01/10/2006

O barulho de cada dia

Fonte: O Globo

Especialistas medem níveis de ruído nos centros de Duque de Caxias e Nova Iguaçu e constatam excessos prejudiciais à saúde auditiva

Acordar ao som de passarinhos é um privilégio para poucos. Para a maioria dos moradores de centros urbanos, o que invade as manhãs é o barulho da cidade, com suas buzinas, caixas de som, obras e apitos. Além de incômodos, os ruídos excessivos podem causar danos à audição, como explica o fonoaudiólogo especialista em audiologia Marcelo dos Santos, professor da Unigranrio e da Faculdade de Reabilitação da Associação de Solidariedade à Criança Excepcional (Asce):

— A exposição contínua a altos níveis de ruído pode provocar insônia, irritabilidade, fadiga, hipertensão e agravamento de doenças cardíacas. Fora isso, a pessoa pode apresentar perda da capacidade auditiva a longo prazo.

Santos e o consultor de segurança e saúde do meio ambiente Roger Lee, da empresa de consultoria em gestão Magno’s Quality, mediram, a pedido do GLOBO-Baixada, os níveis de ruído na esquina das ruas José Alvarenga e Mariano Sendra dos Santos, no Centro de Caxias, ao meio-dia. No local, onde além de camelôs, há um supermercado e um ponto final de ônibus, a média foi de 85 decibéis, 30,8 % acima do tolerável.

— A comunidade científica confirmou em pesquisas recentes que níveis de ruído até 65 decibéis são toleráveis, sem causar alteração física ou emocional. A partir de 80, já temos uma situação de alerta. Acima de 85 decibéis, é necessário o uso de protetores.

Há 30 anos vendendo jornais e revistas numa banca na esquina das ruas em questão, Eugênio Olivieri, de 65 anos, diz estar acostumado com o barulho. Sem usar protetores, ele confessa sentir um dos principais efeitos colaterais da exposição a altos níveis de ruído:

— Vou ficando irritado ao longo do dia. E não temos onde reclamar.

Segundo Marcelo dos Santos, o prejuízo auditivo não é percebido em muitos casos:

— A deterioração da função auditiva começa pela captação de freqüências mais agudas, menos usadas na comunicação diária. Com o tempo, a captação das freqüências médias e graves também fica prejudicada. A pessoa começa a aumentar o volume da televisão e do rádio e a falar mais alto, porque não ouve a própria voz.

O guarda Wagner Barbosa, que orienta o trânsito na mesma esquina onde trabalha o jornaleiro, admite que contribui para o barulho, mas também se sente prejudicado.

— O pior ruído é o do meu apito. Mas quando o trânsito fica tumultuado, preciso usá-lo — justifica ele, após o dosímetro (aparelho que faz a medição) registrar 115,9 decibéis quando ele apitou.

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