22/04/2010

Na comemoração de mais um aniversário do descobrimento do Brasil, arquitetos apontam características e mudanças do Rio colonial

Fonte: O Globo
Situado no centro do Rio Antigo, o Morro da Conceição é uma das áreas remanescentes da urbanização colonial do Rio de Janeiro (Foto: O Globo)
Situado no centro do Rio Antigo, o Morro da Conceição é uma das áreas remanescentes da urbanização colonial do Rio de Janeiro (Fotos: O Globo)

As casas eram simples e coladas umas às outras. Nem as famílias mais endinheiradas tinham direito a ostentar na arquitetura materiais nobres. Pelas ruas e ladeiras estreitas, de pedras assimétricas do tipo pé de moleque, transitavam escravos, pardos e figuras nobres d´além mar. Assim era a atmosfera do Rio colonial. Na comemoração de mais um aniversário do descobrimento do Brasil, no dia 22 de abril, especialistas em arquitetura e história apontam as características e as mudanças arquitetônicas e urbanísticas deste período.

“A arquitetura do Rio é uma transposição da arquitetura produzida em Portugal. Até porque era proibida a entrada de estrangeiros na colônia. Os engenheiros e arquitetos que vinham a serviço do rei traziam os padrões da arquitetura portuguesa”, diz o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti.

A cidade começou a nascer no século XVI sem muita exuberância. A paisagem era única protagonista, com destaque para o Pão de Açúcar que abrigou nas suas imediações o primeiro assentamento em terras cariocas. Mas foi o morro do Castelo que se apresentou mais propício para o povoamento. A cidade depois desceu para a várzea e se expandiu ao longo da Rua Direita, atual Primeiro de Março, subindo pelos morros adjacentes, como o São Bento, o Santo Antônio, do Castelo e da Conceição. E, pouco a pouco, um centro urbano começou a tomar forma com ruelas, largos, becos e ladeiras, como ressalta o também arquiteto e historiador Antônio Agenor Barbosa:

“Naquela época, as casas eram todas coladas umas às outras. Algumas ruas eram pavimentadas com pedras pé de moleque, um elemento típico da ambientação portuguesa. Uma característica que vale ser ressaltada é a horizontalidade dos empreendimentos, que tinham, no máximo, quatro pavimentos. Ao contrário de hoje, época de verticalidade dos imóveis.”

Quem passa pelas ruas estreitas da Rua do Ouvidor ou do Rosário, por exemplo, pode perceber que as residências não tinham nenhuma pompa, ao contrário do que acontece com as igrejas. A realeza chegou a vetar o uso do ouro na fechadura da porta ou nos detalhes das casas, assim como a prata. O máximo que eles podiam ostentar eram grandes janelas e portas.

A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída em 1708, foi quem deu nome a Rua do Rosário
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário, construída em 1708, foi quem deu nome a Rua do Rosário

“As pinturas das igrejas eram maravilhosas. Era tudo liberado. Já as casas civis guardavam uma generosa sobriedade. Mas podiam ostentar uma pequena ornamentação na entrada, típica da arquitetura neoclássica barroca. As portas eram grandes, e as janelas tinham acabamento superior reto ou em arco pleno (semicírculo). Esse gosto permaneceu até 1830”, relata Nireu.

As igrejas, com toda a sua opulência, tinham papel fundamental na fundação do entorno da cidade. Elas davam nomes às ruas e tornavam os seus arredores mais atrativos para a construção de moradias, fosse para abrigar padres ou alugar a membros da irmandade. Exemplo disso é a Igreja do Rosário, uma das mais importantes no período colonial e que abrigava negros e pardos.

“Depois da invasão francesa, em 1711, foi construída uma muralha para preservar a cidade que abraçou a Igreja do Rosário. Tudo que ficava de fora era subúrbio. Em 1737, a igreja dos negros foi transformada numa Catedral temporária e assim permaneceu por 75 anos. Foi a primeira igreja visitada pela Família Real depois de sua chegada. A rua se transformou numa das mais representativas, pois sediava desfiles da realeza. Os moradores, apesar de serem proibidos de ter em seus sobrados elementos de ostentação, passaram a ornamentar os peitoris com tecidos, tapetes. Tudo para chamar a atenção”, explica Nireu Cavalcante.

Com a transformação constante da arquitetura e da cidade, os detalhes do período colonial estão desaparecendo em meio aos carros e prédios modernosos. O que, para Antônio Agenor, tira da cidade o ar pitoresco e bucólico.

“A modernização da cidade tirou do Rio um pouco daquela ambiência urbana colonial. A arquitetura de alguns imóveis já sofreu algumas modificações também. Mas a convivência entre essas duas realidades é desarmônica. Os carros e prédios arranha céu brigam com a paisagem desses lugarejos bucólicos e pitorescos.”

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