14/11/2008

Nova York feita de vidro

Fonte: O Estado de S. Paulo

Fachadas transparentes definem cenário da metrópole e impõem cuidados especiais na decoração

São Paulo – Em Nova York, desde que os primeiros dois edifícios de Richard Meier começaram a tomar forma na West Side Highway, há sete anos, a cortina de vidro tornou-se, se não um clichê, um elemento definidor do cenário urbano desta década – assim como o tijolo vermelho e o limestone marcaram os anos 20. Até a Toll Brothers, megaconstrutora nos subúrbios da metrópole, correu para dar sua contribuição aos condomínios de vidro em bairros como East Village e Williamsburg. Se o resultado será transformar partes da cidade em uma cópia da nova Miami, ou algo mais bonito e especial, é algo para ser visto. Entretanto, com tantas torres de vidro subindo, já há algumas lições de decoração em evidência. Serão os interiores desses edifícios realmente bem arrumados?

Móveis-escultura
“Acho que se pode fazer o que quiser com esses espaços”, diz Miles Redd, designer maximalista que acaba de finalizar uma decoração no Urban Glass House, às margens do Rio Hudson. No apartamento há paredes de vidro preto fumê na sala de jantar, mesa Parson de material imitando chifre, luminária com base que parece uma metralhadora e bar revestido de veludo cinza-esverdeado. “Conheço gente vivendo no U.N. Plaza num ambiente eduardiano. É o oposto do vidro”, afirma.

Com o metro quadrado dessas torres envidraçadas chegando a US$ 21 mil, quem compra esses apartamentos parece ter bastante dinheiro para equipá-los. Michael Holtz se desfez de toda a mobília antes de se mudar para o imóvel de dois quartos no Upper West Side. Holtz, de 42 anos, dono de uma empresa de turismo de luxo, tornou-se um ávido comprador de imóveis envidraçados: ele possuía dois (um estúdio e outro apê de um quarto), que pensou em interligar até descobrir um maior na Rua Perry. Agora, todos os apartamentos de Holtz estão à venda. Ele gastou US$ 35 mil para decorar o imóvel de um quarto – com sofá verde, mesa de centro de tronco de árvore e conjunto de luminárias de papel-arroz de Noguchi. “Os móveis têm de ser bacanas. É como viver dentro do lado de fora. Não se pode deixar os lençóis da cama amarfanhados”, diz.

Num andar alto do Astor Place Tower, em forma de ameba, os designers Randy Ridless e Beth Martell usaram luminárias de chão gigantes e um lustre para “quebrar” a paisagem vista do living – em 180° – e dar-lhe uma moldura. “O desafio é que não havia lugar para quadros. Mas, de qualquer modo, o ?artista? é a vista”, diz Ridless. Ele resolveu expor os móveis como esculturas e pontos de descanso para os olhos, criando, ao mesmo tempo, refúgio e perspectiva em um único espaço – idéias que o arquiteto americano Frank Lloyd Wright (1867-1959) combateu quando criou casas de planos abertos. Enquanto os móveis, todos de veludo, lembram vagamente o estilo dos anos 40, há uma cadeira Mies van der Rohe de couro contra uma das paredes de vidro.

Jane Gorrell e James Lansill ofereceram a si próprios um apartamento de vidro no edifício Meier, na Rua Charles. A mobília moderna, de meados do século passado, era italiana. Havia um tapete peludo geométrico, azul e verde, e uma cadeira laranja na forma de onda; uma solitária cadeira Eames ficava de costas para a parede de vidro. E outras peças, criando um problema aparentemente insolúvel: fazer os móveis da vida de Jane e James pré-edifício Meier combinar com o novo ambiente. Mas Adam Rolston, arquiteto amigo, conseguiu encolher a mobília. “Agora podemos respirar outra vez”, diz Jane.

 

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