposentado estabeleceu-se no bairro. “Naquela época só tinha uma casa aqui”, recorda.

Morador da Vila Pompéia, o comerciante José Paulo Mantellotto não se lembra ao certo quantas sobrados existiam em frente ao seu há 25 anos, quando construiu seu imóvel na rua Apiacás, Zona Oeste, mas lamenta-se com pesar de uma bela vista que lhe foi furtada pela chegada dos prédios. “Daqui, quando não tinham esses prédios todos, dava para ver o pico do Jaraguá. Hoje não dá nem para imaginá-lo”, relata.

E as privações não param por aí. Além de menos ampla, a paisagem também ficou mais escura. “Tomaram nosso sol. Acho isso um abuso”, reclama Mantellotto. Um problema que o aposentado Velasco está começando a vivenciar. “Estão construindo um prédio nos fundos que está tirando o sol da minha casa”, conta.

Mas numa extensa lista das mudanças pelas quais os moradores ilhados assistem como meros espectadores, a falta de sol ainda é a menos inconveniente. Segundo eles, nada supera o caos urbano que a expansão de prédios nos bairros tem alavancado. “Imagina que nesses três lotes em frente existiam três casas onde tinham seis carros. Hoje, no mesmo espaço, deve ter uns 100”, diz o comerciante. Nos horários de pico, conta ele, o tráfego pela rua fica caótico. “Antigamente ia direto até o semáforo lá de baixo (cerca de três quarteirões). Agora pego trânsito em todas as travessas”, completa.

 

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