04/05/2008

‘O banheiro tem de ser prático’

Fonte: O Globo

Designer catalã de 84 anos produz acessórios de luxo para lavabos com pedras nativas

Marco Antônio TeixeiraZap o especialista em imóveisJuliana Aznar: “A experiência é a melhor universidade que existe”

Aos 84 anos, a designer, estilista e empresária Juana Oller Aznar é uma personalidade singular. Basta dizer que a catalã, nascida em Barcelona, começou a tocar um empreendimento, sozinha, nos anos 60, numa sociedade patriarcal como a espanhola. Formada em advocacia, montou em 1954 sua primeira empresa, a Joller Textil, e à frente dela ficou até 1966. Dois anos depois, criava a Joller, especializada em acessórios de luxo para banheiros e lavabos. Juana, que mora em São Paulo e esteve no Rio na semana passada, deu esta entrevista ao Morar Bem, em que conta histórias pessoais e profissionais. Espirituosa, entre um gole e outro de jerez, contou que uma das razões que a levou a empreender foi o fato de ter descoberto, pouco tempo depois de casada, que seu marido era apenas um “hombre de postal”, isto é, bonito, mas que não lhe garantiria o padrão de vida que tivera na casa dos pais.

Aliás, tudo em sua vida tem contornos de mulher decidida. Juana não revolucionou só na seara do comportamento: ela é considerada a papisa dos banheiros e lavabos na Espanha. Peças assinadas por ela figuram no famoso Via Veneto, em Barcelona, um dos restaurantes mais caros da Europa.

Divulgação Zap o especialista em imóveisTorneira em formato de peixe, folhada a ouro e adornadas por pedras brasileiras

A atuação da catalã no design de banheiros e lavabos começou meio que por acaso, quando ela adquiriu a representação de uma firma de azulejos e revolucionou a forma de vender as peças. A estratégia rendeu-lhe os primeiros milhões de pesetas e uma marca de acessórios de banheiro que durou 20 anos. Aos 80 anos, depois de aposentada, Juana conheceu o Brasil e decidiu abrir a Joller Toilletes de Luxo, com sede em São Paulo. A empresa produz, aqui, torneiras e acessórios de luxo para banheiros, folhadas a ouro, com pedras nativas, como o quartzo verde. O preço da suntuosidade? Cada jogo de torneiras sai por R$6 mil.

Por que a senhora começou a desenhar acessórios de luxo para lavabos?

JUANA OLLER AZNAR: Só depois de me casar que percebi que meu marido era um homem decorativo (risos). Vi que, se fosse esperar pelo dinheiro dos nossos pais, meu status econômico despencaria. Tive uma empresa de roupas, a Joller Textil, de 54 a 66. Então, aceitei o desafio dos donos de uma marca de azulejos de parede para a qual meu marido começou a trabalhar: vender seus produtos em quantidade. Eles faziam peças lindas, mas que não vendiam. Então desenhei e montei um “cuarto de baño” inteiro, que ficou exposto na vitrine da loja. Foi sucesso total. As pessoas queriam comprar não só os azulejos, mas as torneiras e todos os outros acessórios do lavabo. Montei minha empresa de peças de alto luxo em 1968. E a primeira venda que fizemos foi grande: de 2 milhões de pesetas. A partir daí, começamos a fabricar e fabricar, durante 20 anos, que foi o período de duração do negócio.

Quando começou, quase não havia mulheres empreendedoras. Como foi se lançar a isso na Espanha dos anos 60?

JUANA: Não tive nenhum problema. Descobri uma coisa muito importante: a mulher, quanto mais bonita, mais inteligente e culta tem que ser. Para ser ela mesma, tem que ser inteligente e dominar a situação: tem que saber mais que os homens, porque, se falha, vão dizer que é porque é mulher. Mas se não falha, vão dizer: caramba, ela me superou, ela é única.

Então a senhora se considera uma mulher especial?

JUANA: A questão é que os homens não querem aceitar que a competência das mulheres seja uma coisa global. Quando você é muito boa, eles agem como se fosse uma exceção. Mas aconselho a todas as mulheres que querem triunfar que sejam únicas, sim. Que dêem conselhos a um homem, mas nunca perguntem a eles o que fazer (risos).

Como a senhora descobriu o Brasil?

JUANA: Há quatro anos, resolvi me aposentar. Vim ao Brasil a passeio, a convite de uma amiga, que tem casa em Guarujá, São Paulo. Fiquei encantada. Só fazia tomar banho de mar e beber água de coco o dia todo. Meu filho veio e gostou também. Então, achei que valia a pena arriscar, e abri o escritório em São Paulo (no Espaço JK). Hoje a Joller Toilletes de Luxo tem patente registrada no país, é uma marca brasileira. Oito artesãos brasileiros trabalham para nós, com pedras nativas, como quartzo verde e sodalita azul. E com ouro 24 quilates.

A senhora fez alguma adaptação no modelo das torneiras?

JUANA: Sim. Em relação ao que fazia na Espanha, fiz duas mudanças: uma foi incluir as pedras brasileiras. A outra foi criar um mecanismo para que a parte da jóia fosse uma peça à parte, que pode ser desatarraxada na hora da instalação. O banheiro tem de ser prático.

A senhora disse que ficou encantada com o Brasil. O que ele tem de especial, na sua visão?

JUANA: O Brasil é o coração da terra, o pulmão e as entranhas do mundo. Tem muitas possibilidades que, infelizmente, os próprios brasileiros desconhecem. Se soubessem, se levantariam todas as manhãs e dariam pulos de alegria no meio da rua, por serem brasileiros.

Onde são vendidas as peças da Joller? Qual é o futuro da empresa?

JUANA: Hoje só vendemos em lojas de São Paulo, além de divulgarmos o trabalho em escritórios de arquitetura. Estamos fechando negócio com uma loja no Rio e queremos expandir também para outras cidades do país, como Curitiba. O futuro é exportar para Índia e Rússia, mercados com muito potencial. Outra idéia que já estamos colocando em prática é fabricar complementos para banheiros e lavabos, como maçaneta cromada, chuveirinho e toalheiro.

A senhora é mãe de dois filhos e avó de um rapaz de 26 anos. Quantas vezes se casou?

JUANA: Eu me casei uma só vez. Fui fiel ao meu marido por 18 anos. Logo que me separei dele, tive cinco amantes, um depois do outro (risos). Separei-me em 69. Era difícil na Espanha mas, como havia estudado direito, fiz tudo do jeito certo. Fui à polícia deixar meus filhos sob a custódia de meus pais, enquanto a separação tramitava.

Você é uma mulher decidida.

JUANA: Enquanto tiver energia e capacidade, vou continuar decidindo. Se as decisões forem boas, comemora-se. Se forem ruins, trazem experiência. A experiência de vida é a melhor universidade que existe.

 

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